Existem mais de quinze formas de magnésio disponíveis no mercado. Cada uma tem um teor elementar diferente, uma taxa de absorção diferente e uma afinidade diferente por tecidos específicos. Entender isso vale mais do que escolher pelo preço.
Todo mês, a mesma cena. Uma pessoa chega com um pote de magnésio comprado pela internet, outro indicado por uma amiga e um terceiro que o médico prescreveu. Três produtos diferentes. Três promessas diferentes. E uma pergunta que ninguém fez antes de comprar nenhum deles: quanto de magnésio elementar cada um está, de fato, entregando por dose?
Por que o magnésio importa tanto
O magnésio é o quarto mineral mais abundante no corpo humano. Está presente em todas as células. Participa de mais de 600 reações enzimáticas essenciais: da produção de energia ao funcionamento do sistema nervoso, da contração muscular à regulação da glicose, da síntese de proteínas à manutenção do ritmo cardíaco.
Existe um detalhe que poucas pessoas conhecem. O ATP, a molécula de energia que alimenta cada célula do corpo, não funciona sozinho. Para liberar energia e realizar trabalho celular, ele precisa estar ligado a uma molécula de magnésio. Sem magnésio disponível, as mitocôndrias, as usinas de energia das células, não conseguem processar glicose e gordura com eficiência. O resultado aparece como fadiga, baixa disposição e dificuldade de recuperação.
Praticamente toda célula do corpo tem receptores para magnésio. Ele não é um mineral de nicho. É um mineral de base. E quando falta, o efeito é amplo, progressivo e raramente associado a ele.
Os sintomas que ninguém conecta ao magnésio
Se você está na faixa dos 40 anos, na menopausa, ou simplesmente sente que o corpo não recupera mais como antes, preste atenção nos sintomas abaixo. A chance de o magnésio estar no centro do problema é maior do que parece.
Cãibras noturnas. Espasmos musculares. O supercílio que treme sem parar. Insônia. Ansiedade sem motivo aparente. Enxaqueca recorrente. Fadiga que não passa com descanso. Irritabilidade. Palpitações. Constipação.
Esses sintomas chegam ao consultório com frequência. Raramente alguém pergunta sobre magnésio.
Em 30 anos de farmácia magistral, esse é um dos padrões que mais vejo: sintomas dispersos, exames normais e um mineral de base sendo ignorado por profissionais e pacientes ao mesmo tempo.
O erro clássico: cãibra é falta de potássio
Quando alguém acorda de madrugada com cãibra, a primeira resposta costuma ser: preciso comer mais banana. A associação entre cãibra e potássio está tão enraizada que virou senso comum.
Mas o magnésio é o mineral mais negligenciado nessa equação.
O músculo contrai quando o cálcio entra na célula muscular. Para relaxar, o cálcio precisa sair. Quem faz esse trabalho é a bomba de sódio e potássio, uma proteína presente na membrana celular que depende diretamente de magnésio para funcionar. Sem magnésio, a bomba perde eficiência, o cálcio fica retido dentro da célula e o músculo não consegue relaxar completamente.
Repor potássio sem repor magnésio pode não resolver. A cãibra persiste porque o problema estava em outro lugar.
O problema do exame sérico
Você faz o exame de magnésio no sangue. O resultado vem dentro do intervalo de referência. O médico diz que está normal. E os sintomas continuam.
O exame sérico mede apenas o magnésio que circula no plasma sanguíneo. Esse compartimento representa aproximadamente 0,3% do magnésio total do corpo. O restante está dentro das células, nos músculos e nos ossos, onde ele de fato trabalha.
O organismo regula o magnésio sérico com prioridade. Quando o estoque dentro das células começa a cair, o corpo retira magnésio dos ossos e dos músculos para manter o nível no sangue dentro da faixa normal. O exame continua normal. A deficiência dentro das células já está instalada.
Dar mais importância aos sintomas clínicos do que ao número do laudo não é especulação. É o que a literatura científica recomenda para o magnésio.
Por que o número na embalagem não é o que você absorve
O magnésio precisa estar ligado a outra molécula para formar um composto estável. Essa molécula composta é o que aparece no rótulo: bisglicinato de magnésio, citrato de magnésio, óxido de magnésio.
O peso total desse composto inclui o magnésio e a molécula à qual ele está ligado. O magnésio elementar é a fração real do mineral, descontada a massa do restante. E essa fração varia enormemente entre as formas.
Um produto com 500 mg de óxido de magnésio contém aproximadamente 300 mg de magnésio elementar. Parece muito. Mas a taxa de absorção do óxido no intestino é de aproximadamente 4%. Na prática, o corpo aproveita cerca de 12 mg desses 300 mg.
