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O câncer de colo de útero é uma das principais causas de câncer em mulheres no Brasil, e seu impacto vai muito além do sistema reprodutivo. Na prática clínica, frequentemente acompanho pacientes que chegam ao atendimento com perda grave da função renal, muitas vezes já sem produção de urina e necessitando de diálise de urgência.
Em vários desses casos, a causa não está inicialmente nos rins, mas na progressão silenciosa do câncer de colo uterino.
Isso acontece porque os rins dependem de um fluxo contínuo de urina para funcionar adequadamente. O câncer de colo de útero, quando avança, pode comprimir os ureteres — canais que levam a urina dos rins até a bexiga — provocando uma obstrução.
Essa obstrução impede a eliminação da urina, levando ao acúmulo de pressão dentro dos rins e, consequentemente, à chamada injúria renal aguda. Se não tratada rapidamente, essa condição pode evoluir para anúria, quando o rim deixa de produzir urina, e exigir diálise para preservar a vida.
O mais preocupante é que essa complicação pode se desenvolver de forma silenciosa. Muitas pacientes não apresentam dor intensa no início e só percebem alterações quando surgem sintomas mais avançados, como inchaço, fraqueza intensa, náuseas, diminuição do volume urinário ou ausência completa de urina. Nesses estágios, o tratamento se torna mais complexo e os riscos aumentam significativamente.
O ponto central é que essa situação é, na maioria das vezes, evitável. O câncer de colo de útero possui evolução lenta e pode ser identificado precocemente por meio de exames preventivos, como o exame ginecológico periódico e o rastreamento adequado. Quando diagnosticado nas fases iniciais, o tratamento é muito mais eficaz e as chances de complicações renais graves são drasticamente reduzidas.
Além disso, sintomas como sangramento vaginal fora do período menstrual, dor pélvica persistente ou alterações urinárias devem sempre ser investigados. O acompanhamento regular permite identificar alterações antes que elas comprometam órgãos vitais como os rins.
Os rins são órgãos silenciosos, mas fundamentais para a vida. Em muitos casos que acompanho, a injúria renal poderia ter sido evitada com o diagnóstico precoce do câncer. A informação e a prevenção continuam sendo as ferramentas mais poderosas para proteger não apenas a saúde ginecológica, mas também a função renal e a qualidade de vida.
Fonte: Folha Vitória