Você aceitaria fazer uma cirurgia com um médico que nunca operou ninguém? Que estudou anatomia por quatro anos, defendeu um trabalho sobre técnicas cirúrgicas e recebeu um diploma assinado por uma banca que também nunca operou ninguém? A resposta é óbvia. Mas quando esse mesmo perfil recebe o título de administrador, a gente contrata, coloca para gerir equipes e depois passa anos tentando entender por que ele não entrega.
De cada quatro universitários brasileiros, um estuda Administração ou algum curso de gestão e negócios. São 2,4 milhões de matrículas, quase 24% de todo o ensino superior do país, segundo o Censo da Educação Superior do INEP. O país que não consegue administrar seu setor público, suas estatais nem sua fila de cartório escolheu justamente a gestão como sua maior fábrica de diplomas.
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles separou três tipos de conhecimento. Episteme é o saber teórico, universal, que continua verdadeiro fora do contexto. Techne é a habilidade técnica, repetível, ensinável por demonstração. Phronesis é a sabedoria prática, deliberar bem numa situação específica, com informação incompleta, valores em conflito e sem gabarito. Isso foi escrito no século IV a.C.
Administrar uma empresa é, por definição, um exercício de phronesis, mas o ensino de administração no Brasil ignorou a distinção por completo: entrega episteme em quase tudo, um toque de techne nas disciplinas aplicadas e praticamente nenhuma phronesis. E o problema se intensifica quando as faculdades e os professores ainda acham que o problema é a ementa desatualizada.
Henry Mintzberg passou décadas estudando o que separa bons gestores de bons alunos e chegou a uma conclusão desconfortável em Managers Not MBAs, em que estes raramente são a mesma pessoa. Gestão é prática. Teoria sobre prática é outra coisa, e sala de aula, no melhor dos casos, entrega um mapa.
Harvard entendeu isso: não exige que o professor tenha sido executivo, mas exige que produza casos ao lado de executivos em exercício, trazendo o contexto de decisão real para dentro da sala. O padrão brasileiro fez o oposto. O professor típico de administração no Brasil nunca geriu nada e nunca pesquisou alguém que geriu. Leciona sobre gestão com a mesma distância com que se leciona sobre a Revolução Francesa.
Mesmo que o professor fosse perfeito, o que ele tem para ensinar já chega quebrado. Um curso típico de Administração no Brasil empilha em torno de trinta disciplinas independentes ao longo de quatro anos, e quase nenhuma delas é desenhada para conversar com as outras. Finanças não fala com Marketing, que não fala com Operações, que não fala com Gestão de Pessoas. Cada professor entrega sua fatia e vai embora. O aluno sai com trinta fatias na mão e nenhuma ideia de que aquilo era pra ter virado um bolo.
Russell Ackoff chamava isso de confundir problemas com complicações. Problema é o que aparece na prova, bem delimitado, com variáveis conhecidas e resposta única. Complicação é o que aparece na empresa: reduzir custo de logística afeta retenção de cliente, margem e, no fim, a avaliação do acionista. O currículo em silos forma alguém excelente em problemas e inútil diante de complicações, e depois se espanta que o recém-formado trave na primeira decisão que não cabe numa disciplina.
O mais difícil de engolir é que mesmo que o professor e o currículo fossem outros, o método de ensino continuaria invertido. Na Universidade de Harvard, a maior parte do aprendizado acontece nas discussões de caso, nas quais o aluno recebe uma situação real, com informações incompletas e interesses em conflito, e precisa decidir e defender sua decisão diante de colegas que irão questionar seu raciocínio. É phronesis em estado puro: deliberar sem gabarito. No Brasil, a Diretriz Curricular do MEC exige menos de um quinto de carga prática, e a carga prática que existe quase nunca chega perto disso: estágio burocrático, visita técnica, trabalho em grupo sobre case pronto de livro.
O que torna isso acusador é que o método que funciona não é segredo. Está publicado, foi replicado no mundo inteiro, produz gente que decide bem. Não se trata de uma limitação pedagógica que a academia brasileira ainda está tentando resolver. Trata-se de uma escolha consciente de continuar fazendo diferente de quem deu certo. A pergunta, portanto, não é “por que o sistema falha?”, mas “por que ele nunca precisou parar de falhar?”.
Aqui a história poderia virar para o lado da indignação: denunciar a universidade, cobrar o MEC e pedir reforma curricular. Só que o problema não para em quem forma mal, passa por quem contrata sabendo disso e contrata mesmo assim. O mercado percebeu a falha na formação e a institucionalizou. Criou o período de maturação profissional ou “rampagem” como categoria legítima de RH e aceitou como natural que um profissional com quatro anos de diploma precise de mais um a três anos pagos pela empresa para começar a entregar.
Nenhum outro setor aceitaria esse nível de tolerância. Seria como uma montadora vender carros que só funcionassem plenamente após dois anos de ajustes: haveria recalls constantes e questionamentos imediatos sobre a qualidade do produto. O mesmo ocorreria com uma construtora que entregasse um prédio dependente de sucessivos reparos para se manter estável — dificilmente passaria pela primeira vistoria. A universidade entrega esse produto há décadas, o mercado absorve o custo em silêncio e a conta aparece disfarçada de “investimento em desenvolvimento” na planilha de RH.
A ineficiência, nesse ponto, deixa de ser acidente e vira contrato. Ela não está escondida em lugar nenhum, mas precificada, aceita e orçada no headcount de cada empresa que contrata um recém-formado, com linha própria de custo e prazo. Enquanto a empresa continuar pagando a conta sem questionar o fornecedor, a universidade não tem motivo nenhum para mudar o produto. O diploma vale pelo que o mercado concordou em pagar por ele — não por aquilo que ensina.
Escola que não conecta aluno a problema real não forma gestor. Forma alguém que sabe falar sobre gestão: decora framework, cita autor, monta slide bonito sobre o que outros fizeram. A diferença não aparece no TCC nem no primeiro salário. Aparece na primeira decisão difícil que esse profissional precisa tomar sozinho, sem o professor, sem o gabarito e sem a alternativa B marcada como correta. É ali que o diploma termina de se explicar.
A cada ano o Brasil forma uma cidade inteira de administradores que nunca administraram nada. Universidade, empresa e aluno participam do mesmo acordo tácito: a universidade finge que ensinou, a empresa finge que contratou gestor e o aluno finge que aprendeu a gerir. Os três sabem. Nenhum dos três abre a boca, porque abrir a boca implicaria mudar, e mudar sai mais caro do que continuar fingindo.
Enquanto o arranjo seguir barato para todo mundo, o país seguirá chamando de formação em administração um rito de passagem que forma tudo, menos administradores.
Fonte: Folha Vitoria