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A aprovação da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para o tratamento da apneia obstrutiva do sono em pessoas com obesidade trouxe uma discussão importante: o cirurgião-dentista pode prescrever esse medicamento?
A resposta exige mais cuidado do que um simples “sim” ou “não”. A legislação brasileira permite ao dentista prescrever medicamentos indicados em Odontologia. Como esses profissionais participam do diagnóstico e do tratamento da apneia do sono, existe respaldo para a prescrição dentro dessa área de atuação, desde que tenham capacitação e respeitem os limites legais e éticos.
O próprio Conselho Federal de Odontologia, porém, recomenda uma conduta responsável e acompanhamento multidisciplinar.
O que a tirzepatida pode mudar na apneia do sono
A apneia obstrutiva do sono provoca interrupções repetidas da respiração durante a noite. Além de ronco, cansaço e dificuldade de concentração, ela aumenta o risco de hipertensão, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde.
Nas pessoas com obesidade, a redução de peso pode diminuir o acúmulo de gordura ao redor das vias aéreas e melhorar a respiração durante o sono. É justamente nesse grupo que a tirzepatida demonstrou resultados muito expressivos.
O estudo SURMOUNT-OSA acompanhou 469 adultos com obesidade e apneia moderada ou grave por 52 semanas. Em comparação com o placebo, a tirzepatida promoveu grande redução do número de episódios de apneia e hipopneia por hora, além de favorecer perda de peso e melhora de outros indicadores de saúde. Os benefícios ocorreram tanto em pacientes que utilizavam pressão positiva nas vias aéreas, como o CPAP, quanto naqueles que não a utilizavam.
Trata-se, portanto, de uma excelente opção terapêutica para pacientes bem selecionados, especialmente quando obesidade e apneia aparecem juntas. Isso não significa, contudo, que o medicamento sirva para qualquer pessoa que ronca, que substitua automaticamente o CPAP ou que resolva todos os tipos de apneia. Alterações anatômicas das vias aéreas, por exemplo, podem exigir aparelhos intraorais, pressão positiva, cirurgia ou outras abordagens.
O desafio vai além da receita
O desafio vai além da receita. A tirzepatida é um medicamento sistêmico: seus efeitos atingem todo o organismo. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação, refluxo e dor abdominal estão entre as reações mais frequentes.
Também existem situações que exigem atenção especial, como sintomas compatíveis com pancreatite ou doença da vesícula, desidratação, alterações da glicemia e possíveis interações com outros tratamentos.
A dose precisa ser aumentada gradualmente, conforme a tolerância do paciente. Antes da prescrição, é necessário avaliar histórico clínico, medicamentos em uso, presença de diabetes, doenças gastrointestinais e outras condições relevantes. Também é preciso acompanhar a evolução, interpretar exames quando indicados e saber quando reduzir a dose, interromper o medicamento ou encaminhar o paciente.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas legal e passa a ser principalmente uma questão de segurança clínica. Ter autorização para prescrever não significa, necessariamente, possuir formação e experiência para manejar todas as possíveis complicações de um tratamento voltado à obesidade e ao metabolismo.
O cuidado compartilhado é a melhor escolha
A melhor escolha é o cuidado compartilhado. O dentista capacitado em sono tem papel essencial na identificação da apneia, na avaliação das estruturas da boca e da face e no tratamento com aparelhos intraorais. Entretanto, a obesidade é uma doença crônica, complexa e associada a diversas comorbidades.
Por isso, embora possa existir respaldo para a prescrição odontológica em situações específicas, a tirzepatida deve ser preferencialmente prescrita e acompanhada por médicos com experiência no manejo da obesidade, do diabetes e dos efeitos adversos desse tipo de medicamento, como endocrinologistas e outros profissionais devidamente capacitados.
Isso não diminui a importância do dentista. Ao contrário: reforça um modelo no qual dentistas, médicos do sono, endocrinologistas, nutricionistas e outros profissionais trabalham de forma coordenada. A tirzepatida representa um avanço extraordinário no manejo da apneia associada à obesidade, mas seu uso responsável começa por reconhecer que uma boa prescrição não termina na receita. Ela inclui diagnóstico correto, seleção cuidadosa, acompanhamento contínuo e capacidade para agir diante de complicações.
Fonte: Folha Vitória