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*Artigo escrito por Daniel Garcia Ferreira, CFO do Grupo Coutinho, Membro do CFO Connection e do Comitê Qualificado de Conteúdo de GRC do IBEF-ES.
Durante muitos anos, a discussão tributária permaneceu confinada em uma sala específica da empresa. Era comum que diretores, operações, comercial, compras e até tecnologia da informação enxergassem o tema como uma responsabilidade exclusiva do departamento fiscal.
Afinal, bastava “apurar o imposto”, entregar obrigações acessórias e responder eventuais fiscalizações, enquanto o restante da companhia seguia operando como se estivesse distante daquela engrenagem.
A reforma tributária mudou completamente essa lógica. O que antes era interpretado como um debate técnico passou a interferir diretamente em formação de preço, margem operacional, cadeia de suprimentos, contratos comerciais, sistemas internos, estrutura logística e, principalmente, na capacidade de se movimentar rapidamente sem perder competitividade.
E é justamente aqui que muitas organizações podem estar cometendo um erro silencioso: o de acreditar que a reforma tributária será resolvida apenas com atualização de ERP, revisão de NCM ou parametrização fiscal.
A transformação tributária em curso exige uma reconstrução cultural dentro das companhias.
Ela atravessa setores, desafia lideranças e obriga empresas inteiras a abandonarem hábitos antigos operacionais que sobreviveram por décadas dentro de estruturas pouco integradas, e a empresa que continuar tratando a reforma tributária como um projeto isolado do departamento fiscal provavelmente descobrirá tarde demais que o impacto financeiro não nasce apenas do imposto recolhido, mas das decisões tomadas antes de a tributação acontecer.
O cenário passa a ser estratégico, quando compras compreende a importância do crédito fiscal, comercial concede descontos que não impacte na margem, logística cria rotas com eficiência, tecnologia implementa atualizações, jurídico adequa contratos e a alta gestão acompanha todo o processo e oferece o apoio necessário.
A reforma tributária além de impactar na necessidade de organização do fluxo de caixa das empresas, irá afetar a cultura decisória corporativa, e nesse ponto poucas organizações perceberam a profundidade dessa mudança.
A reforma tributária não será vencida pelo time tributário
Uma imagem perigosa pode estar se formando em muitas empresas: a de que o time tributário será uma espécie de “herói técnico” capaz de absorver sozinho toda a complexidade da transição. Sob essa perspectiva, a nova dinâmica tributária exige integração absoluta entre áreas que historicamente trabalharam em silos.
A área comercial, por exemplo, precisará reaprender a construir política de preços. Não apenas olhando concorrência e margem, mas também considerando créditos, não cumulatividade, carga efetiva e reflexos financeiros ao longo da cadeia.
Compras precisará revisitar sua carteira de fornecedores, e assim ter o olhar crítico de sua estrutura contratual e racional de negociação. Em muitos casos, a escolha deixará de ser apenas uma análise de custo imediato, passando a envolver eficiência tributária de longo prazo.
Tecnologia será uma área de criticidade e apoio estratégico. A reforma exigirá rastreabilidade, integração de dados, consistência cadastral e confiabilidade operacional. Empresas que convivem com cadastros desorganizados, parametrizações improvisadas e controles paralelos em planilhas poderão enfrentar riscos severos.
Operações e logística, deverão compreender a malha operacional e seus impactos tributários relevantes, principalmente em estruturas com múltiplos centros de distribuição, operações interestaduais e estratégias comerciais pulverizadas.
A empresa do futuro não será aquela que possuir apenas um excelente departamento tributário, mas sim aquela que conseguir transformar inteligência tributária em inteligência corporativa, porque o maior risco da reforma talvez não esteja na legislação em si, mas na incapacidade em promover alinhamento interno suficiente para operar dentro dela.
