Foto gerada por Inteligência Artificial
Um motorista de aplicativo que trabalha e reside na Grande Vitória já teve três carros alugados e uma vida financeira tranquila. Hoje, trabalha até 18 horas seguidas para recuperar parte do patrimônio que perdeu em apostas online. Durante dois anos, o vício em bets consumiu suas economias, os veículos e a renda que conseguia diariamente. Ao todo, calcula um prejuízo entre R$ 300 mil e R$ 400 mil.
A história de João (nome fictício) começou quando um conhecido apresentou os jogos como uma oportunidade de ganhar dinheiro. Em conversa com a reportagem do Folha Vitória, João contou que decidiu experimentar. No início, chegou a receber alguns pagamentos, mas logo passou a apostar valores cada vez maiores. Quando percebeu, já havia vendido os três carros para continuar jogando.
“Eu tinha três carros alugados e comecei a vendê-los para jogar. Vendi um, depois outro, até perder os três. Cheguei a vender um carro de R$ 28 mil por R$ 20 mil para tentar recuperar o dinheiro que já tinha perdido. Mas o jogo não pagou nada e perdi tudo rapidamente”, conta.
O relato surge em um momento em que as bets estão no centro de uma disputa no Brasil. Na última terça-feira (3), representantes de clubes de futebol defenderam, durante audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF), a retomada das casas de apostas. O governo federal proibiu a atividade por meio da Medida Provisória 1.394/2026, publicada em 25 de setembro.
A decisão levou empresas e entidades do setor a recorrerem à Justiça. O governo, por sua vez, argumenta que as apostas agravaram o endividamento das famílias e provocaram danos à saúde pública, especialmente pelo aumento dos casos de ludopatia, transtorno caracterizado pela perda de controle sobre o comportamento de apostar.
Cadê o dinheiro de um dia inteiro?
Antes de conseguir abandonar as apostas, João vivia uma rotina de trabalho intenso e perdas constantes. Ele conta que chegava a ganhar R$ 700 por dia dirigindo, mas bastavam alguns minutos diante do celular para todo o dinheiro desaparecer.
“Eu trabalhava o dia inteiro e chegava em casa com R$ 700. Em 10 ou 20 minutos, perdia tudo no jogo. Era o esforço de um dia inteiro jogado fora. Eu chorava muito à noite e ficava apenas com o dinheiro contado para colocar gasolina no carro no dia seguinte”, lembra.
Em uma única aposta, chegou a perder R$ 20 mil. Mesmo assim, continuava tentando recuperar o prejuízo. Segundo ele, a expectativa de ganhar novamente o valor perdido alimentava o ciclo.
“O problema é que, quando a gente ganha, acredita que vai continuar ganhando. Mas, se você ganha R$ 5 mil hoje, amanhã pode perder R$ 15 mil tentando ganhar mais. É uma armadilha que prende a pessoa”, afirma.
Além das perdas financeiras, João relata mudanças no comportamento. Passou a evitar amigos, deixou de responder mensagens e se isolou.
“Quando a gente está viciado, muda completamente. Ficamos calados, nos isolamos, saímos do WhatsApp e não queremos falar com ninguém. É uma tristeza muito profunda. O jogo consome a pessoa por inteiro”, diz.
A luta para abandonar as apostas
Há cerca de seis meses, João conseguiu parar de apostar. Antes disso, enfrentou recaídas e períodos em que tentava ficar longe dos jogos, mas acabava voltando.
Para ocupar a mente e evitar novas apostas, mergulhou no trabalho. Em determinado período, chegou a dirigir 22 horas por dia e dormir apenas duas horas dentro do carro, em postos de combustíveis. Atualmente, ainda enfrenta jornadas que podem chegar a 18 horas.
“Foi muito difícil sair. Eu pensava nos anos de trabalho que perdi em poucos minutos. Chorava muito. Comecei a focar inteiramente no trabalho para conseguir me afastar do jogo. Hoje, graças a Deus, não jogo mais”, relata.
Embora tenha conseguido abandonar as apostas, João ainda convive com as consequências financeiras. O dinheiro perdido, segundo seus cálculos, seria suficiente para comprar um apartamento.
“Conheço histórias de pessoas que perderam casa, pegaram dinheiro com agiotas e chegaram ao desespero. Meu conselho é sair imediatamente. Não entrem nessa. É preciso muita força de vontade para conseguir se libertar”, afirma.
Clubes defendem retorno das bets
Enquanto João tenta reconstruir a vida financeira, o futuro das casas de apostas continua em discussão no país.
Durante a audiência pública de terça-feira (3), representantes de clubes defenderam a retomada das atividades. Segundo os dirigentes, a proibição interrompeu contratos de patrocínio e comprometeu receitas importantes para o futebol brasileiro.
O governo federal, no entanto, mantém posição contrária. Durante o debate, representantes do Executivo afirmaram que os prejuízos provocados pelas apostas ultrapassam a questão financeira e atingem a saúde e o bem-estar das famílias.
O ministro Luiz Fux, relator das ações que questionam a medida provisória, conduziu a audiência. O encontro não teve caráter de julgamento. Portanto, a proibição continua em vigor enquanto o STF analisa os questionamentos. A medida também depende de apreciação do Congresso Nacional.
Para João, porém, a experiência de perder praticamente todo o patrimônio deixou uma certeza. Mesmo que a proibição caia, ele não pretende voltar a apostar.
“Hoje eu alerto todo mundo para não jogar. A gente acha que vai ganhar dinheiro, mas pode acabar perdendo tudo o que construiu durante a vida.”
Fonte: Folha Vitoria