Keyla Helmer e o namorado, que desapareceu. Foto: Reprodução/TV Vitória e Acervo pessoal
Um relacionamento de quase um ano, planos de casamento e o sonho de construir uma família terminaram em um pesadelo para a pedagoga Keyla Helmer, de 25 anos, moradora de Cariacica. O namorado desapareceu após revelar que tinha dívidas com 30 agiotas. Desde então, a jovem passou a receber cobranças que, segundo ela, já somam cerca de R$ 200 mil.
O nome do envolvido e a imagem dele não estão sendo divulgados porque o caso ainda está sob investigação.
Além das dívidas deixadas pelo então companheiro com terceiros, Keyla descobriu que ele havia utilizado seus cartões de crédito e feito empréstimos em seu nome, acumulando um prejuízo de aproximadamente R$ 20 mil.
Com medo das pessoas que passaram a procurá-lo, ela precisou abandonar a própria casa e se afastar do trabalho.
Na última quinta-feira, ele me sinalizou que estava com uma dívida muito grande e falou que não tinha como pagar. E eu conversei com ele, falei: ‘Dívida, a gente vai resolver, vida adulta é assim mesmo’. Ele falou: ‘Não, essa dívida que eu tenho não tem como resolver, eu vou precisar ir embora para sua segurança’.
Namorado desapareceu após revelar dívidas
Segundo Keyla, a revelação provocou uma discussão entre o casal. Sem entender a gravidade da situação, ela decidiu sair de casa por algumas horas para pensar. Quando retornou, o namorado já havia desaparecido, levando os próprios pertences e documentos e cartões dela.
A jovem tentou descobrir o paradeiro do companheiro por mensagens. Ele respondeu que não queria prejudicá-la, mas que precisava ir embora para protegê-la. Também avisou que outras pessoas iriam procurá-la e que o mês seguinte seria conturbado.
“Quando eu retornei em casa, ele já não estava mais lá. Ele tinha pegado as coisas dele, tinha pegado os meus documentos, meus cartões, que ele já tinha acesso, e tinha sumido”, relatou.
Em uma das mensagens apresentadas à reportagem da TV Vitória, o homem mencionou a possibilidade de ir para São Paulo trabalhar para pagar as dívidas. Em outra conversa, afirmou estar arrependido e disse que, caso não conseguisse quitar os valores, poderia colocar a então namorada em risco.
Na sexta-feira seguinte ao desaparecimento, Keyla começou a receber mensagens de pessoas que afirmavam ter emprestado dinheiro ao homem. Segundo ela, alguns credores acreditavam que os dois eram casados e passaram a procurá-la em busca de informações sobre o paradeiro dele.
Hoje, eu tenho seis pessoas que me cobram todos os dias no telefone e eu tenho entre quatro e cinco pessoas que estão indo na casa onde eu morava. Eu não consigo confirmar as pessoas, porque quem está recebendo são os meus vizinhos.
Homem teria usado carro alugado e emprego como garantias
Ao conversar com os credores, Keyla descobriu que o agora ex-namorado teria oferecido como garantia bens que não possuía. Um deles seria um carro alugado, pelo qual pagava semanalmente. Segundo a pedagoga, algumas pessoas chegaram a procurar o veículo para tentar recuperar o dinheiro emprestado.
O homem também teria se apresentado como proprietário de uma hamburgueria onde trabalhava como funcionário. A situação levou pessoas que afirmavam ter emprestado dinheiro a procurá-lo no estabelecimento comercial.
“A hamburgueria em que ele era funcionário, ele sinalizou que era dono dessa hamburgueria e as pessoas chegaram até ir lá pra poder saber se ele tava lá. Então, ele não tinha nada que era compatível”, explicou Keyla.
A hamburgueria publicou um comunicado nas redes sociais informando que um ex-funcionário estaria se passando por proprietário, sócio ou representante do estabelecimento e de outros negócios da região para conseguir empréstimos.
“Um ex-funcionário da nossa empresa tem se passado como proprietário, sócio ou representante do local e de outros negócios da região para solicitar dinheiro, realizar empréstimos e aplicar golpes em diversas pessoas”, informou o estabelecimento.
A empresa ressaltou ainda que o homem nunca teve participação societária no negócio e que atuava apenas como funcionário.
Pedagoga ficou com R$ 20 mil em dívidas
Além das cobranças feitas pelos credores, Keyla afirma ter descoberto dívidas em seu próprio nome, relacionadas a empréstimos e gastos com cartão de crédito. Os valores chegam a aproximadamente R$ 20 mil.
