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Brasil virou uma só máquina elétrica, e o ES faz parte dessa transformação

Pela primeira vez na história, todas as unidades da Federação passaram a estar conectadas ao sistema nacional

Por Redação em 13/10/2026 às 09:00:25
Placas fotovoltaicas. Foto: Canva

Placas fotovoltaicas. Foto: Canva

*Artigo escrito por Alexandre Drago, engenheiro eletricista e sócio-fundador da Ecosun

O Brasil inteiro virou uma só máquina elétrica — e talvez ainda não tenhamos percebido o tamanho dessa transformação. Em setembro de 2025, com a energização do Linhão de Tucuruí até Boa Vista, Roraima deixou de ser o último estado isolado e passou a integrar o Sistema Interligado Nacional (SIN).

Pela primeira vez na história, todas as unidades da Federação passaram a estar conectadas ao sistema nacional. Um marco para a infraestrutura brasileira que recebeu menos atenção do que sua dimensão merece.

Por trás dessa integração está uma das operações de engenharia mais complexas do planeta.

O SIN não se chama “interligado” por acaso. É uma gigantesca rede que conecta diferentes regiões do país e precisa operar de maneira coordenada, mantendo a frequência elétrica em torno de 60 Hz.

Em um sistema dessa dimensão, geração e consumo precisam permanecer equilibrados continuamente. Quando esse equilíbrio é comprometido, a frequência pode oscilar e a segurança de todo o sistema entra em jogo.

É justamente nesse cenário nacional que o Espírito Santo também vive uma transformação importante.

Nos últimos anos, a matriz elétrica capixaba passou por uma expansão significativa, especialmente com o avanço da energia solar.

Dados apresentados pela Empresa de Pesquisa Energética mostram que, entre 2004 e 2025, a capacidade instalada de geração elétrica no Espírito Santo passou de 893 MW para 3.046 MW.

Nesse intervalo, a fonte solar foi responsável pela maior adição de potência no estado: 1.239 MW.

É uma mudança que pode ser percebida na prática. Sistemas fotovoltaicos se espalharam por residências, empresas, propriedades rurais e indústrias capixabas.

A geração deixou de estar concentrada apenas em grandes empreendimentos e passou a acontecer também perto de onde a energia é consumida. Isso é extremamente positivo. Mas também nos obriga a discutir o próximo passo.

Quanto maior a participação de fontes variáveis, como solar e eólica, maior é a necessidade de planejamento, infraestrutura e inteligência na operação do sistema elétrico.

O sol não aparece de acordo com a curva de demanda. O vento também não sopra por determinação do operador. Diferentemente de determinadas fontes despacháveis, a produção dessas fontes depende das condições naturais.

E aqui é importante fazer uma distinção: reconhecer esse desafio não significa defender menos energia renovável.

Significa criar as condições necessárias para que possamos instalar cada vez mais energia limpa sem comprometer a confiabilidade do sistema.

Isso envolve expansão e modernização das redes de transmissão e distribuição, armazenamento de energia, sistemas de controle, digitalização, mecanismos de flexibilidade, leilões de capacidade e uma regulação capaz de acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas.

Para o Espírito Santo, essa discussão é especialmente relevante. O crescimento da geração solar mostra que a transição energética já não é uma promessa distante para o estado. Ela está acontecendo agora.

O desafio passa a ser garantir que a infraestrutura elétrica evolua na mesma velocidade.

Quem coordena esse enorme casamento entre geração, transmissão e consumo no âmbito nacional é o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A tarefa é monumental: acompanhar permanentemente as condições do sistema e tomar decisões para que uma rede de dimensões continentais permaneça funcionando de maneira segura.

Por isso, reduzir o debate energético a uma disputa entre defensores e críticos das fontes renováveis pouco contribui.

De um lado, há quem interprete qualquer questionamento sobre os desafios técnicos das renováveis como uma tentativa de impedir a transição energética. Do outro, há quem utilize a variabilidade dessas fontes como argumento para desacelerar sua expansão.

Nenhuma dessas posições enfrenta o problema central.

A verdadeira discussão é sobre como construir um sistema elétrico capaz de incorporar cada vez mais geração renovável mantendo segurança, estabilidade e eficiência.

No Espírito Santo, onde a energia solar ganhou espaço de maneira expressiva nos últimos anos, essa conversa precisa envolver consumidores, empresas, engenheiros, distribuidoras, órgãos públicos e todo o setor elétrico.

Não precisamos escolher entre expansão das renováveis e segurança energética. Precisamos de engenharia e planejamento suficientes para garantir as duas coisas.

A transição energética não será construída apenas com placas solares, turbinas, linhas de transmissão ou baterias. Será construída pela capacidade de integrar todas essas tecnologias em um sistema cada vez mais complexo.

Da próxima vez que um capixaba apertar um interruptor em Vitória, Vila Velha, Serra, Linhares, Colatina ou qualquer outro município do estado, vale lembrar: aquele gesto aparentemente simples está conectado a uma das maiores máquinas já construídas pelo homem.

Uma máquina que agora conecta o Brasil inteiro — e que precisa ser equilibrada, segundo a segundo, para que a energia simplesmente esteja lá quando precisarmos dela.

Fonte: Folha Vitoria

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