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Certa vez, li uma citação da escritora britânica George Eliot: “Estas joias têm vida: suas cores falam, dizem o que as palavras não conseguem expressar”. Confesso que nunca parei para pensar muito no assunto, afinal, até recentemente, enxergava esses acessórios, que costumamos usar e depois guardar na gaveta, apenas como um detalhe.
Mas isso mudou depois que cruzei a porta de uma pequena sala, no segundo andar do Departamento de Gemologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Este ano, nas manhãs de quartas-feiras, entre setembro e outubro, o espaço se transforma em uma oficina que ensina pacientes diagnosticadas com câncer de mama a criar e lapidar joias.
O projeto “Toda mulher é uma joia rara”, desenvolvido pela cooperativa médica Unimed Vitória em parceria com a universidade e que faz parte da programação do “Outubro Rosa”, recebe 10 mulheres para aulas em que podem desenvolver os seus próprios acessórios. Entre elas, está a professora aposentada Jussara Luzia Leite, de 62 anos.
Jussara conta que o diagnóstico foi uma surpresa, já que, mesmo sentindo que havia algo errado com sua saúde, os exames não apontavam alterações. A confirmação veio após a sua insistência na investigação e trouxe consigo sessões de quimioterapia, cirurgia e radioterapia.
Ela ainda tem pela frente cinco anos de tratamento de manutenção, mas encontrou na oficina uma forma de dar novos significados à experiência que está vivendo.
Você molda a prata, que ela vem em uma peça estreita, você submete ao fogo com o maçarico para ele ficar maleável, em metal, dá forma. Então tudo isso a gente interioriza também. A gente está também, não apenas o corpo, mas em espírito, se moldando, se ressignificando.
Jussara Luzia Leite, professora aposentada
Confesso que a jornalista que vos escreve não tem muito conhecimento sobre a produção de joias, mas descobri na oficina que o processo é extremamente minucioso. Cada etapa que presenciei exige atenção, precisão e paciência até que a peça fique pronta.
O trabalho é orientado pela professora Kelly Christiny da Costa, do Departamento de Gemologia, com a ajuda de estudantes voluntários. Durante as aulas, que acontecem de 9h às 12h, as mulheres aprendem a trabalhar os materiais, utilizar as ferramentas e dar forma às próprias criações.
A parceria também tem relação com a trajetória acadêmica da professora, que pesquisa o trabalho com mulheres em situação de vulnerabilidade. Para Kelly, a confecção de adornos pode contribuir para a autoestima ao permitir que as participantes expressem histórias e sentimentos por meio das peças.
A Unimed me procurou para fazer essa atividade, e a oportunidade foi essa troca mesmo: trazê-las para dentro do laboratório, compensar a baixa autoestima e melhorá-la. A joia traz isso. Quer dizer, não só a joia, mas o adorno de um modo geral. Você pode resgatar a autoestima das mulheres, trazer confiança e trabalhar isso.
Kelly Christiny da Costa, professora do Departamento de Gemologia
Apesar de o projeto ser destinado às pacientes, quem está do outro lado da bancada de confecção também sente o impacto. O estudante de Gemologia Guilherme Kuhn Ewald é voluntário nas oficinas e acompanha cada parte da produção.
“Quando a professora me falou do projeto, eu achei incrível o objetivo. Em 2020, perdi um parente por causa do câncer também, então quando eu cheguei aqui e vi a história de cada pessoa, fiquei feliz de poder fazer parte”, disse.
Um significado lapidado em cada peça
Josérica Baunsen, de 52 anos, descobriu o câncer no final de 2024. A gestora de recursos humanos tem o hábito de realizar o autoexame e, durante um desses momentos, notou a presença de um nódulo na mama esquerda.
“Quando chegou o resultado da biópsia, eu falei com meu marido, que na época estava vivo: ‘Oficialmente, a partir de agora, eu sou uma mulher que tem um câncer maligno e que vai agora entrar no processo de luta’. E foi um processo complicado, porque o câncer já estava bem grande.”
Apesar da notícia desafiadora, Josérica decidiu que enfrentaria a doença da melhor forma possível: vivendo da forma como sempre gostou de viver.
