Marcelo Saintive acredita que o Bandes deve ser protagonista no processo de transição energética do ES. Crédito: Dimvulgação
O Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) deixou de ser apenas uma referência em crédito e passou a ocupar um espaço mais amplo na economia capixaba. O banco entrou em agendas que apontam para o futuro do Espírito Santo. Falamos de descarbonização, Fundo Soberano, inovação, infraestrutura, PPPs, cidades inteligentes bem como apoio aos pequenos negócios. Mais do que financiar projetos, a instituição busca estruturar soluções capazes de atrair capital, destravar investimentos e aumentar a competitividade do Estado.
Esse movimento mostra uma mudança importante na forma de pensar desenvolvimento. O crédito continua essencial. No entanto, agora aparece ao lado de fundos estratégicos, projetos sustentáveis, parcerias com municípios e instrumentos para transformar recursos finitos, como os royalties do petróleo, em legado econômico permanente. Para entender como o Bandes pretende atuar nessa nova fase e quais oportunidades essa agenda abre para o Espírito Santo, a gente conversa agora com o diretor-presidente do banco, Marcelo Saintive.
Veja abaixo a entrevista com Marcelo Saintive, diretor-presidente do Bandes:
O Bandes passou a atuar em agendas como descarbonização, Fundo Soberano, inovação, PPPs e cidades inteligentes. Quais são as prioritárias?
A prioridade do Bandes é consolidar seu papel como banco de desenvolvimento sustentável, atuando como indutor de investimentos que contribuam para o crescimento econômico e a competitividade do Espírito Santo. Nesse contexto, agendas como descarbonização, inovação, parcerias público-privadas (PPPs), infraestrutura, cidades inteligentes e estruturação de fundos não são iniciativas isoladas. São frentes estratégicas que respondem aos desafios e às oportunidades de negócios que aumentem o valor agregado à economia do Estado.
Mais do que oferecer crédito, o Bandes busca estruturar soluções capazes de mobilizar investimentos, atrair capital e viabilizar projetos com impacto econômico, social e ambiental. Essa é a essência de um banco de desenvolvimento: antecipar tendências, fomentar agendas estratégicas que não seriam viáveis somente por meio do mercado privado e, principalmente, transformar o potencial do Espírito Santo em crescimento sustentável, em inovação e geração de oportunidades para a sociedade capixaba nas próximas décadas.
Na prática, o que o Fundo de Descarbonização diz sobre a estratégia econômica de longo prazo do ES?
Sendo direto, acreditamos que o Espírito Santo possui as condições necessárias para se consolidar como um polo de produção industrial de baixo carbono por meio de uma extensa gama de fontes de energia renovável. Nesse sentido, o Fundo de Descarbonização consiste num instrumento financeiro inovador e de longo prazo que visa transformar uma riqueza finita, proveniente do petróleo e do gás, em um legado permanente de desenvolvimento sustentável e competitividade para o Espírito Santo.
Em outras palavras, é uma forma de utilizar os recursos gerados hoje do setor de combustíveis fósseis para preparar a economia capixaba para os desafios e as oportunidades da transição para uma economia de baixo carbono. Para isso, o fundo foi estruturado com governança robusta, critérios técnicos e diretrizes alinhadas às melhores práticas de mercado e às normas da CVM e da ANBIMA, direcionando investimentos para áreas estratégicas. Como energias renováveis, biocombustíveis, eletrificação, agricultura sustentável bem como tecnologias limpas, em consonância com o Plano Estadual de Descarbonização.
Trata-se de uma estratégia que fortalece a capacidade do Estado de atrair investimentos, estimular a inovação e promover um desenvolvimento econômico cada vez mais sustentável.
O fundo nasce com capital público, mas foi estruturado para atrair recursos privados. Como o Bandes pretende operar esse modelo?
O Fundo foi concebido justamente para utilizar o capital público como instrumento de indução ao investimento privado, seguindo a lógica do blended finance. O objetivo é adequar os riscos aos retornos esperados por cada investidor e, com isso, ampliar a confiança dos investidores e multiplicar a capacidade de financiamento de projetos voltados à transição para uma economia de baixo carbono.
Para isso, o Bandes estruturou um modelo com governança robusta, gestão profissional e critérios técnicos alinhados às melhores práticas de mercado. Essa arquitetura proporciona maior segurança, transparência e previsibilidade aos investidores, criando um ambiente favorável para a atração de novos aportes. Com isso, buscamos ampliar o volume de recursos disponíveis para projetos sustentáveis e acelerar a agenda de descarbonização no Espírito Santo.
