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O mês de setembro trouxe um golpe de pesar ao universo do ensino de inglês no mundo. A EC English, rede multinacional de escolas de imersão intensiva no idioma, fundada em Malta, entrou em falência no dia 14, após 35 anos de funcionamento com altíssima reputação. Apenas 10 dias depois, a canadense ILAC anunciou o fechamento das suas atividades e pediu proteção contra insolvência. Na Irlanda, a Erin College, cujos proprietários são brasileiros, fechou após 23 anos de operação. Três marcas importantes fechando em duas semanas.
É tentador enxergar tudo isso como questão de gringo, e julgo que isso seja um grave erro. O Brasil foi o segundo país em origem dos alunos das escolas associadas à Languages Canada em 2025 e, em 2024, foi o líder nas semanas de estudo na Irlanda, ficando em terceiro lugar no número de alunos. A divergência numérica dos dois lugares aponta para quem é o cliente que gasta muito tempo estudando no exterior e também quem tem mais a perder com essas falências.
Parece-me que a proteção dos pagantes não foi ampla. Dos 444 estudantes que a Languages Canada diz ter remanejado em razão do fechamento das unidades canadenses da EC English, os comunicados que li não indicavam nacionalidade, e ao que foi informado não há como saber quantos brasileiros foram afetados. Nas páginas da própria EC, a fatia de brasileiros foi de 19% a 30% no Canadá. A resposta foi a rematrícula noutras instituições, com o ressarcimento apenas a quem ficou sem vaga.
Na Irlanda, o dispositivo de proteção abrange a mensalidade e deixa de fora hospedagem e passagem, e a acomodação firmada pela EC English teria garantia somente até 19 de setembro. O vendedor de pacotes de intercâmbio deveria explicar, antes de fechar, o que ficou sem proteção, quando a escola quebrou.
O CEO da English Education Ireland, Lorcan O’Connor Lloyd, atribuiu parte da queda nas permanências de adultos ao aumento do nível de fluência em inglês nos maiores mercados emissores de intercambistas e à maior sensibilidade a preços altos. Esta foi a explicação que mais me perturbou. O meu entendimento é que um consumidor que chega falando inglês melhor e observando o preço com mais rigor retira da escola a razão de vender cursos longos; além disso, a média de estadia na Irlanda, que caiu de 6,4 para 4,9 semanas entre 2024 e 2025.
Regras rígidas de imigração também causaram impacto. A Languages Canada vê as novas regras migratórias adotadas recentemente pelo país como a razão primordial da queda de alunos. Na Irlanda, o diretor da Erin afirmou à corte que os vistos negados aos seus alunos saltaram de 33 em 2023 para 456 em 2025.
Entre as grandes redes brasileiras de ensino de inglês não encontrei fechamento em massa, pelo menos ainda. Isso, porém, não me acalma. Há outro movimento em curso no setor. O CNA introduziu o CNA+ após adquirir uma especialista em programação e robótica e vender também cursos de Inteligência Artificial e de influência digital para criadores de conteúdo. Nas suas apresentações a investidores a Wizard tornou-se um “hub de negócios”. Soma-se o fato de que grandes franquias como Cel.lep, Seven e o próprio CNA já ofereçam os chamados Programas Bilíngues para escolas regulares de educação básica.
Suspeito que as escolas de inglês que estejam diversificando tanto assim o seu portefólio não acreditem mais que o modelo de estudar o idioma duas vezes por semana ainda sustente as suas operações lucrativamente. Pode ser apetite por crescimento, mas a conta tende a voltar ao dono da unidade franqueada, porque a diversificação pode requerer investimento adicional e nem todos conseguem arcar com isso. Dados mostram que os números de franchisings educacionais aumentou, mas cobrem todo o setor, sem separar as escolas de idiomas.
Há ainda o fator demográfico. A fatia da população em que os cursos de idiomas mais têm interesse é o de até 14 anos. Esta faixa etária encolheu 12,6% entre 2010 e 2022, segundo o IBGE. Não me chocaria ver mais cursos livres alvejando adultos e pessoas com mais de 60 anos de idade no Brasil como potenciais clientes.
O problema maior, para mim, é a falta de números. Há 10 anos, os programas bilíngues, as escolas bilíngues de fato e os colégios internacionais têm trazido mais inglês à educação privada brasileira. Ainda não consegui encontrar aferição nacional do quanto isso impacta os cursos livres de idiomas, mas o declínio é evidente.
O mesmo ocorre com a Inteligência Artificial. Já há aplicativos que falam com o aluno, ajustam e corrigem exercícios com uso de IA. O setor de certidão de fluência pulou para o digital. O Duolingo English Test, já é aceito por milhares de programas universitário e de imigração.
Também não encontrei dados públicos que relacionem esse conjunto de novidades no mercado com a continuidade dos alunos nos cursos de idiomas. É evidente, porém, que o aluno de hoje é diferente daquele de uma década atrás.
Só agora, aos quase 52 anos, é que percebo o quanto a minha vida esteve biograficamente envolvida com estes fenômenos histórios para o setor de ELT (English Language Teaching – ensino de língua inglesa). Fui eu mesmo professor na sede da EC English em Malta e na sua escola online, quase fui para a Irlanda trabalhar na Erin College.
Além desta experiência profissional tão significativa, tive a honra de ciceronear o saudoso Dr. David Graddol em Salvador em 2009 e fiz cursos com o Dr. David Crystal na Itália durante a pandemia. Os dois mais renomados linguistas britânicos cujos trabalhos influenciaram profundamente os maiores estudos sobre a língua inglesa e o seu papel como idioma global.
A forma de estudar inglês e de vender a sua aprendizagem tem mudado abruptamente. O que não mudará por pelo menos mais 50 anos é essa língua bárbara, híbrida e plebeia nascida na Inglaterra como o idioma universal, conforme apontaram os dois grandes mestres David.
Fonte: Folha Vitória