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Economia

ES produz mais riqueza por habitante, mas o que explica o consumo menor?

Dados mostram que, apesar de gerar mais riqueza por habitante que a média nacional, ES tem consumo das famílias abaixo do registrado no país


Imagem aérea do Porto de Capuaba. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Intrigou-me o fato, na realidade uma evidência, de que o consumo per capita das famílias capixabas normalmente se apresenta inferior ao mesmo indicador nacional, mesmo apresentando o PIB per capita superior.

Senão vejamos. Valho-me, para tanto, de dados extraídos das respectivas tabelas de recursos e usos. A relativa ao Espírito Santo foi divulgada recentemente pelo IJSN. Ambas se referem ao ano de 2021. Lá encontramos, para o Espírito Santo, a cifra indicativa do consumo per capita no valor de R$ 20.247,45. E, para o país, R$ 26.073,12.

No entanto, as posições se invertem quando comparamos os PIBs per capita: R$ 45.353,82 para o Espírito Santo e R$ 42.247,10 para o Brasil.

Era de se supor que o PIB per capita maior implicasse um consumo per capita das famílias indo na mesma direção, no comparativo. Essa assimetria, obviamente, também se manifesta quando comparamos as participações das duas variáveis no PIB.

No Espírito Santo, a participação do consumo das famílias foi de 45%, enquanto, em nível nacional, de 60%.

Uma leitura mais detalhada da tal tabela de recursos e usos, que em economês se chama TRU, nos ajuda a explicar essas diferenças. Que, aliás, são estruturais, pois persistem quando fazemos cortes temporais em anos anteriores.

Essa tabela nos mostra o PIB sob três óticas: a do produto e sua composição setorial; a da demanda, para onde o que é produzido se destina sob a forma de gastos; e a da renda, ou seja, quem recebe os resultados, sob as formas de remunerações, lucros e impostos.

Essas três óticas se igualam, ou seja, produto, renda e demanda final.

Porém, é nos comparativos entre o Espírito Santo e o Brasil que vamos encontrar diferenças, sobretudo na renda e, consequentemente, na demanda.

A estrutura da renda reflete diretamente a forma de distribuição do que denominamos valor adicionado, que representa a riqueza nova produzida anualmente.

As remunerações, que incluem salários e outras formas de ganhos, representaram, em 2021, 33% do PIB, enquanto o excedente operacional, incluindo lucros e rendimentos mistos, representou 50%. Já em nível nacional, esses percentuais foram, respectivamente, de 39% e 46%.

A explicação para essas diferenças está nas estruturas produtivas. A nacional, mais dispersa, ou seja, menos concentrada em determinados setores. E a capixaba, com forte concentração na produção de commodities.

Para exemplificar melhor, tomemos dois casos: extração de petróleo e minério de ferro. No primeiro, enquanto as remunerações representaram 10% do valor adicionado — riqueza nova gerada —, pela ótica da renda, o excedente operacional bruto representou 89%. No segundo, 4,6% e 94%, respectivamente.

A questão é que, enquanto a parcela das remunerações normalmente se destina majoritariamente ao consumo, o excedente tende, em parte, a ser distribuído a agentes localizados fora do estado.

Esses números nos mostram o grande desafio a ser enfrentado com a implantação da reforma tributária, que é o de dotar o Espírito Santo de maior capacidade de agregar valor e capturá-lo localmente.

Ou seja, transformá-lo em renda e fazer com que esta se destine, em maior proporção, ao consumo interno. E isso implica diversificação econômica, complexidade produtiva e adensamento de cadeias produtivas.

Afinal, tão importante quanto ampliar a riqueza produzida no território capixaba é aumentar a parcela dessa riqueza que nele permanece, sob a forma de remunerações, investimentos, renda e consumo.

Folha Vitoria

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