Azeite das montanhas capixabas: Foco em produção controlada, qualidade e alto padrão para se tornar referência em todo país. Crédito: Divulgação
O azeite capixaba Altoé deu um passo importante para consolidar a definição de marca premium. A parceria fechada nesta quarta (29) entre o produtor Leonardo Altoé e a rede de cafeterias Terrafé marca uma nova etapa para produto. A marca estará em três unidades da rede – Praia do Canto, Aeroporto e Fucape. E, do mesmo modo, entrará nos jantares mensais promovidos pela cafeteria. O acordo não muda, de imediato, o tamanho da produção. Mas amplia a exposição do produto diante de um público com maior poder de compra e maior disposição para experimentar alimentos de alta qualidade e valor agregado superior.
Esse é o ponto central da estratégia. Leonardo não tenta competir com os azeites importados de grande escala nem com as marcas vendidas a preços baixos nos supermercados. Ele aposta em outro mercado. O de produtos premium, associados a território, frescor, rastreabilidade e experiência. E é com esses indicadores que o turismo também funciona como um espaço a ocupar. Nesse segmento, a distribuição não serve apenas para colocar o azeite na prateleira. Ela ajuda a explicar por que 250 ml podem custar mais de R$ 100.
A produção ainda impõe limites. A safra deste ano, encerrada em fevereiro, gerou entre 900 e mil litros, o equivalente a aproximadamente 4 mil garrafas de 250 ml. Cerca de metade desse volume já encontrou compradores. Mesmo assim, Leonardo afirma que trabalha com margem reduzida e, em algumas parcerias, pratica valores próximos ao custo. O objetivo de 2026 não é maximizar o lucro, mas ganhar mercado, criar recorrência e construir uma base de consumidores. A estratégia sacrifica retorno no curto prazo para tentar elevar o valor da marca no futuro.
Qualidade do azeite antes da escala
O diferencial começa no campo. A oliveira precisa acumular frio, normalmente em áreas elevadas ou em microrregiões com temperaturas adequadas. Leonardo mantém sua propriedade em Alto Santa Joana, em Afonso Cláudio. Ele também compra azeitonas de produtores que seguem padrões técnicos semelhantes.
Depois da colheita, o tempo se torna decisivo: as azeitonas precisam chegar ao processamento no mesmo dia para reduzir oxidação, preservar aromas e evitar defeitos. Nesse mercado, qualidade não depende apenas da variedade plantada. A combinação entre clima, manejo, sanidade do fruto e velocidade de extração faz toda a diferença.
As premiações internacionais reforçam a busca por qualidade. Em 2026, os azeites Altoé conquistaram medalhas de ouro na Itália, no Reino Unido e no Japão, além de platina e ouro na Turquia. Esses resultados têm valor comercial. Do mesmo modo, cumprem uma função ainda mais importante: oferecem uma validação externa para uma marca nova, produzida em um Estado sem tradição consolidada na olivicultura.
Leonardo também buscou formação técnica na Universidad de Jaén, na Espanha, um dos principais centros mundiais de conhecimento sobre azeite. A trajetória combina administração, tecnologia e especialização no produto, uma mistura pouco comum no agronegócio de pequena escala.
Produção depende de decisões vitais
O próximo passo exige uma decisão mais complexa. Leonardo avalia comprar novas terras, montar uma fábrica própria e criar um empório com azeites, mudas, café e outros produtos das montanhas. O turismo aparece como parte essencial desse desenho. A ideia é receber visitantes, mostrar os olivais, oferecer degustações e transformar o azeite em experiência.
Esse modelo pode gerar mais receita por litro e reduzir a dependência da venda tradicional. Também pode conectar a marca ao fluxo turístico de Pedra Azul, Aracê e Caxixe, onde gastronomia, hospedagem e produtos artesanais já movimentam uma economia baseada em diferenciação.
O desafio está em equilibrar ambição e capital. Uma fábrica própria exige investimento elevado. A compra de terras amplia a capacidade produtiva, mas não garante demanda. Um espaço turístico depende de acesso, localização e fluxo constante de visitantes. Além disso, o Espírito Santo ainda precisa formar consumidores capazes de distinguir um azeite novo, puro e premiado de produtos industriais mais baratos.
A parceria com o Terrafé ajuda a enfrentar esse gargalo, porque aproxima o azeite da gastronomia e do consumidor. Porém a consolidação nacional depende de três sinais. Aumento sustentável da produção, ampliação dos pontos de venda bem como a criação de uma estrutura turística capaz de transformar qualidade em receita recorrente.
Fonte: Folha Vitoria