O debate sobre abertura de mercado no Brasil costuma ser guiado pelo medo. Fala-se em “invasão” de produtos estrangeiros, perda de empregos e desindustrialização. No entanto, a experiência internacional mostra que economias mais abertas tendem a ser mais competitivas, inovadoras e eficientes.
Segundo o relatório Trade for Development publicado em 2020 pelo Banco Mundial, países que se integraram às cadeias globais cresceram mais rápido justamente porque aceitaram competir. Porém, isso não significa ingenuidade. Dumping, a venda abaixo do custo ou com subsídio estatal, é prática desleal prevista nas regras da OMC. Quando comprovado, medidas antidumping são legítimas. Estados Unidos e União Europeia impõem restrições ao aço chinês, por exemplo, sob o argumento de excesso de capacidade e segurança nacional. O setor é estratégico e nenhum país relevante ignora essa dimensão.
Abertura de Mercado, Competitividade e Práticas Desleais
Para diversos produtos, o termo “enxurrada chinesa” é recorrente. Para o exemplo do aço, a distorção é comprovada. A China produz mais da metade do aço mundial e opera com forte apoio estatal (crédito direcionado, energia subsidiada e controle estatal de grandes siderúrgicas). Também há eficiência nos processos: operação em escala gigantesca diluindo custo fixo, cadeia logística integrada e altíssimo volume de exportação. Pode-se até pensar: como um produto atravessa o oceano e mesmo assim chega a preços mais competitivos? No final, o frete marítimo representa apenas uma pequena fração da composição total.
Analisando a Competitividade: O Modelo Chinês
Enquanto isso, o Brasil convive com energia industrial cara, carga tributária complexa e cumulativa, juros historicamente elevados, insegurança regulatória e gargalos logísticos. O transporte interno depende majoritariamente de rodovias. Soma-se a isso o alto custo de capital e um ambiente de negócios instável. O resultado é um produto estruturalmente caro antes mesmo de uma concorrência externa.
O Desafio Interno: Superando o Custo Brasil
Proteger o mercado brasileiro é legítimo, vide tantas comprovações de dumping, e pode aliviar a pressão no curto prazo. Mas não corrige energia cara, imposto em cascata, infraestrutura precária e tamanho intervencionismo do governo. Se o produto chinês chega competitivo mesmo cruzando o oceano, talvez a distância que realmente pesa não seja a geográfica, mas a que separa o Brasil das reformas que reduziriam seu próprio custo estrutural. O incômodo permanece e vale a reflexão sobre a verdadeira competição contra nossas próprias barreiras internas, não contra a China.
Fonte: Folha Vitoria