Eu entrei no banheiro e minha irmã viu que eu estava demorando, bateu na porta e perguntou como eu estava. Eu saí toda maquiada e todo mundo perguntou: ‘O que você tá fazendo? A gente acabou de saber de um diagnóstico negativo, ruim’. Minha resposta foi: ‘Eu estou saindo para dançar’.
Josérica Baunsen, gestora de recursos humanos
Agora, em uma fase mais estável do tratamento, ela está usando sua experiência na oficina para produzir uma joia que também significa um novo capítulo. A produção mais recente de Josérica é um par de alianças, que usará com o seu atual namorado.
“Ele queria comprar uma aliança mas eu disse para ele que eu mesma ia fazer. Tem um valor emocional maior do que qualquer joia comprada no mundo inteiro, porque foi feita pelas minhas próprias mãos.”
Já o pingente que Jussara está confeccionando será dela. “Existe uma programação na oficina. Primeiro começamos pelo básico, como um anel simples, por exemplo, e agora estamos trabalhando com as gemas”, explica. “É difícil, porque são muitas soldas, mas agora já estou na fase do polimento.”
Durante o processo de escolha dos acessórios que seriam produzidos, a professora Kelly incentivou que as mulheres pensassem em algo que elas mesmas poderiam utilizar. De acordo com a professora de gemologia, esse foi um momento onde as pacientes puderam olhar com mais carinho para sua própria história.
“Quando começamos, eu perguntei para quem elas fariam as joias. A maioria disse para pais, marido ou filhos. Foi quando eu perguntei: Por que não para vocês mesmas?”
O cenário do câncer de mama no ES
O câncer de mama é um tumor maligno que acontece quando há a multiplicação desordenada de células anormais nas mamas, podendo invadir outros tecidos e órgãos. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), é o tipo de câncer mais comum entre mulheres do Brasil e do mundo, mas também pode afetar homens.
Para o triênio 2026-2028, o instituto estima 78.610 novos casos para cada ano no país, com risco estimado de 71,57 a cada 100 mil mulheres. A região Sudeste concentra a maior probabilidade da doença: 88,29 casos a cada 100 mil mulheres.
No Espírito Santo, segundo dados do Painel Oncologia, disponibilizados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), foram diagnosticados mais de 3.300 casos entre 2024 e agosto de 2026. Os dados de 2025 e 2026 estão sujeitos à atualização.
Oficina une aprendizado, acolhimento e autoestima
A proposta de trabalhar com joias surgiu de uma iniciativa da Unimed Oncologia voltada ao acolhimento de pacientes durante o tratamento. Segundo a coordenadora Lígia Lima, a atividade da cooperativa médica integra o grupo terapêutico “Conversas que Cuidam”, que promove encontros mensais para compartilhar experiências e oferecer suporte emocional.
Mas qual o objetivo de escolher a oficina de ourivesaria como ação do Outubro Rosa? De acordo com ela, a ideia é aproximar o processo de produção de uma joia das diferentes etapas vividas durante o tratamento oncológico.
Entendemos que esse processo é muito importante, ele fala da humanização, ele fala do além do tratamento. O tratamento não é somente o medicamento, não é somente estar com o médico. É uma equipe multifuncional que trabalha em várias etapas do caminho.
Ligia Lima, coordenadora da Unimed Oncologia
O projeto "Toda mulher é uma joia rara" reúne pacientes que estão em diferentes fases do tratamento e os convites foram feitosdurante o atendimento na clínica. No meu tempo na oficina, percebi que além de aprender uma nova habilidade, as mulheres têm a oportunidade de compartilhar dificuldades, comemorar conquistas e construir relações para além do ambiente hospitalar.
Para a psicóloga da Unimed Oncologia, Tais Peres, a atividade também permite trabalhar a capacidade de lidar com imprevistos e mudanças de planos.
Elas têm um plano, têm um projeto, só que nem sempre o planejamento vai correr exatamente como foi pensado anteriormente. Às vezes, é necessário mudar de rota, e isso se assemelha muito ao tratamento oncológico.
