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NR 01 – Avanço ou mais um peso para o pequeno empresário?

Durante anos defendemos que a saúde mental precisava sair das rodas de conversa e entrar na pauta estratégica das organizações e isso finalmente aconteceu. A atualização da NR01 coloco

Por Redação em 17/06/2026 às 05:00:27

Durante anos defendemos que a saúde mental precisava sair das rodas de conversa e entrar na pauta estratégica das organizações e isso finalmente aconteceu.

A atualização da NR01 colocou os riscos psicossociais dentro das responsabilidades formais das empresas e trouxe para o centro da discussão um tema que, por muito tempo, foi tratado como fragilidade ou excesso de sensibilidade.

Eu como profissional que trabalho com desenvolvimento humano, e na área de qualidade de vida no trabalho há 22 anos celebro esse avanço, mas quero fazer uma pergunta que poucos estão dispostos a fazer; Estamos olhando para o problema inteiro? Ou estamos procurando um único responsável para uma crise que foi construída por toda a sociedade?

Vivemos um dos períodos mais pressionados da história recente. O custo de vida cresce mais rápido do que a renda da maioria das famílias. A violência ocupa diariamente os noticiários. A hiperconectividade eliminou as fronteiras entre trabalho e descanso. A inteligência artificial começa a substituir funções operacionais justamente na camada que concentra a maior parte dos trabalhadores brasileiros. A insegurança econômica se tornou parte da rotina.

As pessoas estão cansadas, ansiosas, hipervigilantes, deprimidas e isso tudo antes de antes de entrar no trabalho.

Por isso, quando discutimos saúde mental, precisamos ter cuidado com uma armadilha cada vez mais comum: acreditar que todo sofrimento emocional nasce no ambiente corporativo, pois não nasce.

Não significa que as empresas não possam apoiar ou que algumas não tenham responsabilidade, ambientes tóxicos existem com assédios e lideranças despreparadas, metas e excesso de trabalho. E tudo isso precisa ser combatido.

Mas existe uma diferença importante entre responsabilizar organizações por práticas nocivas e transformá-las nas únicas responsáveis pela saúde mental das pessoas. Pois saúde mental é multifatorial.

Ela é impactada pela renda, pela segurança pública, pelas relações familiares, pelo acesso à saúde, pelas perspectivas de futuro, pela estabilidade econômica e até pela sensação de pertencimento que cada indivíduo desenvolve ao longo da vida.

Quando ignoramos essa complexidade, corremos o risco de criar uma solução simplificada para um problema extremamente complexo.

E é aqui que a discussão sobre a NR01 merece uma reflexão mais profunda, pois a norma não se aplica apenas às grandes corporações, ela alcança empresas de todos os portes.

Na teoria, isso parece justo, mas na prática, as realidades são completamente diferentes.

Uma grande organização possui estrutura de recursos humanos, consultorias especializadas, apoio jurídico, programas de assistência ao colaborador e orçamento para implementar ações permanentes de saúde mental.

Já uma pequena empresa, muitas vezes, tem um proprietário que acumula funções de gestor, vendedor, financeiro, comprador e líder da equipe.

Ele também está cansado, também está pressionado. Está com ansiedade, leva trabalho para casa e isso raramente aparece na discussão.

Quando falamos sobre saúde mental no trabalho, quem está olhando para a saúde mental de quem gera empregos? Essa é uma pergunta que quase nunca recebe espaço.

O Brasil é formado majoritariamente por pequenas e médias empresas. São elas que sustentam grande parte da empregabilidade do país. São elas que sentem primeiro os impactos das crises econômicas. São elas que convivem com margens apertadas, aumento de custos, insegurança jurídica e dificuldade para contratar.

E agora também são elas que precisam responder por uma responsabilidade que, muitas vezes, ultrapassa sua capacidade de intervenção.

O resultado começa a aparecer, pois empresas que deveriam estar discutindo cultura e crescimento passam a discutir proteção jurídica.

Empresas que deveriam investir em relações saudáveis passam a investir em mecanismos de defesa, passam a produzir evidências. Não porque não se importam, mas porque em situações de sobrevivência a defesa as vezes custa menos que atacar o problema.

E talvez esse seja o grande paradoxo da discussão.

Uma norma criada para ampliar o cuidado pode acabar estimulando comportamentos defensivos, não por falha de intenção, mas por não considerar a realidade de quem está na base da economia.

A saúde mental precisa, sim, estar no centro das organizações. Mas também precisa estar no centro das políticas públicas, das escolas, das famílias, das comunidades e das discussões sobre o futuro do trabalho.

Porque não existe solução empresarial para um problema que é social, as empresas fazem parte da resposta, mas não podem carregar sozinhas o peso de uma crise que foi construída por muitos fatores.

Talvez a pergunta mais importante não seja como responsabilizar mais, mas como compartilhar melhor essa responsabilidade.

Porque quando transformamos o empregador no único culpado, deixamos de enxergar a verdadeira dimensão do problema. E problemas que são mal compreendidos raramente são bem resolvidos.

Fonte: Folha Vitoria

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