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Do foco ao cansaço: o efeito dos hormônios na vida das mulheres

Especialistas explicam como as oscilações hormonais do ciclo menstrual afetam humor, energia, sono e rotina das mulheres

Por Redação em 07/03/2026 às 08:30:11
Foto: Canva

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Tem dias em que tudo parece mais fácil. A concentração vem rápido, a energia aparece e a sensação é de que o dia vai render. Mas também existem momentos em que o corpo pede pausa, a paciência diminui e até a rotina mais simples parece mais pesada.

Esse é um relato pessoal, mas eu poderia apostar que pelo menos metade das mulheres que lerem essas afirmações vai se identificar. Isso porque as causas dessas mudanças são um reflexo de algo essencial para o funcionamento do nosso corpo: os hormônios.

Da primeira menstruação à menopausa, os hormônios desempenham um papel central na saúde física e emocional feminina. Eles influenciam o sono, o apetite, o humor, a energia e até a forma como o corpo responde ao estresse.

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, perguntei a especialistas qual é o verdadeiro impacto disso nas nossas rotinas, saúde mental e nas relações pessoais.

Um dia desses eu estava conversando com uma colega de trabalho, a Jéssika, e ela me contou que, desde a adolescência, o ciclo menstrual impacta diretamente sua rotina.

Pouco antes de menstruar, me sinto mais nervosa, sensível, cansada e com dores de cabeça. Durante o período menstrual, me sinto desconfortável pra tudo, por conta do fluxo.”

Jéssika Norbim Balbi, publicitária

O que acontece com ela é um reflexo das oscilações comuns do ciclo. Segundo a ginecologista Mariana Rocha Galvão, nesse período, que costuma durar de 21 a 35 dias, os níveis de estrogênio e progesterona sobem e descem.

“Esses hormônios atuam em várias áreas do corpo. Por isso, muitas mulheres percebem mudanças reais no comportamento e no corpo ao longo do mês”, explicou a especialista, que também é professora do Unesc.

E por que há tanta variação de humor, energia e concentração?

De acordo com a ginecologista Thaissa Tinoco, essas oscilações hormonais conversam com neurotransmissores como serotonina e GABA. “Por isso algumas pessoas sentem mudança de humor, energia e qualidade do sono, principalmente na segunda metade do ciclo.”

As especialistas apontam que essas variações acontecem por três fatores principais:

Alterações hormonais no cérebro: o estrogênio tende a melhorar humor, memória e energia; a progesterona pode ter efeito mais calmante ou até sedativo.

Mudanças nos neurotransmissores: quando os hormônios caem antes da menstruação, pode haver redução na serotonina, o que favorece irritabilidade ou tristeza.

Resposta individual do organismo: algumas mulheres são mais sensíveis às oscilações hormonais. Em casos mais intensos, pode ocorrer a Síndrome Pré?Menstrual ou sua forma mais grave, o Transtorno Disfórico Pré?Menstrual.

Além disso, segundo a enfermeira e professora do Centro Universitário Estácio de Vitória Fabiana de Oliveira Moreira, mulheres com histórico de transtornos de ansiedade ou depressão tendem a perceber piora dos sintomas em fases específicas do ciclo.

“Mulheres com diagnóstico de depressão e ansiedade tendem a intensificar os sintomas, pois estas já têm os níveis de dopamina e serotonina mais baixos, o que pode gerar complicações durante os ciclos menstruais, porque na fase lútea, estes hormônios já sofrem queda naturalmente, devido à baixa do estrogênio e da progesterona”, complementa.

Com tanta coisa acontecendo internamente, nossa rotina acaba sendo impactada. Eu, por exemplo, vivo no “mundo da lua” nos dias que antecedem a menstruação. Escrever fica mais difícil e meu marido me vê chorar, pelo menos, três vezes ao dia.

