O documentário MST: Terra Prometida apresenta a questão agrária brasileira não apenas como um debate sobre terra, mas como evidência da fragilidade do direito de propriedade, elemento essencial para qualquer sociedade que pretenda sustentar a liberdade e o progresso. Logo no início, Christian Lohbauer, cientista político e professor, afirma que a própria história da civilização humana é a história da apropriação e da organização das terras, reforçando que a estabilidade social depende de regras claras que protejam a propriedade privada. Nesse ambiente, quando o Estado falha em garantir esse direito fundamental, abre espaço para a atuação de movimentos políticos e grupos de pressão que ocupam o vácuo institucional. A obra dialoga diretamente com Frédéric Bastiat ao mostrar como a lei, quando deixa de proteger a propriedade, transforma-se em instrumento de espoliação, e se aproxima de Murray Rothbard ao demonstrar que, na ausência de garantias institucionais, o meio político substitui o meio econômico, convertendo relações voluntárias em relações de coerção. O resultado é um cenário em que a promessa de autonomia no campo se perde em um sistema que impede o indivíduo de prosperar por conta própria.
A ineficiência do INCRA reaparece ao longo do documentário como um dos fatores centrais da tragédia agrária brasileira, mas ela não surge do nada. Inicialmente, o Estatuto da Terra, criado em 1964 para normatizar a reforma agrária, introduziu princípios que alteraram profundamente a lógica da propriedade rural ao subordinar o direito de propriedade à chamada função social e ao permitir a desapropriação por interesse social, sendo tais matérias posteriormente inseridas da Constituição Federal de 1988. Assim, em vez de oferecer segurança jurídica e incentivar pequenos produtores a prosperar, tais leis consolidaram um arcabouço de intervenção estatal contínua, no qual o proprietário deixa de ser titular pleno de seu bem e passa a depender da interpretação, quase sempre política, de órgãos governamentais. Décadas depois, famílias ainda aguardam titulação, pois o sistema foi desenhado para condicionar a sua autonomia. O lema “Terra ou Morte”, apresentado em placas de protestos do MST, sintetiza o salto retórico para um modelo de enfrentamento permanente e violência que se firmou justamente nesse ambiente de insegurança jurídica. O documentário mostra que esse ambiente normativo, aliado à lentidão burocrática de instituições como o INCRA, cria um campo fértil para manipulação, dependência e uso político da pobreza rural, desviando completamente a promessa original de justiça agrária.
A Retórica do MST e a Realidade do Agronegócio
O documentário desmonta o discurso sustentado por João Pedro Stédile, economista e principal liderança do MST, de que o movimento combate latifúndios predatórios e improdutivos. Essa narrativa não corresponde ao Brasil contemporâneo, cujo agronegócio é pujante, altamente tecnológico e atua como o principal motor da economia nacional. Com esse descompasso entre retórica e realidade, o MST passa a direcionar suas invasões para áreas produtivas, o que já torna o lema “Ocupar, Resistir, Produzir” uma contradição prática, pois atacar quem produz é, em verdade, bloquear a produção. O caso da família Bettim, em São Mateus, Espírito Santo, exemplifica esse cenário. O laudo que classificou a propriedade como improdutiva foi elaborado de modo distorcido ao considerar toda a área da fazenda no cálculo, sem descontar reservas legais, áreas de preservação permanente, estradas internas e benfeitorias. Essa metodologia reduziu artificialmente o índice de produtividade por hectare, embora praticamente toda a terra realmente utilizável tivesse produção. A manipulação burocrática evidenciada escancara que o discurso do MST não tem aderência aos fatos, enquanto produtores que contribuem efetivamente para o país vivem sob insegurança jurídica e risco constante de invasões.
A Estrutura Interna do MST e a Administração da Miséria
Ao investigar a estrutura interna do MST, o documentário expõe um funcionamento pensado para evitar responsabilização. A ausência de personalidade jurídica permite ao movimento operar por meio de associações e cooperativas que captam verbas públicas e diluem a autoria de ações. Ex-integrantes relatam um padrão organizado de invasões, com linha de frente formada por mulheres, idosos e crianças, que são utilizados como escudo humano, e com regras paralelas que regulam a vida nos assentamentos. Embora o discurso seja de autogestão, os testemunhos mostram controle rígido por lideranças e práticas de doutrinação política. A formação ideológica começa cedo, com crianças integradas ao “movimento Sem Terrinha”, onde atividades educativas são estruturadas para moldar a visão de mundo dos futuros militantes. As salas de aula presentes nos assentamentos reforçam esse processo e funcionam como ambientes voltados à construção de uma identidade política que atinge toda a comunidade assentada. Ao comentar esse fenômeno, o documentário aproxima sua análise da crítica de Thomas Sowell aos intelectuais ungidos, que promovem causas que não vivem e jamais avaliam pelos resultados concretos.