Tais Peres, psicóloga da Unimed Oncologia
A proposta da oficina é funcionar como uma atividade complementar, que oferece espaço para expressão, convivência e descoberta de novas habilidades.
Após finalizarem o ciclo de aulas, as alunas poderão apresentar suas peças durante um desfile na sede administrativa da Unimed Vitória, previsto para o dia 26 de outubro. "Elas poderão mostrar para seus amigos e familiares o que são capazes de fazer", afirma Ligia.
Um diagnóstico que muda tudo
A oncologista Morgana Stelzer, que acompanha pacientes com a doença na Unimed, explica que, apesar de apresentar mais incidência na faixa etária de 40 a 59 anos, cada vez mais mulheres jovens estão sendo diagnosticadas com câncer de mama.
De acordo com a oncologista, o aumento dos casos está relacionado a uma combinação de fatores de risco modificáveis e não modificáveis.
Os hábitos de vida atuais, com alimentação e sedentarismo, são fatores que estão influenciando nesse diagnóstico mais frequente do câncer de mama nas mulheres. Mas também temos que lembrar que existem outros fatores que não conseguimos controlar, como a genética, o histórico familiar positivo para câncer de mama e os fatores hormonais.
Morgana Stelzer, oncologista da Unimed Oncologia
Para a médica, a atitude de Josérica e Jussara, de conhecer o próprio corpo e procurar atendimento ao perceber alterações nas mamas, são medidas fundamentais. Ela também destaca a importância de realizar os exames de rastreamento indicados para cada faixa etária, especialmente a mamografia.
“Nenhum exame vai garantir 100% de certeza do resultado. Temos que unir o exame que você está fazendo à avaliação clínica e à impressão da própria paciente", explica.
De acordo com Morgana, quanto mais cedo o tumor for detectado, maiores as chances de cura e menores os impactos do diagnóstico.
"É um diagnóstico que vem para mudar sonhos, planos, desejos, e tudo isso mexe muito com a cabeça delas. Mas, quando é feito no começo, as chances de vencer a doença são muito maiores", afirma.
Excesso de gordura corporal;
Sedentarismo, consumo de bebida alcoólica, exposição frequente a radiações ionizantes, tabagismo, alteração genética (especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2) e histórico familiar.
Praticar atividade física, manter o peso corporal adequado, evitar o consumo de bebidas alcoólicas e amamentação.
Nódulo na mama em mulheres com mais de 50 anos; nódulo na mama em mulheres com mais de 30 anos, que persistem por mais de um ciclo menstrual; nódulo na mama de consistência endurecida e fixo ou que vem aumentando de tamanho, em mulheres adultas de qualquer idade; saída espontânea de líquidos de um dos mamilos; lesão da pele da mama que não responde a tratamentos tópicos; aumento progressivo do tamanho da mama; pele da mama com aspecto de casca de laranja; retração na pele da mama; mudança no formato do mamilo; também podem aparecer pequenos nódulos no pescoço ou na região embaixo dos braços (axilas).
Ainda assim, é possível vencer
A aula terminou ao meio-dia. Conforme os barulhos da oficina iam cessando e eu deixava a sala, percebi que talvez, até aquele momento, eu ainda não tivesse enxergado o verdadeiro significado que uma joia pode carregar.
No final das contas, entendi que o processo de produzir uma peça e o de enfrentar um diagnóstico difícil tem mais em comum do que imaginamos: o caminho é intenso, minucioso e, muitas vezes, complicado. Mas pode resultar em algo muito belo quando finalizado.
Para Jussara, por exemplo, o câncer continua sendo uma experiência difícil, que não deve ser minimizada. Mas, enquanto dá forma à prata e transforma o material em uma joia, ela também encontra uma maneira de ressignificar o que está vivendo.
O câncer é assustador. Não adianta dizer que está tudo bem, porque não está. É difícil pra caramba, mas a gente enfrenta. Não tem outro caminho, o único caminho é em frente. [...] Mas aqui, a gente cria, molda, está em grupo. A gente se sente viva.Jussara Luzia Leite, professora aposentada
Fonte: Folha Vitoria