Um produto com 500 mg de bisglicinato de magnésio contém aproximadamente 70 mg de magnésio elementar. Parece pouco. Mas a absorção é alta porque o magnésio quelado usa uma via de absorção mais eficiente, a mesma usada pelo organismo para absorver proteínas.
Mais magnésio no rótulo não significa mais magnésio no organismo.
Teor de magnésio elementar × taxa de absorção.
A tabela que ninguém coloca na prateleira
Formas inorgânicas de magnésio
FormaMagnésio elementarAbsorçãoUso principalÓxido de magnésio57 a 60%Aproximadamente 4%Laxante e antiácido. Alto teor, baixa absorção real.Hidróxido de magnésioAproximadamente 42%BaixaAntiácido ocasional.Carbonato de magnésioAproximadamente 28%Baixa a moderadaAntiácido.Sulfato de magnésioAproximadamente 10%Baixa por via oralUso hospitalar intravenoso. Sal de Epsom.Cloreto de magnésioAproximadamente 12%ModeradaReposição básica por via oral.Fosfato de magnésioAproximadamente 22%ModeradaPouco utilizado em suplementação oral isolada.
Formas orgânicas e queladas
FormaMagnésio elementarAbsorçãoUso principalBisglicinato (quelato/glicinato)Aproximadamente 20%AltaSono, ansiedade, função neuromuscular e reposição sistêmica.Citrato de magnésio11 a 16%AltaReposição geral e constipação.Dimalato/Malato12 a 15%AltaEnergia celular, fadiga, dor muscular e fibromialgia.GluconatoAproximadamente 5%Muito altaDeficiências leves e sensibilidade digestiva.TauratoAproximadamente 8%AltaSaúde cardiovascular, pressão arterial e glicose.Acetil tauratoAproximadamente 10%Muito altaNeuromodulação, ansiedade e suporte cardiovascular.TreonatoAproximadamente 8%Alta, com preferência pelo sistema nervoso centralCognição, memória e neuroproteção.AspartatoAproximadamente 8%AltaRecuperação muscular e fadiga.
Uma nota sobre o treonato de magnésio
O treonato de magnésio é frequentemente associado à melhora da memória, da concentração e das funções cognitivas.
Ele consegue atravessar com mais facilidade a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e controla o que chega ao sistema nervoso central.
Isso o torna interessante para objetivos neurológicos. Mas existe um detalhe que a embalagem não menciona.
Quando o magnésio entra na circulação, o organismo o distribui conforme a demanda de cada célula. Se existe deficiência sistêmica, músculos, coração e outros tecidos capturam primeiro o mineral disponível antes que ele chegue ao cérebro em quantidade ideal.
Ter preferência pelo cérebro não significa exclusividade.
A lógica integrativa é simples: primeiro corrige-se a deficiência sistêmica com uma forma de alta biodisponibilidade e dose suficiente. Depois, se o objetivo for cognitivo, o treonato pode ser acrescentado com muito mais chances de chegar ao sistema nervoso central.
Usar o mais especializado antes de corrigir o básico é como comprar um tênis de alta performance para alguém que ainda não consegue caminhar sem dor.
O raciocínio que o marketing não quer que você faça
Você encontra um suplemento chamado “Top 7 Magnésio“, com sete formas diferentes em uma única cápsula.
Mas quanto de magnésio elementar cada cápsula realmente entrega?
Quando o magnésio é dividido entre sete formas, cada uma recebe apenas uma fração do total. A diversidade pode ser interessante, mas não substitui uma dose suficiente.
Dose insuficiente de magnésio elementar não corrige deficiência sistêmica.
A pergunta certa antes de comprar
Uma única pergunta muda completamente a escolha:
Quanto de magnésio elementar este produto entrega por dose diária?
Não a quantidade total do composto.
Não o número de formas diferentes.
O magnésio elementar real, em miligramas, que será absorvido diariamente.
Essa informação deveria estar no rótulo, nas informações nutricionais. Se não estiver clara, peça ao farmacêutico que faça esse cálculo.
E muda completamente a forma de avaliar o custo-benefício de qualquer suplemento de magnésio.
E, para o magnésio, o que pesa é o magnésio elementar absorvido, não o número estampado na frente da embalagem.
Seguimos…
Raigna Vasconcelos é farmacêutica magistral há 30 anos em Vitória. Processa mais de mil fórmulas por dia, assessora médicos em protocolos metabólicos e testa no próprio corpo o que recomenda.
Acompanhe no Instagram: @raignavasconcelos.
Fonte: Folha Vitória