Quais setores da economia capixaba têm maior potencial para acessar o fundo? E como tem sido a experiência até agora?
O Fundo foi estruturado para atender, de forma transversal, os diversos setores da economia.
A descarbonização não é uma agenda restrita a um segmento específico, mas uma oportunidade de transformação de toda a matriz produtiva capixaba.
Assim, setores como energia renovável, indústria, agropecuária sustentável, logística, transporte, gestão de resíduos e tecnologias limpas apresentam elevado potencial para acessar os recursos. Desde que os projetos demonstrem contribuição efetiva para a redução de emissões de Gases de Efeito Estufa ou para a transição para uma economia de baixo carbono.
Não há uma ordem de prioridade entre esses setores. O foco está na qualidade, na viabilidade bem como no impacto socioambiental dos projetos apresentados. A experiência até o momento é bastante positiva, com interesse de diferentes segmentos da economia. Isso confirma que a agenda da descarbonização vem sendo incorporada de forma crescente pelas empresas como uma estratégia de competitividade, inovação e desenvolvimento sustentável.
Como o Bandes vai medir se um projeto financiado pelo fundo realmente gera impacto econômico sem virar ação de marketing ambiental?
O Fundo foi estruturado para assegurar que os recursos sejam destinados a projetos com resultados mensuráveis e efetivos. Para isso, conta com uma política de investimentos sustentáveis, anexa ao regulamento do fundo, com comitês técnicos especializados. Tem ainda critérios de elegibilidade alinhados ao Plano Estadual de Descarbonização e com a obrigatoriedade de indicadores de performance por projeto.
Antes da aprovação, cada projeto passa por uma análise criteriosa de viabilidade, riscos e potencial de redução de emissões. Além da seleção técnica, os investimentos serão acompanhados por indicadores e mecanismos de monitoramento que permitam avaliar tanto os resultados ambientais quanto aos impactos econômicos gerados. Dessa forma, o objetivo é garantir que os projetos entreguem benefícios concretos para a transição para uma economia de baixo carbono, reforçando a transparência, a credibilidade e a integridade do Fundo, e evitando que as iniciativas se limitem a ações de marketing ambiental.
O Fundo Soberano foi criado para transformar a riqueza do petróleo em desenvolvimento permanente. O ES já conseguiu criar cultura de investimento de longo prazo?
O Fundo Soberano representa uma mudança de paradigma seja na gestão dos royalties do petróleo seja no desenho de políticas públicas que privilegiam o impacto socioeconômico dessas políticas.
Ao direcionar parte da riqueza finita para investimentos estratégicos, o Espírito Santo demonstra uma visão de longo prazo. Voltada à construção de uma economia mais diversificada, resiliente e preparada para os desafios do futuro. Essa cultura de investimento de longo prazo vem sendo consolidada por meio de iniciativas que estimulam a inovação, a descarbonização, a infraestrutura e o fortalecimento da competitividade do Estado.
Trata-se de um processo em permanente evolução. Porém, o modelo adotado sinaliza um compromisso consistente com a transformação de receitas temporárias em um legado permanente de desenvolvimento econômico, social bem como ambiental para as próximas gerações.
O Funses 1 já investiu em dezenas de empresas e startups. Que tipo de empresa interessa ao Fundo Soberano?
O Funses 1 busca investir em empresas e startups com potencial de crescimento, inovação e geração de valor para o Espírito Santo. São negócios capazes de transformar o conhecimento, incorporar novas tecnologias e transbordar a inovação. Isso para novos modelos de negócio cujas soluções aumentem a produtividade da economia, impulsionem setores e ampliem a diversidade da economia do Estado. Essa estratégia vai muito além do retorno financeiro.
Ao apoiar empresas inovadoras com potencial de desenvolver suas atividades no Espírito Santo, o fundo contribui para diversificar a matriz de produtos e serviços na economia. Do mesmo modo estimula a criação de empregos qualificados, propicia atração de talentos e de investimentos. Em suma, fortalece um ambiente favorável ao empreendedorismo e à inovação.
O objetivo é construir uma economia mais dinâmica, resiliente e preparada para os desafios e para o melhor aproveitamento das oportunidades de negócios nas próximas décadas.
