*Artigo escrito por Brendo Bremenkamp, diretor da Casa do Serralheiro
A construção civil é um dos grandes motores da economia capixaba. No Espírito Santo, o setor movimenta cerca de R$9 bilhões por ano, o equivalente a 4% do Produto Interno Bruto (PIB), além de gerar mais de 75 mil empregos formais. Quando esse mercado cresce, uma ampla cadeia produtiva se fortalece — e o aço ocupa um papel central nesse processo.
Presente em praticamente todas as etapas de uma obra, o aço sempre teve peso relevante no orçamento da construção. Historicamente, ele representa cerca de 20% do custo total de uma obra. Nos últimos meses, porém, esse percentual ficou entre 11% e 12% em razão da entrada de aço chinês no Brasil a preços abaixo do custo de produção.
Essa prática desleal, chamada de dumping, reduziu o custo das obras e beneficiou quem estava construindo. Mas esse cenário começa a mudar. Com medidas antidumping, o preço do aço deve subir novamente — e retomar patamares anteriores. Para construtoras que possuem estoque, esse movimento pode significar valorização de imóveis e aumento de faturamento. Já para o consumidor final, o efeito mais provável é um ligeiro aumento no custo dos imóveis.
Ainda assim, o momento da construção civil no Espírito Santo é de forte dinamismo. Temos observado um aumento consistente na demanda, com pedidos de orçamento chegando o tempo todo e clientes de diferentes perfis em busca de materiais e estruturas metálicas — desde pequenos construtores até grandes incorporadoras. Alguns estão vendendo unidades antes do início das obras, sinal claro da confiança no mercado.
Esse movimento não é por acaso. Mesmo com juros elevados, há um volume importante de investimentos públicos em andamento e uma economia com maior liquidez. Programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida, e linhas de crédito subsidiadas da Caixa ajudam a sustentar o ritmo do setor.
Outro fator decisivo é o momento estratégico vivido pelo Espírito Santo. A posição geográfica privilegiada, conectando Sudeste e Nordeste, aliada a incentivos fiscais relevantes, tem fortalecido o setor logístico. O crescimento do e-commerce, por exemplo, aumentou a demanda por galpões e centros de distribuição. Ao mesmo tempo, obras portuárias em regiões como Aracruz e São Mateus ampliam as oportunidades de investimento.
Esse conjunto de fatores cria um efeito em cadeia: mais infraestrutura, mais empresas, mais empregos e, mais necessidade de moradia e de novos empreendimentos. E é justamente aí que surge um outro desafio: o déficit habitacional. Em algumas regiões estratégicas, como Linhares, há dificuldades para contratar trabalhadores porque não há moradia suficiente disponível. Sem habitação, o crescimento econômico encontra um limite. Loteamentos ajudam, mas não resolvem o problema sozinhos — é preciso ampliar o ritmo de construção.
Nesse sentido, políticas públicas que incentivem a construção e facilitem o financiamento de obras podem acelerar o processo, especialmente em regiões com maior demanda e potencial logístico. Isso cria um ciclo virtuoso: mais moradia, mais pessoas, mais consumo e mais desenvolvimento.
Também é importante olhar para a sustentabilidade do setor. O aço é um material 100% reciclável e, quando utilizado com planejamento e tecnologia, permite reduzir significativamente o desperdício nas obras. A produção sob medida e a otimização de cortes, diminuem perdas de material, enquanto as sobras podem ser totalmente recicladas e reinseridas na cadeia produtiva.
O cenário para os próximos anos é promissor. O Espírito Santo apresenta bons resultados em gestão pública e colhe os frutos de investimentos importantes em infraestrutura, que aumentam a competitividade do estado e atraem novos negócios.
A construção civil continuará aquecida por um bom tempo — e, com ela, toda a cadeia produtiva que sustenta esse crescimento. O desafio agora é aproveitar esse momento para avançar de forma sustentável, eficiente e inovadora, transformando o potencial do estado em desenvolvimento concreto.
Fonte: Folha Vitoria