Marcelo sempre foi o funcionário que todos admiravam. Era o primeiro a chegar, o último a sair e nunca dizia “não”. Durante anos, acreditou que dedicação era sinônimo de disponibilidade absoluta. Que não havia diferença entre trabalho e vida pessoal.
Até que um dia percebeu que não conseguia mais responder um simples e-mail sem sentir uma ansiedade intensa. O coração disparava a cada notificação no celular ou ligação inesperada. O sono estava cada vez pior. E junto a sensação de cansaço crônico.
Não era falta de competência. Era “burnout”. Junto com ele a falta de esperança, ansiedade e tristeza.
Nem toda pessoa que trabalha muito desenvolve “burnout”. Mas praticamente toda pessoa com “burnout” passou tempo demais acreditando que precisava dar conta de tudo. De que poderia funcionar como uma máquina.
Mas além dessa pressão interna de performance, existem as pressões externas como prazos curtos de entrega, assédio moral, problemas de relacionamento na equipe, questões com os chefes, equipes reduzidas, distância do trabalho e a própria questão de estar ou não encaixado no lugar certo.
“Burnout” não é frescura. Já passei diversas vezes por isso trabalhando em corporações e posso dizer com propriedade que é difícil.Talvez essa experiência tenha contribuído para a minha escolha pela psicologia. Primeiro precisei aprender a lidar com o meu próprio “burnout”. Depois, com o de amigos. E hoje as pessoas que chegam ao consultório vivendo esse sofrimento.
O fato é que todos os níveis hierárquicos estão sujeitos a isso. Do chão de fábrica ao CEO. O chão de fábrica recebe exigências excessivas. O CEO lida com a solidão das decisões e a pressão por números.
Durante muito tempo esse sofrimento foi tratado apenas como “estresse”. Hoje sabemos que ele tem nome, critérios diagnósticos e, mais recentemente, passou a receber maior atenção também na legislação trabalhista.
Surgiu a NR-1 que não resolverá esses problemas, mas pelo menos irá mapear, falar sobre o assunto e punir empresas que não tratam essa questão com seriedade. É um marco.
O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos de saúde mental em 2025, um aumento de 15% em relação a 2024 São os maiores números da última década segundo o Ministério da Previdência Social.
Mas será que a culpa é somente das empresas? Elas podem ter uma grande participação, e isso se inicia na própria contratação. Uma contratação errada vai gerar sofrimento para todos. O colaborador não vai performar e entregará o básico com o nível de estresse mais alto. A empresa não receberá o que está esperando. No final as duas partes ficam insatisfeitas.
Também existe a responsabilidade do colaborador de cuidar da própria saúde física e emocional. Dormir bem, praticar atividade física, desenvolver resiliência, capacidade de trabalhar em equipe e inteligência emocional para aumentar as chances de enfrentar ambientes exigentes sem adoecer.
Existem empresas adoecedoras. Existem chefes e equipes hostis. Mas também pessoas incapazes de pedir ajuda, de estabelecer limites ou de aceitar que não conseguirão fazer tudo perfeitamente. Algumas carregam a crença de que seu valor depende exclusivamente daquilo que são profissionalmente.
Quando essa combinação encontra um ambiente de alta pressão ou de assédio, o resultado costuma ser devastador. E o “burnout” pode aparecer.
Talvez o maior desafio não seja apenas ensinar as empresas a cuidar da saúde mental de seus colaboradores. Talvez seja ensinar cada um de nós a reconhecer que produtividade não pode ser a única medida de valor de uma vida. E até mesmo se você deve continuar nessa empresa ou mudar de carreira.
Trabalhar é importante. Entregar resultados também. Mas nenhum cargo, bônus ou promoção compensa perder a capacidade de dormir em paz, de estar presente com a família ou de sentir prazer nas pequenas coisas.
No fim das contas, uma carreira de sucesso não é aquela que consome a sua saúde, mas aquela que permite que você continue saudável para vivê-la.
Fonte: Folha Vitória