A pedagoga contou que o ex-namorado utilizava sua conta bancária desde abril. Na época, ele havia explicado que as contas de uma antiga empresa estavam bloqueadas judicialmente e que precisava movimentar dinheiro para continuar trabalhando.
Ele me sinalizou em abril, que foi quando ele começou a fazer as movimentações da empresa que ele tinha, que na última empresa ele estava com um processo de bloqueio judicial. Ele me mostrou e realmente tinha um processo de um banco contra a empresa e, como ele era o sócio, as contas foram bloqueadas.
Por confiar no companheiro, Keyla permitiu que ele utilizasse a conta. Agora, ela afirma ter descoberto que parte do dinheiro emprestado por terceiros foi depositada em seu nome, embora não soubesse da origem dos valores.
A jovem diz que precisa explicar aos credores que não participou das negociações e que não recebeu os recursos para uso próprio. Para tentar comprovar sua versão, passou a encaminhar o boletim de ocorrência registrado à polícia.
“Esse dinheiro entrou na minha conta, mas quem usava essa conta não era eu, era ele. Eu nunca nem tive acesso a esse dinheiro. Eu estou tendo que explicar para essas pessoas, inclusive abri o boletim”, afirmou.
Jovem deixou a própria casa por medo
As consequências do desaparecimento do ex-namorado ultrapassaram os prejuízos financeiros. Com pessoas procurando o homem na residência onde o casal morava, Keyla decidiu sair do imóvel, que pertence à sua família.
A pedagoga afirma que não recebeu ameaças diretas, mas teme pela própria segurança. Ela deixou a casa às pressas, levando apenas uma mochila, e não se sente segura para retornar. Sua cachorra de 11 anos, chamada Zípora, permaneceu no imóvel e está sendo cuidada pelos vizinhos.
Eu não estou podendo ir trabalhar por uma questão de segurança, tive que sair da minha casa, deixei tudo lá. Então, eu fiz uma mochila e saí às pressas por uma questão de segurança. Eu não consigo voltar na minha casa porque eu não me sinto segura.
A situação também afetou a saúde mental da jovem. Segundo ela, foi necessário procurar atendimento médico e se afastar das atividades profissionais. Keyla lamenta especialmente ter perdido a liberdade de circular pelo bairro onde cresceu e de permanecer na casa da família, um lugar em que sempre se sentiu segura.
“Eu tive que me afastar por saúde mental, fiquei afastada do meu trabalho”, relatou.
Relacionamento tinha planos de casamento
Keyla e o ex-namorado se conheceram por meio de um aplicativo de relacionamento. Os dois estavam juntos havia quase um ano e moravam na mesma casa há aproximadamente seis meses.
Segundo a pedagoga, o relacionamento parecia perfeito. O homem era carinhoso, tinha boa convivência com a família dela e falava frequentemente sobre casamento e filhos. A jovem afirma que nunca desconfiou das supostas irregularidades.
Ele falava que queria casar, que ele queria ter uma família, que ele queria ter filho. E às vezes eu falava: ‘Ah, mas eu não sei se eu quero ter filho’. E ele falava: ‘Não, mas se você não quiser, então a gente pode adotar um cachorro’.
A pedagoga conta que já havia vivido um relacionamento abusivo anteriormente e que encontrou no ex-companheiro alguém que lhe transmitia segurança. Por isso, a descoberta das dívidas e das supostas mentiras foi ainda mais dolorosa.
Agora, ela espera que o homem seja localizado, esclareça o destino do dinheiro e responda judicialmente por eventuais crimes. Keyla também quer demonstrar que não tem responsabilidade pelos empréstimos feitos por ele.
“Eu me sinto traída. A palavra que eu tenho é essa. Eu dormia com uma pessoa que mentiu pra mim durante todo esse tempo e hoje a mentira que ele me trouxe, eu não consigo saber se nada do que eu vivi foi verdade”, desabafou.
Polícia Civil investiga o caso
A Polícia Civil informou que o caso está sob investigação do 17º Distrito Policial de Cariacica. A unidade trabalha para identificar e responsabilizar os possíveis envolvidos.
Informações que possam ajudar nas investigações podem ser repassadas de forma sigilosa ao Disque-Denúncia 181, pelo telefone 181, pelo site ou pelo WhatsApp (27) 99253-8181.
*Com informações da repórter Thainara Ferreira, da Tv Vitória/Record.
Fonte: Folha Vitória