Estudo do IJSN mostra que 75,8% dos moradores de favelas são pretos ou pardos
O Espírito Santo tem uma população de quase 600 mil pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, e o retrato revela uma dimensão racial marcante da desigualdade territorial no Estado. Segundo levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), 75,81% dos moradores desses territórios são negros: 59,52% se declararam pardos e 16,29%, pretos. O dado integra o “Caderno Favelas e Comunidades Urbanas do Espírito Santo”, publicado pelo IJSN em maio de 2026 a partir de informações do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento identificou 516 favelas e comunidades urbanas no Espírito Santo, onde vivem 598.377 pessoas, o equivalente a 15,61% da população capixaba. O número coloca o Estado na nona posição entre as unidades da Federação em quantidade de moradores nesses territórios.
A concentração também é territorial: 71,3% das favelas e comunidades urbanas capixabas estão na Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), segundo o IJSN. O mapa revela, portanto, uma dupla dimensão da desigualdade: ela é social e também espacial.
Os dados do IJSN mostram também que a presença de favelas não pode ser tratada apenas como uma questão habitacional. O próprio estudo considera aspectos como infraestrutura, características dos domicílios, acesso a serviços públicos, mobilidade, conflitos socioambientais e exposição a áreas de risco.
O IBGE disponibiliza, para esses territórios, informações de abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de lixo, rendimento, escolaridade, trabalho, idade e características dos domicílios. Isso permite enxergar as favelas como territórios onde diferentes formas de desigualdade se sobrepõem, como a questão racial.
No conjunto da população brasileira residente em favelas e comunidades urbanas, 56,8% se declararam pardos e 16,1%, pretos, em 2022. No Espírito Santo, a participação dos pardos é ainda maior, enquanto a proporção de pretos também supera a observada nacionalmente.
Saneamento mostra outra face da desigualdade
Os dados nacionais do Censo mostram que o Espírito Santo apresenta indicadores de saneamento relativamente elevados quando comparado a outras unidades da Federação, mas isso não significa que a população residente nesses territórios esteja livre de problemas de infraestrutura. Entre os domicílios de favelas e comunidades urbanas do Estado, 84,9% tinham banheiro ou sanitário com esgotamento por rede geral ou pluvial ou por fossa séptica, segundo o IBGE. Na coleta de lixo, o Espírito Santo apresentava uma das maiores taxas do país: 98,6% dos domicílios eram atendidos por serviço de limpeza ou caçamba. Os números, porém, não eliminam outras dimensões da precariedade urbana, como drenagem, pavimentação, mobilidade, acesso a equipamentos públicos e exposição a riscos.
O instituto chama à atenção para o fato de que morar não significa apenas possuir uma casa. O direito à cidade envolve também acesso à saneamento, infraestrutura, transporte, serviços públicos, trabalho, lazer e condições adequadas de segurança e saúde.
O tamanho da população capixaba que vive nesses territórios dá a dimensão do desafio. São 598 mil pessoas, número equivalente a mais de uma em cada sete pessoas residentes no Estado. A concentração de 71,3% das favelas na Grande Vitória também impõe uma questão metropolitana: os municípios precisam tratar habitação, mobilidade, saneamento, saúde e prevenção de riscos de maneira integrada. Nesse sentido, também se faz necessária a participação direta do Executivo estadual.
O Censo 2022 mostra ainda que as populações residentes em favelas e comunidades urbanas são, em geral, mais jovens que o conjunto da população brasileira. A idade mediana nesses territórios era de 30 anos, contra 35 anos no país. Essa característica aumenta a importância de políticas públicas voltadas à educação, qualificação profissional, primeiro emprego, cultura, esporte e permanência dos jovens nos estudos. A falta de oportunidades nesses territórios pode transformar desigualdades de origem em desigualdades que se reproduzem entre gerações.
Outro aspecto tratado pelo estudo do IJSN é a exposição das favelas a riscos ambientais e climáticos. A localização de parte desses territórios em áreas sujeitas a deslizamentos, inundações ou próximas a unidades de conservação acrescenta uma camada ambiental à desigualdade social.
Eventos climáticos extremos
Em um cenário de eventos climáticos mais extremos, os moradores das áreas mais vulneráveis tendem a ser também os mais expostos aos impactos de enchentes, deslizamentos e ondas de calor. É preciso lembrar que todas as previsões climáticas dão conta de um evento extraordinário e de magnitude, o El Niño. O fenômeno já se faz presente, mas deve ganhar mais força nos próximos meses.
O Caderno do IJSN foi produzido justamente para subsidiar políticas públicas e ampliar o conhecimento desses territórios. O instituto ressalta a necessidade de monitoramento permanente dos indicadores para orientar ações mais efetivas. O desafio para os governos é transformar o mapa em políticas concretas.
Os números mostram também onde estão as comunidades, quem são os moradores e algumas das condições em que vivem. A questão que permanece aberta é quanto desses dados está efetivamente sendo incorporado ao planejamento das cidades, ou se faz presente nos planos de governo dos candidatos ao Palácio Anchieta.
Em um Estado onde mais de meio milhão de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas, discutir essas áreas significa discutir o próprio modelo de desenvolvimento das cidades. E o recorte racial do Censo deixa uma mensagem difícil de ignorar: a desigualdade urbana capixaba tem cor e está concentrada no território.
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Fonte: Século Diário