O Espírito Santo tem um dos portos mais estratégicos do Atlântico Sul, com posição geográfica privilegiada e acesso a duas das principais ferrovias do país. Mas durante anos, essa equação logística ficou incompleta: o porto operava quase que exclusivamente por caminhões, abrindo mão da eficiência e da escala que só o trilho oferece. Essa realidade começa a mudar.
Uma parceria entre Vports, VLI e Multilift viabilizou a criação de uma nova rota logística para o transporte de ferro-gusa no Espírito Santo, com a implantação de uma moega ferroviária que deve iniciar operações no segundo semestre de 2026. A estrutura permite a integração entre ferrovia e porto, com impacto direto na eficiência do escoamento da commodity.
A moega, estrutura que recebe granéis sólidos diretamente dos vagões e os transfere ao terminal portuário sem uso de caminhões, está conectada à Estrada de Ferro Vitória a Minas e à Ferrovia Centro-Atlântica, duas das principais malhas de carga do país. O investimento nos trilhos para esse projeto foi de R$ 16 milhões, mas o pacote de integração ferroviária do terminal supera os R$ 100 milhões.
A parceria tem duração prevista de 17 anos, o que sinaliza compromisso de longo prazo, não apenas um projeto pontual.
O produto que inaugura o corredor é o ferro-gusa, matéria-prima da cadeia siderúrgica. Mas o movimento que ele representa é muito maior. Para o complexo portuário de Vitória, historicamente dependente do transporte rodoviário, a reconexão com a ferrovia abre perspectivas além do ferro-gusa. A malha conecta o Espírito Santo ao Centro-Oeste e a polos como Goiás e o Triângulo Mineiro, com potencial para atrair mais cargas de granéis como grãos e fertilizantes.
Para o produtor rural capixaba, esse detalhe é o mais relevante. Fertilizantes mais baratos chegam mais rápido e com menor custo quando o modal ferroviário está ativo. Grãos que precisam ser escoados ganham uma alternativa ao caminhão, historicamente mais caro por tonelada transportada. E uma infraestrutura portuária mais competitiva atrai mais exportadores, o que movimenta toda a cadeia ao redor.
No último ano, o Corredor Leste da VLI, por onde a carga será transportada, movimentou cerca de 16 bilhões de toneladas por quilômetro útil, crescimento de 10,5% em relação a 2024. O corredor já existe e já cresce. O que muda agora é que o Porto de Vitória entra de forma mais estruturada nessa rota.
O Espírito Santo exporta café, cacau, granito, proteína animal e produtos industriais. Cada um desses setores pode se beneficiar de uma logística portuária mais eficiente e de menor custo. A ferrovia que voltou ao porto não é apenas uma notícia de infraestrutura. É uma mudança que começa no trilho e pode terminar no caixa do produtor.
Fonte: Folha Vitoria