O bloco mais contundente do documentário revela como a miséria é administrada como instrumento de poder. Muitos assentamentos se transformam em bolsões de dependência, onde famílias sobrevivem de doações, cestas básicas e restos, enquanto a produção agrícola permanece mínima. Em um dos casos apresentados, uma ex-integrante afirma que menos de dez por cento das mais de quatrocentas famílias do assentamento vivem da terra. O filme mostra que o MST se apropria economicamente dos assentamentos e utiliza as terras invadidas como fonte de lucro próprio. Um dos exemplos mais marcantes envolve uma área com plantações de eucalipto e pinus que, após a invasão, foi completamente desmatada, a madeira foi vendida e os assentados relatam nunca ter visto o dinheiro, estimado em cerca de treze milhões de reais. O que restou foi uma terra infértil, coberta de tocos, e famílias mergulhadas em miséria extrema. Nesse contexto, a pergunta inevitável é: por que o movimento resiste de forma tão intensa à titulação das terras? A resposta aparece nos depoimentos: o título de propriedade é a verdadeira “carta de alforria” que liberta o assentado. Sem a propriedade formal, ele permanece subordinado à hierarquia do MST e dependente da estrutura estatal, além de ser impedido de acessar crédito, recursos e linhas de financiamento que seriam indispensáveis para produzir. Com o título, ele se torna proprietário pleno e produtor, capaz de conduzir a própria vida. Não por acaso, quando iniciativas do governo federal buscaram titular aproximadamente quatrocentas mil famílias no período recente, a ação foi desqualificada pelo MST por ter sido promovida pelo governo Bolsonaro, contrário à sua ideologia, evidenciando a natureza política e não social do movimento. Em um dos relatos mais fortes, um ex-integrante afirma que tudo que conquistou dentro do movimento foi “apenas luta e mais nada”, revelando que a ideologia de conflito se tornou um fim em si mesma, e não um caminho para a prosperidade.
A Reação à Violência e a Busca pela Liberdade
O documentário apresenta também o destino daqueles que decidem romper com o sistema. Após receber a titulação, Liva Costta relata perseguições, ameaças e tentativas de expulsão de sua própria terra já titulada, o que evidencia o nível de controle exercido pelo MST sobre os assentados e sobre aqueles que se tornam desafetos do movimento. Diante dessa violência, famílias assentadas passam a se unir para proteger umas às outras, buscando impedir represálias internas e preservar quem rompeu com a estrutura do MST. Em paralelo, surge o movimento Invasão Zero, formado por proprietários rurais que se organizam para orientar possuidores de terra sobre como agir diante de invasões, especialmente em regiões onde o Estado é omisso. A existência de ambos os fenômenos evidencia que o poder público falha na proteção da propriedade, e essa ausência de amparo da força estatal levou indivíduos e comunidades a desenvolverem suas próprias formas de defesa para preservar o pouco de liberdade que ainda possuem.
Conclusão: A Divisão Entre Produção e Dependência
Na conclusão, a obra demonstra que o MST vive um conflito existencial. O movimento alega lutar contra um país de latifúndios improdutivos, mas sobrevive em um Brasil moderno, com agricultura pujante, tecnologia avançada e produção recorde. A realidade atual desmonta sua narrativa e força o movimento a se manter relevante não pela eficiência, mas pela administração de uma base de dependência que funciona como massa de manobra política e, na prática, como um curral eleitoral da esquerda. A verdadeira divisão não é entre opressores e oprimidos, mas entre produtores responsáveis e um grande contingente mantido infantilizado pelo MST, pelo INCRA e pelo Estado. A combinação de tutela política, ausência de titulação e dependência de benefícios impede qualquer possibilidade real de ascensão econômica, transformando famílias inteiras em sujeitos passivos, sempre à espera de um pedaço de papel que lhes devolva a autonomia negada por razões ideológicas.
Ao final, o documentário lembra que nenhuma sociedade se sustenta quando falha em proteger a propriedade. Uma nação que não reafirma esse direito básico compromete a liberdade de seus cidadãos e perpetua estruturas que se alimentam dessa vulnerabilidade. A experiência prática demonstra que, onde o indivíduo não pode colher os frutos do próprio esforço, não há verdadeira autonomia, e onde não há liberdade, o futuro é sempre determinado por aqueles que tratam o cidadão como instrumento político. MST: Terra Prometida ganha importância exatamente por tornar visível essa dinâmica, ao revelar histórias e contradições que raramente recebem espaço na mídia e que ajudam a compreender por que tantos permanecem dependentes. O filme expõe um país que ainda oscila entre a modernidade produtiva no Agronegócio e a manutenção de mecanismos que sabotam a iniciativa individual. Enquanto a terra continuar servindo como moeda política e a pobreza como método de controle, continuaremos presos ao passado que alegam buscar superar.
Folha Vitória