A verdadeira força não está em não sentir. Está em conseguir olhar para aquilo que sentimos sem precisar fugir, atacar ou ferir alguém para suportar a própria dor.
Desde cedo, muitos meninos aprendem a esconder aquilo que sentem. Se choram, ouvem que precisam ser fortes. Se demonstram medo, são incentivados a enfrentá-lo em silêncio. Se revelam suas inseguranças, logo aparece alguém para lembrá-los de que homens não devem agir assim.
Aos poucos, aprendem a disfarçar a tristeza, engolir o medo e esconder a vulnerabilidade. Crescem ouvindo que precisam ser fortes, mas raramente alguém lhes ensina o que fazer quando a vida os machuca por dentro.
E machucado nessa vida é o que não falta. Vamos acumulando uma série deles e quando não organizamos esses momentos, vamos colecionando feridas emocionais. Algumas saram e outras não. Ficam conosco gerando sintomas.
Anos depois, muitos desses meninos se tornam homens que não conseguem explicar o que sentem. Em vez de tristeza, sentem irritação. Em vez de medo, demonstram agressividade. Em vez de admitir que estão sofrendo, afastam-se, silenciam ou fingem que nada está acontecendo.
O problema é que emoções não desaparecem simplesmente porque não falamos sobre elas. Muitas vezes, continuam presentes, influenciando nossas escolhas, nossos comportamentos e a maneira como nos relacionamos com as pessoas que amamos. E destruindo a nossa saúde.
Como a raiva e agressividade são características aceitáveis em um homem, muitos deles passam a ter um repertório limitado de reações. Ou tem raiva, ou negam o sentimento ou se calam. O fato é que não conseguem conversar sobre qualquer coisa mais profunda.
Homens chegam aqui no consultório como animais indo para o abatedouro. Com muito medo e ansiedade. Forçados na maioria das vezes pela esposa que deseja se separar, às vezes porque se encontram num estado de burnout ou porque estão em vias de ser demitidos pelo seu chefe ou pelos seus funcionários que não aguentam mais a sua falta de inteligência emocional.
O fato é que ninguém aguenta mais conviver com ele e provavelmente nem ele mesmo.
Não entrar em contato com o sofrimento que é o que a maioria faz. Outros usam analgésicos como o álcool, a comida, abuso de psicofármacos, aposta em bets, às vezes hobbies, mas não acessam o problema em si. Na realidade, isso estende o sofrimento e os prejuízos à qualidade de vida e à família.
Para muitos homens, alguém que entra em contato com sentimentos é fraco. Melhor passar por cima deles. E o fato é que ninguém se torna forte por não entrar em contato com sentimentos. Acontece na prática exatamente o contrário. Sentimentos precisam ser organizados. Na medida que são negligenciados, acumulados, nossa capacidade de resiliência diminui.
Infelizmente alguns homens têm uma dificuldade tão grande para gerenciar emoções que se tornam abusadores psicológicos e/ou físicos das pessoas que mais tem intimidade, e principalmente das suas mulheres que são as suas maiores vítimas e seus filhos. E isso é lamentável e muito triste.
Mas existe uma diferença enorme entre sentir uma emoção e ser dominado por ela. Reconhecer a raiva não significa dar vazão à agressividade. Admitir o medo não significa ser covarde. E reconhecer que está sofrendo não torna ninguém menos capaz de enfrentar os problemas.
Pelo contrário. É justamente quando conseguimos identificar o que sentimos que passamos a ter mais condições de compreender nossas reações e escolher como agir.
E quando um homem consegue entender o que sente e dialogar com as suas partes internas, ele ganha potência. E essa potência vai aparecer em sua vida de diversas formas.
Aprender a lidar com as emoções é um processo que exige coragem, disposição e, muitas vezes, ajuda profissional. Não se trata de abandonar a força, mas de compreender que força não é sinônimo de silêncio, e autocontrole não significa reprimir tudo o que se sente.
Talvez esteja na hora de ensinarmos aos meninos algo que muitos homens só descobrem quando a vida começa a desmoronar: não precisamos ter vergonha do que sentimos, mas precisamos aprender o que fazer com aquilo que sentimos.
Porque aquilo que não conseguimos elaborar dentro de nós pode acabar comprometendo nossa saúde, nossos relacionamentos e a vida das pessoas que amamos.
Fonte: Folha Vitória