O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), falou nesta segunda-feira (02) que suas conversas trocadas com o desembargador Macário Judice, preso no fim do ano passado por envolvimento no caso TH Joias, foram de teor “institucional e republicano”.
A conversa é pública e transparente. Posso lê-la aqui para vocês. Não tinha nenhum interesse a não ser reduzir instabilidades políticas no município (Montanha) e poder continuar trabalhando.”
Renato Casagrande, governador
Macário Judice integra oTribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), que abrange processos do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.
A Polícia Federal afirma que foram encontradas mensagens do Whatsapp de Casagrande a Judice, que indicam “ajustes potencialmente criminosos”. As informações são da coluna Radar, da Revista Veja.
Nas mensagens, enviadas em 23 de julho de 2024, Casagrande teria enviado a Judice uma decisão desfavorável ao prefeito de Montanha, André Sampaio. “É só para pedir agilidade e olhar com carinho”, disse o governador em uma das mensagens.
Além da mensagem entre o governador e o desembargador, um outro fato foi abordado por Casagrande em coletiva à imprensa: a exoneração de um delegado da Polícia Civil capixaba.
No fim do ano passado, o delegado Romualdo Gianordoli Neto, um dos responsáveis pela Operação Baest, que investigou a ligação de empresários, uma advogada e um coronel da reserva da Polícia Militar com tráfico de drogas, foi exonerado pelo governador.
O delegado alega que sua saída foi decidida quando, durante a investigação da Operação Baest, ele teria apurado conversas suspeitas entre um dos empresários e o desembargador Macário Judice.
Casagrande afirmou que não tinha conhecimento do inquérito envolvendo Judice, e a exoneração não tem relação com as investigações.
O delegado sabe por que foi exonerado e está buscando um artifício. Foi exonerado por incapacidade de conviver com colegas e por uso de informações na sua função para que pudesse cumprir objetivos não republicanos. O processo que tramita na Polícia Civil vai deixar isso bastante claro.”
Renato Casagrande, governador
Também na manhã desta segunda-feira, o secretário de Estado da Segurança Pública (Sesp), Leonardo Damasceno, e o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, já haviam afirmado que a exoneração do delegado se deu por estremecimento nas relações e irregularidades na Operação Baest.
Romualdo, na época, ocupava o cargo de subsecretário de Inteligência da Sesp.
A exoneração dele foi por outros motivos. Ele perdeu a confiança do governo do Estado, perdeu a minha confiança. Ele não justificava continuar como subsecretário, que estava sendo acusado de má-conduta e desvio de informações sigilosas”.
Leonardo Damasceno, secretário de Estado da Segurança
O que continham as mensagens?
Nas mensagens trocadas entre Casagrande e Judice, enviadas em 23 de julho de 2024, segundo a coluna Radar, da Veja, o governador teria encaminhado uma decisão judicial desfavorável ao prefeito de Montanha, André Sampaio.
Ao responder a mensagem, o desembargador pergunta “No que posso ser útil?”. Em seguida, Casagrande pergunta se o relator do processo de Sampaio, colega de Macário no TRT-2, “aceita bem” uma ligação para tratar do caso do prefeito.
Judice chega a sugerir um encontro com Casagrande, que responde que quer apenas agilidade e atenção na análise do recurso do prefeito de Montanha.
“É só para pedir agilidade e olhar com carinho”, disse o governador na mensagem enviada a Judice.
“Troca de favores”, diz Polícia Federal
O desembargador então se ofereceu para entregar pessoalmente o material ao colega, que morava em um prédio vizinho. Na semana seguinte, envia a Casagrande uma mensagem que dizia: “Está resolvido”. O prefeito de Montanha reverteu a derrota.
Passados alguns meses da troca de mensagens, Judice entrou em contato com Casagrande para pedir que o governador cedesse um assessor do governo para o TRT-2, o que também é realizado.
A PF afirma que a troca de mensagens entre os dois caracterizaria “troca de favores”, e que seria potencialmente criminosa.
Por conta disso, a Federal pede ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso no Superior Tribunal de Justiça (STJ), uma abertura de inquérito para investigar Renato Casagrande.
Casagrande já havia negado acusações por meio de nota
Por meio de nota, divulgada na sexta-feira passada (27), Casagrande havia afirmado que a conversa entre ele e Judice havia sido “institucional e republicana e no intuito de agilizar a tramitação do processo para encerrar uma indefinição jurídica”.
Na nota, o governador também afirma que toda a conversa foi realizada pelo aplicativo de mensagens por não haver nada sigiloso ou ilícito.
Veja a nota na íntegra:
O Governador Renato Casagrande esclarece que a conversa foi institucional e republicana e no intuito de agilizar a tramitação do processo para encerrar uma indefinição jurídica e política em que se encontrava o município naquele momento de período pré-eleitoral. E que toda conversa foi realizada através de aplicativo de mensagens, pois não há nada sigiloso ou ilícito.”
Renato Casagrande, governador do Espírito Santo
Pelas redes sociais, Casagrande publicou um vídeo onde diz não temer nenhum tipo de investigação e reiterou que o fato de a conversa ter acontecido por meio de um aplicativo de mensagens mostra que não havia conteúdo sigiloso.
“Não existe acusação, não existe denúncia, e muito menos qualquer julgamento. Infelizmente, sabemos que algumas pessoas se aproveitam dessas notícias para tentar criar versões, espalhar desinformação e antecipar disputas políticas. Eu sigo tranquilo, confio na Justiça”, disse.
A Polícia Federal foi procurada, mas ainda não retornou o contato. O espaço continua aberto.
Delegado rebate declarações de cúpula da Segurança
Em entrevista à TV Vitória/Record, o delegado Romualdo Gianordoli rebateu as afirmações da cúpula da Segurança Pública e negou que tenha conduzido uma investigação paralela no âmbito da Operação Baest.
Segundo ele, o inquérito seguiu os mesmos trâmites adotados em outros procedimentos do Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat), com registros em meio físico e envio ao Judiciário por meio do Processo Judicial Eletrônico (PJe), sempre que necessário.
Gianordoli afirmou que a investigação foi submetida três vezes a análise judicial: nos pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal, nas solicitações de medidas cautelares (como busca e apreensão e bloqueio de bens) e, posteriormente, com o relatório final.
Para o delegado, esse fluxo demonstra que não houve qualquer atuação à margem do sistema oficial.
Eu refuto totalmente a tese de investigação paralela. A ausência de menção a agentes públicos no relatório final se deve ao fato de que eles seriam investigados em uma segunda fase, como é comum em grandes operações”.
Romualdo Gianordoli, delegado
Romualdo Gianordoli ganhou projeção por liderar operações de grande impacto no combate ao crime organizado. A mais conhecida foi em março de 2024: a prisão de Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, apontado como líder do Primeiro Comando de Vitória (PCV).
*Com informações da Veja
*Com informações dos jornalistas Paulo Rogério e Rodrigo Schereder, da TV Vitória/Record.
Folha Vitória