Crédito caro e demanda cautelosa
O mercado imobiliário capixaba, que vinha embalado por uma sequência de valorização impulsionada pelo crescimento industrial e pela qualidade de vida, entrou em 2025 em um movimento de desaceleração. A avaliação é da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), que identifica um “compasso de espera” no setor de construção civil, especialmente no segmento residencial de médio padrão, mais sensível ao crédito.
De acordo com o presidente da entidade, Paulo Baraona, o encarecimento do financiamento imobiliário e a incerteza sobre a trajetória dos juros têm freado decisões de compra e novos lançamentos. “A construção civil, especialmente a imobiliária, trabalha com investimentos de médio e longo prazo. Quando a pessoa vai comprometer a renda por 20 anos, ela precisa fazer conta, e a taxa de juros impacta muito”, afirmou.
O diagnóstico ocorre em um momento em que Vitória e Vila Velha figuram entre os municípios com o metro quadrado mais valorizado do país, sobretudo em empreendimentos de alto padrão. Para Baraona, esse patamar de preços é reflexo de uma transformação estrutural da economia capixaba nas últimas duas décadas.
“O nosso estado deixou de ser o ‘patinho feio’ da região Sudeste e passou a atrair investimentos industriais relevantes. Isso se traduz em valorização imobiliária. Soma-se a isso a qualidade de vida reconhecida nacionalmente, o que pressiona o preço do metro quadrado”, disse.
Apesar do protagonismo dos imóveis de luxo nos indicadores de preço, a base do mercado continua concentrada na classe média, segmento que mais sofre com o custo do crédito. Segundo a Findes, mais de 60% das aquisições imobiliárias dependem de financiamento de longo prazo, o que amplia a sensibilidade às condições monetárias.“O mercado de alto luxo tem dinâmica própria, mas a maior parte da construção não está nesse nicho. É a classe média que sustenta o volume, e esse público é diretamente afetado pela taxa de juros”, explicou Baraona.
Levantamentos do Observatório da Findes indicam que, após um ciclo de expansão em 2024, com crescimento da atividade da construção civil impulsionado por obras residenciais e investimentos industriais, o setor perdeu tração ao longo de 2025. A desaceleração está associada à política monetária mais restritiva e ao aumento do custo de insumos, fatores que comprimem margens e postergam projetos.
Para 2026, a expectativa ainda é de estabilidade moderada, condicionada a uma eventual flexibilização dos juros e à recuperação da confiança do consumidor. Sem esse ajuste, a tendência é de manutenção do ritmo mais lento, com foco em estoques já lançados e menor apetite para novos empreendimentos.
Valorização estrutural versus ciclo econômico
Na leitura da indústria, o mercado imobiliário capixaba vive um descompasso entre fundamentos de longo prazo, como renda, emprego e atratividade regional, e variáveis conjunturais, como juros e inflação.“Vínhamos em um ciclo mais alavancado, e isso cria agora uma dificuldade maior. A incerteza sobre a taxa de juros, se ela permanece ou se cai, acaba travando decisões”, disse o presidente da Findes.
Ainda assim, a entidade avalia que o estado mantém diferenciais competitivos relevantes para o setor, incluindo localização estratégica, base industrial consolidada e qualidade urbana, fatores que sustentam a valorização imobiliária no horizonte mais longo.
No curto prazo, porém, o mercado segue em compasso de espera: incorporadoras mais cautelosas, consumidores fazendo contas mais rigorosas e um cenário macroeconômico que continua sendo o principal determinante do ritmo de lançamentos e vendas.
Fonte: ES HOJE