Como o Bandes equilibra retorno financeiro para preservar o Fundo Soberano e induzir desenvolvimento econômico?
Esses dois objetivos são complementares. Preservar e ampliar o patrimônio do Fundo Soberano exige investimentos com perspectiva de retorno financeiro sólido e, concomitantemente, que estes projetos requeiram algum nível de taxa de juros concessionada. Afinal, deve haver viabilidade técnica e econômico-financeira para esses projetos serem implementados.
Estes investimentos não ocorreriam sem a presença de um banco de desenvolvimento. O Bandes adota critérios técnicos rigorosos na seleção de empresas e projetos, buscando iniciativas com viabilidade econômica, potencial de crescimento e capacidade de gerar impactos positivos nos territórios do Espírito Santo. O retorno financeiro é fundamental para garantir a perenidade do fundo e ampliar sua capacidade de investimento ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, a escolha por setores estratégicos e negócios inovadores contribui para diversificar a economia, fortalecer a competitividade, aumentar a produtividade da economia, gerar empregos qualificados e criar um ciclo virtuoso. Em que os resultados financeiros e o desenvolvimento econômico se reforçam mutuamente.
Um dos desafios dos pequenos empreendedores é chegar ao crédito. O que o Bandes tem feito para reduzir a distância entre financiamento e quem precisa dele?
O Bandes entende que ampliar o acesso ao crédito vai muito além de disponibilizar linhas de financiamento. É preciso estar próximo das empresas, oferecendo orientação, informação e apoio para que ele identifique a solução mais adequada às necessidades do seu negócio. Por isso, o banco vem fortalecendo sua presença em todas as regiões do Espírito Santo, por meio da atuação dos gerentes de Negócios e da rede de correspondentes bancários.
O Bandes aproxima empresas de oportunidades de financiamento e busca simplificar o acesso ao crédito. O objetivo é reduzir barreiras, democratizar o acesso aos recursos e contribuir para que mais empresas possam investir.
Sempre com mitigação de risco possível, para crescer de forma sustentável, com um fluxo de caixa sustentável ao longo do ciclo de negócios. E, do mesmo modo, para gerar desenvolvimento em seus territórios.
O Bandes faz atendimento regionalizado a micro e pequenas empresas. Como essa presença mais próxima muda a qualidade da análise de crédito?
Esse conhecimento sobre as vocações econômicas, o estágio da complexidade econômica de cada território e as suas respectivas vantagens comparativas, permite uma análise de crédito mais qualificada. Ou seja, uma avaliação dos projetos com maior precisão e aderência às características de cada negócio. Além de aprimorar a concessão do crédito, essa proximidade amplia o alcance da atuação do banco no interior.
Ao fortalecer o relacionamento com as empresas e os parceiros locais, o Bandes consegue identificar oportunidades de investimento que muitas vezes não chegariam espontaneamente à instituição. O resultado é que os desafios e as oportunidades regionais são melhor aproveitadas para o aumento do bem-estar social do Espírito Santo.
Muitos pequenos negócios ainda enxergam banco de desenvolvimento como algo distante. Como o Bandes pretende mudar essa percepção?
Mudar essa percepção passa, além de tudo, por aproximar o Bandes das empresas. O banco tem investido em duas frentes. Na ampliação de presença em todo o Estado, por meio de gerentes de Negócios, correspondentes bancários e parcerias estratégicas. E também queremos ser cada vez mais digitais para os micro e pequenos negócios. Assim, esperamos que o atendimento seja mais acessível, próximo e orientado às necessidades de cada empresa. O objetivo é mostrar que o Bandes possui soluções para empresas de todos os portes.
Além disso, buscamos simplificar processos, ampliar a orientação aos empreendedores bem como tornar a jornada de acesso ao crédito cada vez mais ágil e transparente. Queremos que o empresário veja o Bandes como um parceiro do seu crescimento, capaz de oferecer não apenas financiamento, mas também suporte para transformar projetos em investimentos e oportunidades de desenvolvimento.
Quais áreas o senhor vê hoje com maior demanda reprimida por crédito subsidiado no ES? E como o Bandes pode fazer a diferença?
Não resta dúvida que a taxa de juros é uma variável que condiciona o apetite de investimento dos empresários, das empresas. A questão que se coloca é que é preciso alocar o crédito levando-se em conta três dimensões.
