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Saúde

Queda de cabelo após caneta emagrecedora? Estudo aponta risco relativo até 68% maior

Pesquisa publicada no BMJ encontrou associação com alopecia não cicatricial, mas o risco absoluto permaneceu baixo e a causa ainda não está esclarecida


Quando o peso diminui e, meses depois, mais fios começam a aparecer no ralo, na escova ou no travesseiro, a suspeita pode recair sobre a caneta emagrecedora. A relação não está restrita a relatos de pacientes: uma pesquisa recente encontrou maior ocorrência de queda de cabelo entre usuários de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.

O número que mais chama a atenção chega a 68%. Para compreender o risco, é necessário observar com quem os usuários foram comparados e quantos casos realmente apareceram.

O que o estudo encontrou

Publicado em julho de 2026 no periódico científico BMJ, o estudo analisou prontuários eletrônicos de adultos com diabetes tipo 2 atendidos pela Penn Medicine, nos Estados Unidos. Os pesquisadores acompanharam pessoas que começaram a usar medicamentos agonistas de GLP-1 entre janeiro de 2019 e setembro de 2024.

O grupo foi comparado a pacientes que iniciaram outros dois tipos de medicamento para diabetes. Em relação aos usuários de inibidores de SGLT-2, o risco relativo de alopecia foi 37% maior. Na comparação com os inibidores de DPP-4, a diferença chegou a 68%.

A porcentagem parece alta, mas o número absoluto de diagnósticos foi pequeno. Em uma das comparações, foram registrados 6,53 casos de alopecia para cada mil pessoas acompanhadas durante um ano entre os usuários de GLP-1, contra 3,89 no outro grupo.

Na prática, a diferença foi de aproximadamente três diagnósticos adicionais por mil pessoas ao ano. Os próprios pesquisadores classificaram o risco absoluto como baixo e identificaram a associação principalmente com formas de alopecia que não provocam cicatrizes no couro cabeludo.

Também é importante considerar que a pesquisa foi observacional. O resultado mostra uma associação, mas não comprova que o medicamento tenha agido diretamente sobre o folículo capilar. Além disso, os participantes tinham diabetes tipo 2, o que impede aplicar automaticamente as mesmas taxas a todas as pessoas que usam as canetas exclusivamente para tratar obesidade.

A causa pode estar na velocidade do emagrecimento

Uma das principais hipóteses é que parte da queda seja provocada pelo eflúvio telógeno. O problema acontece quando uma mudança importante no organismo faz com que muitos fios entrem antecipadamente na fase de repouso do ciclo capilar.

De acordo com a Academia Americana de Dermatologia, dermatologistas acreditam que o emagrecimento repentino observado durante o tratamento pode funcionar como esse gatilho. A queda geralmente não começa imediatamente: ela pode aparecer dois ou três meses depois da perda de peso mais intensa.

A redução do apetite também pode diminuir a ingestão de proteínas, vitaminas e minerais necessários ao crescimento dos fios. Isso não significa que o medicamento retire nutrientes do cabelo, mas que uma alimentação muito restritiva ou desequilibrada pode favorecer o problema.

Ainda não foi descartada uma possível ação direta dos medicamentos sobre o ciclo capilar. Por enquanto, os pesquisadores consideram que o efeito pode envolver uma combinação entre o tratamento, a velocidade do emagrecimento e as mudanças na alimentação.

Queda de cabelo também apareceu em testes dos medicamentos

A perda dos fios já havia sido registrada em estudos clínicos usados na avaliação de medicamentos para controle do peso. Nos testes com a dose de 2,4 mg de semaglutida, comercializada nos Estados Unidos como Wegovy, a queda de cabelo foi relatada por 3% dos participantes, contra 1% entre os que receberam placebo.

Nos estudos com tirzepatida sob o nome Zepbound, o problema apareceu em 4% a 5% dos participantes, dependendo da dose, e em 1% do grupo placebo. A bula norte-americana informa que as ocorrências estiveram associadas à redução de peso.

Entre as mulheres tratadas com tirzepatida, a frequência registrada foi de 7,1%, contra 0,5% entre os homens. Esses números vieram de estudos diferentes e não devem ser usados para concluir que um medicamento provoca mais queda do que outro.

Como é o eflúvio telógeno

O eflúvio telógeno costuma provocar uma queda espalhada pelo couro cabeludo, percebida principalmente durante o banho, ao pentear os fios ou sobre o travesseiro. Em geral, não forma uma falha redonda ou uma área completamente sem cabelo.

O couro cabeludo também tende a manter uma aparência saudável. Coceira intensa, descamação, feridas, ardência, dor ou falhas bem delimitadas podem indicar outro problema e precisam ser avaliadas por um dermatologista.

Quando o gatilho é controlado, a queda provocada pelo eflúvio telógeno geralmente diminui. O período de eliminação dos fios pode durar entre três e seis meses, enquanto a recuperação do volume leva mais tempo porque o cabelo precisa reiniciar seu ciclo de crescimento.

O que fazer se o cabelo começar a cair

A primeira orientação é não interromper a caneta nem alterar a dose por conta própria. A suspensão repentina pode prejudicar o tratamento do diabetes ou da obesidade, além de não resolver uma queda causada por outro fator.

O médico responsável deve avaliar a velocidade da perda de peso, os efeitos adversos e a necessidade de ajustar o tratamento. Um dermatologista pode identificar o tipo de queda e investigar condições como alterações da tireoide, anemia, deficiência nutricional ou formas hereditárias de alopecia.

O acompanhamento nutricional também ajuda a manter uma ingestão adequada de proteínas e outros nutrientes durante a redução do apetite. Suplementos de ferro, biotina, zinco ou vitaminas não devem ser tomados às cegas, pois a escolha depende da alimentação, dos sintomas e, em alguns casos, de exames.

Enquanto a causa é investigada, vale reduzir agressões aos fios, como penteados muito apertados, descolorações sucessivas e uso excessivo de ferramentas em temperaturas elevadas. Esses cuidados não tratam o eflúvio, mas evitam que a quebra aumente a impressão de perda de volume.

No Brasil, medicamentos agonistas de GLP-1 são vendidos com retenção de receita. O acompanhamento profissional é necessário tanto para monitorar a queda de cabelo quanto para reconhecer outros possíveis efeitos adversos durante o tratamento.

Folha Vitória

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