O papel da alta gestão: apoiar, decidir e liderar a travessia
Transformações profundas costumam revelar um comportamento bastante comum nas empresas: a liderança apoia o projeto no discurso, mas permanece distante dele na prática.
Em virtude dos impactos da reforma tributária, esse afastamento poderá custar caro, já que nenhuma adaptação estrutural relevante acontecerá sem participação efetiva da alta gestão. E isso ocorre porque as mudanças exigirão investimentos, redefinição de prioridades e processos, alterações sistêmicas e, principalmente, decisões difíceis.
Poderá haver momentos em que a empresa precisará escolher entre manter antigos modelos operacionais ou enfrentar rupturas necessárias para preservar competitividade futura e essa decisão não pertence ao analista fiscal, e sim à liderança.
O CEO precisará compreender que a reforma tributária não é apenas um tema jurídico-contábil, já que ela impacta estratégia, crescimento, expansão, rentabilidade e posicionamento de mercado.
O CFO, por sua vez, assume um protagonismo inevitável nessa jornada. Caberá a ele a responsabilidade de transformar a reforma em pauta corporativa, conectar áreas, medir impactos financeiros, priorizar investimentos e evitar que a companhia trate a transição apenas como obrigação regulatória.
Empresas que estão avançadas no tema já começaram a criar comitês multidisciplinares envolvendo fiscal, financeiro, operações, jurídico, tecnologia, compras, comercial e compliance.
Não como cerimônia corporativa, mas como mecanismo real de governança da transição tributária, já que o tema exige liderança visível, comunicação constante, capacidade de mobilização e coragem para admitir que muitos processos atuais talvez não sobrevivam ao novo ambiente tributário.
A alta gestão que permanecer de fora desse processo, acompanhando apenas relatórios do departamento fiscal poderá descobrir tarde demais, que o problema nunca esteve apenas no imposto, mas na falta de integração corporativa para lidar com ele.
Compliance fiscal: de ferramenta de controle para instrumento de sobrevivência
Durante muito tempo, compliance fiscal foi associado apenas à ideia de controle, auditoria e prevenção de penalidades, e com toda essa transformação que está por vir, passa a ocupar uma posição muito mais estratégica.
Num ambiente tributário que exigirá rastreabilidade, coerência de dados e transparência operacional, o compliance deixa de ser um mecanismo defensivo e assume papel central na sustentação da governança empresarial.
Isso porque a reforma tributária ampliará drasticamente a necessidade de consistência entre informações financeiras, fiscais, operacionais e comerciais. Pequenos desalinhamentos poderão gerar impactos relevantes em créditos, recolhimentos, compensações e obrigações acessórias.
Empresas que ainda operam com excesso de intervenção manual, ausência de trilhas de auditoria, fragilidade cadastral ou dependência de conhecimento concentrado em uma única área ou em poucas pessoas, estarão mais vulneráveis, e é aqui que surge a necessidade de uma mudança importante de mentalidade.
Compliance fiscal não deve mais ser visto apenas como ferramenta de fiscalização interna. Ele precisa atuar como inteligência preventiva da companhia, pois, mais do que identificar falhas, passa a apoiar decisões, oferecer previsibilidade, proteger reputação, reduzir exposição financeira e, talvez o mais importante: passa a criar confiança organizacional em um ambiente de mudança intensa.
Empresas que compreenderem cedo esse movimento serão mais competitivas, não apenas porque reduzirão riscos, mas porque ganharão capacidade de adaptação mais rápida diante de um cenário ainda cercado por dúvidas operacionais e regulamentares.
A reforma tributária não será vencida apenas por quem entender melhor a legislação, mas sim por quem conseguir integrar pessoas, tecnologia, governança e cultura empresarial dentro de uma mesma direção estratégica.
No fim, talvez essa seja a principal reflexão deixada por toda essa transformação: o verdadeiro desafio não será o de calcular tributos diferentes, mas o de construir operações de forma mais eficiente, competitiva e sustentável.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
Fonte: Folha Vitoria