No caso da Jéssika, ela altera os compromissos para evitar que grandes eventos aconteçam durante o período menstrual. “O trabalho é a única coisa que eu não altero. De resto, eu faço de tudo pra não precisar sair de casa ou fazer coisas que precisam de mais esforço.”

A ginecologista Thais Tinoco explica que conhecer o próprio corpo e entender as limitações ajuda a diminuir os impactos na rotina.

O mais importante não é ‘viver refém do ciclo’, mas conhecer o próprio padrão. Autoconhecimento é fundamental.”

Thais Tinoco, ginecologista

Dicas para diminuir os impactos das oscilações hormonais

Depois de alguns anos lidando com meu próprio ciclo e de conversas com as especialistas, aqui vão algumas dicas para lidar melhor com as oscilações hormonais e diminuir os impactos na qualidade de vida:

Faça exercício físico

Sim, precisamos começar pelo clichê! O exercício físico sempre é apontado como um aliado na busca por uma rotina mais saudável e, no caso da saúde feminina, não seria diferente.

A personal trainer Brenda Medeiros explica que as atividades físicas ajudam na regulação hormonal e a diminuir os efeitos físicos.

“A prática regular de atividade física ajuda muito porque ela melhora a circulação, regula neurotransmissores como serotonina e endorfina e ainda reduz processos inflamatórios. Isso impacta diretamente sintomas como irritabilidade, inchaço, fadiga e até cólicas.”Personal trainer Brenda Medeiros

Para ela, o segredo está na adaptação. “Eu sempre explico para minhas alunas que o ciclo menstrual não é um problema, ele é um guia.”

Organize seus compromissos de acordo com as fases do ciclo

Essa é uma prática que eu adotei há quatro anos e faz uma grande diferença na minha produtividade.

Na fase folicular (logo após a menstruação) e na fase ovulatória, por exemplo, eu me sinto muito mais disposta. Por isso, eu constumo concentrar nesses períodos atividades que exigem muita concentração e energia.

Já na fase lútea (principalmente na semana pré-menstrual) e durante a menstruação eu evito marcar grandes compromissos ou situações estressantes. Claro que tudo isso vai depender da minha disponibilidade, afinal, há coisas que nós não controlamos, mas é uma boa estratégia para lidar com as oscilações do ciclo.

Acompanhamento médico e tratamentos

Essa dica é para as mulheres que sentem sintomas intensos ou incapacitantes. Neste caso, é preciso passar pela avaliação de um profissional de saúde.

“Algumas estratégias contam com anticoncepcionais hormonais ou antidepressivos em casos de sintomas pré-menstruais graves”, explica Mariana Rocha Galvão.

Mudanças no estilo de vida

Falando de uma forma mais abrangente, mudanças no estilo de vida são essenciais para lidar com as oscilações hormonais.

“Evitar produtos industrializados e processados, assim como açúcar e doces. Atividades de autocuidado como yoga, pilates e meditação também podem ser importantes”, destaca Fabiana de Oliveira Moreira.

Não podemos normalizar o sofrimento

Como jornalista, quando pensei neste conteúdo para o Dia da Mulher, já sabia como queria terminá-lo. Na minha cabeça, era essencial que as últimas palavras que eu escrevesse fossem claras: não podemos normalizar o sofrimento.

Por mais que as oscilações hormonais façam parte do nosso ciclo, há um limite para até onde podemos considerar os sintomas naturais. Frases como “é frescura”, “é só TPM” ou “é só uma dorzinha” não podem ser normalizadas.

A normalização do sofrimento pode atrasar diagnósticos como endometriose, adenomiose, miomas, distúrbios da tireoide, anemia, TDPM e até transtornos de ansiedade/depressão.

Regra prática: dor não é normal quando limita; humor não é “frescura” quando prejudica a vida; e sangramento não é “do jeito da pessoa” quando causa cansaço, queda de ferro ou interfere no dia a dia.

Thaissa Tinoco, ginecologista

Fonte: Folha Vitória

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