A primeira que o financiamento de longo prazo deve estar voltado para as empresas cujo acesso a crédito e ao mercado de capitais é, substancialmente, mais restrito.
Em segundo, o crédito deve ser para projetos, máquinas e equipamentos que aumentem de forma significativa a produtividade da economia capixaba.
Em terceiro, para setores estratégicos que aumentem a complexidade e a diversidade econômica do setor produtivo. E consequentemente, aumento o valor da riqueza gerada nos territórios capixabas.
Observamos uma demanda crescente por crédito em áreas como inovação, descarbonização, transição e eficiência energética. Bem como em infraestrutura logística e urbana, turismo, agronegócio e ainda no fomento para a ampliação da cadeia de suprimentos de investimentos estratégicos. Em muitos casos, são investimentos com grande potencial de geração de emprego, renda e competitividade, mas que exigem prazos mais longos e condições financeiras adequadas para se tornarem viáveis.
É nesse contexto que o Bandes faz a diferença. Ao oferecer linhas com condições diferenciadas e atuar de forma próxima às empresas, o banco viabiliza investimentos que dificilmente ocorreriam apenas com o crédito tradicional.
Mais do que financiar projetos, nosso papel é impulsionar iniciativas capazes de aumentar a produtividade, atrair investimentos e promover um desenvolvimento sustentável e equilibrado em todas as regiões do Espírito Santo.
O Programa ES Inteligente coloca o Bandes dentro da estruturação de PPPs para municípios. Como o banco ajuda as prefeituras?
Muitos municípios possuem boas ideias e necessidades urgentes de investimento. Porém enfrentam limitações técnicas para estruturar projetos complexos de parceria com a iniciativa privada. O papel do Bandes é justamente preencher essa lacuna, oferecendo apoio especializado na modelagem dos projetos, nos estudos de viabilidade, na estruturação econômico-financeira e na condução dos processos necessários para atrair investidores.
Com o Programa ES Inteligente, o banco atua como um parceiro estratégico das prefeituras, reduzindo barreiras técnicas e aumentando a qualidade e a segurança dos projetos. Isso amplia a capacidade dos municípios de realizar investimentos em infraestrutura e serviços públicos modernos, com mais eficiência, inovação e sustentabilidade.
Em resumo, o Bandes é um estruturador de projetos de parceria público e privada para os municípios capixabas.
Iluminação de LED, internet pública, fibra óptica, energia solar e gestão mais eficiente. Qual desses elementos gera impacto mais rápido na vida do cidadão?
Cada projeto gera benefícios específicos, porém iniciativas como a modernização da iluminação pública em LED costumam produzir impactos imediatos. Com melhoria da segurança, redução do consumo de energia e diminuição dos custos para os municípios.
Quando associadas a soluções como conectividade, videomonitoramento, energia solar e gestão inteligente, esses investimentos tornam as cidades mais eficientes, sustentáveis e preparadas para oferecer melhores serviços à população.
Nos próximos anos, o Bandes pretende ampliar sua atuação como estruturador de projetos que ajudem os municípios a acelerar essa transformação, principalmente, na adaptabilidade aos eventos climáticos e na melhoria da mobilidade urbana. O objetivo é apoiar um número cada vez maior de cidades na implementação de soluções inteligentes.
Se o senhor tivesse de resumir o papel do Bandes nos próximos anos, como ele será?
O Bandes continuará sendo um banco de crédito, mas seu papel será cada vez mais amplo. Nossa visão é consolidar o banco como uma plataforma de desenvolvimento para o Espírito Santo, capaz de integrar diferentes instrumentos — crédito, estruturação de projetos, gestão de fundos estratégicos, parcerias e apoio técnico — para viabilizar investimentos transformadores.
Além disso, desejaria que o Bandes seja percebido como uma plataforma de conhecimento sobre o desenvolvimento econômico do Estado. Esse modelo permite ao Bandes atuar como articulador de oportunidades. Mobilizando recursos, conhecimento e parcerias em torno de agendas estratégicas como descarbonização, inovação, infraestrutura, cidades inteligentes bem como desenvolvimento regional.
Mais do que financiar projetos, queremos contribuir para construir um Espírito Santo mais competitivo, sustentável e preparado para os desafios das próximas décadas, incluindo nestes desafios a reforma tributária.
Fonte: Folha Vitoria