Foto: Thiago Soares/Folha Vitória e Divulgação/PCES
O fentanil desviado de hospitais no Espírito Santo era misturado a cocaína por traficantes para potencializar os efeitos da droga e aumentar a dependência dos usuários, segundo a Polícia Civil.
A substância, que é cerca de 100 vezes mais potente que a morfina, fazia parte de um esquema de retirada e venda ilegal de medicamentos de uso controlado descoberto pelo Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc).
O fentanil é cerca de 100 vezes mais forte do que a morfina. Então, traficantes se aproveitam disso para misturar outras drogas, para aumentar a potencialidade e viciar o usuário mais facilmente. E aí ele consegue oferecer mais lucro, que é sempre o objetivo final do traficante.
Ricardo Almeida, delegado titular do Denarc
Segundo as investigações, além do fentanil, também eram desviados medicamentos como morfina, cetamina e adrenalina. As substâncias eram retiradas do ambiente hospitalar e revendidas a traficantes, que utilizavam os produtos para reforçar o efeito de outras drogas comercializadas.
A operação resultou na prisão de uma técnica de enfermagem, de 31 anos, suspeita de desviar os medicamentos, e de um homem, de 37 anos, apontado como receptador e traficante. Um terceiro investigado, preso em novembro do ano passado, teria atuado como intermediário entre a profissional de saúde e o traficante.
De acordo com a delegada Fernanda Prado, adjunta do Denarc, o esquema começou a ser descoberto após a prisão do intermediário, em novembro de 2025.
Com o avanço das investigações, a polícia identificou a técnica de enfermagem como responsável pelo fornecimento dos medicamentos e chegou ao suspeito que comprava os produtos para revendê-los ao tráfico.
“Esse preso inicialmente pegava esses produtos e fazia essa revenda para pessoas que estavam envolvidas com o tráfico de drogas. A partir do recebimento dessa substância, esse traficante fazia as misturas em outras drogas, como a cocaína, e passava a vender essas drogas”, afirmou a delegada.
Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, os policiais encontraram morfina nas casas dos dois investigados. Na residência da técnica de enfermagem, também foram apreendidos comprimidos de ecstasy e sete “catuques”, bilhetes usados para comunicação entre presos.
Já na casa do outro suspeito foram localizados uma arma de fogo, munições, uma balança de precisão e outros materiais.
Suspeita disse que esqueceu medicamento no bolso do uniforme
A técnica de enfermagem negou ter desviado os medicamentos do hospital. Segundo a delegada, ela afirmou que a morfina encontrada em sua residência teria sido esquecida no bolso do uniforme, mas admitiu que a substância seria vendida.
“Ela afirmou que esqueceu o medicamento dentro do bolso e não reportou isso. Apesar de negar que estivesse desviando a morfina, ela admitiu que essa droga que foi encontrada com ela seria destinada à comercialização”, disse Fernanda Prado.
A Polícia Civil ainda não identificou de qual unidade de saúde os medicamentos foram retirados. Como a investigada trabalha como técnica de enfermagem há cerca de seis anos e passou por diferentes locais, as investigações continuam para localizar a origem dos desvios e identificar outros possíveis envolvidos.
Polícia teme circulação de fentanil fora dos hospitais
Durante a coletiva, a Polícia Civil destacou a preocupação com a circulação do fentanil fora do ambiente hospitalar. O medicamento é um opioide de uso restrito, indicado para o tratamento de dores intensas, e não é vendido em farmácias.
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno, o Estado tem tratado com prioridade informações relacionadas ao desvio da substância para evitar problemas semelhantes aos registrados em outros países.
“Esse tipo de informação é tratada pelo Denarc com muito cuidado, com prioridade, para que a gente não permita que passemos pelo que outros países têm passado em relação a essa substância”, afirmou.
O delegado ressaltou que o fentanil tem alto potencial de dependência e pode causar overdose quando combinado com outras drogas.
Nos Estados Unidos, onde há produção clandestina da substância, o opioide está associado a uma epidemia de mortes por overdose. No Brasil, segundo a Polícia Civil, os casos identificados estão relacionados principalmente ao desvio de medicamentos de uso hospitalar.
80 comprimidos de sulfato de morfina;
3 ampolas de sulfato de morfina;
1 ampola de sulfato de haloperidol;
18 comprimidos de ecstasy (MDMA);
15 munições calibre .380;
Fonte: Folha Vitória