Maria Aparecida dos Santos cruzou a linha de chegada da Maratona de Vitória em 3h22min02s e conquistou o primeiro lugar entre as mulheres. O resultado chama atenção por outro detalhe: aos 42 anos, a baiana de Itabuna corre há 11 anos sem relógio para controlar o pace, nunca teve assessoria esportiva e também não faz acompanhamento com nutricionista. Desde que começou, é ela quem organiza os próprios treinos, alimentação e estratégias para as provas.
“Eu não corro de relógio. Eu acostumei a correr sem relógio, não controlo pace nem nada. Eu sei mais ou menos o pace pela experiência, desde que eu comecei”, conta.
Para Maria Aparecida, o ritmo foi deixando de ser um número acompanhado na tela e passou a ser uma percepção construída ao longo dos anos de corrida.
A história começou bem longe dos 42 quilômetros. Maria Aparecida diz que começou a correr depois de observar outras pessoas praticando e, cerca de seis meses depois, participou de uma prova amadora de 5 quilômetros. Sem assessoria e ainda no início da trajetória, conquistou o segundo lugar geral feminino e decidiu continuar.
Dos 5 quilômetros, passou para os 10. Depois vieram os 21 e, mais tarde, os 25 quilômetros, até que ela decidiu experimentar a maratona. Durante os primeiros anos, corria principalmente para participar das provas, mas há cerca de quatro anos passou a se dedicar mais ao esporte e, no ano passado, começou a direcionar a preparação para a competição.
A evolução também trouxe outros pódios. Em 2025, Maria Aparecida ficou em segundo lugar geral feminino na Maratona de Salvador. A vitória em Vitória, portanto, foi mais um capítulo de uma trajetória que começou com uma prova curta e foi ganhando distância e competitividade ao longo do tempo.
Uma maratona montada na experiência
Como nunca teve assessoria esportiva, Maria Aparecida define a própria rotina de treinamento. A semana costuma reunir um longão no fim de semana, um treino de intensidade ou velocidade, uma rodagem de 5 ou 6 quilômetros e sessões de fartlek, alternando ritmos durante a corrida.
A quilometragem também acompanha a fase da preparação. Em uma semana, ela pode correr cerca de 25 quilômetros. Em outras, chega a 50 ou 80. Quando está em ciclo específico para uma maratona, o volume pode alcançar 100 quilômetros semanais.
Isso não significa, porém, que ela corra sempre sozinha. Em Itabuna, Maria Aparecida também participa dos treinos do grupo Nova Geração, formado por pessoas que se reúnem para correr. O grupo foi criado por um amigo que praticava capoeira e começou a correr durante a pandemia. Para ela, além da companhia nos treinos, a iniciativa ajuda quem quer emagrecer e deixar o sedentarismo.
“Eu tenho um grupo de Itabuna, o Nova Geração, que é de um amigo. Ele sempre treina com a gente e todo mundo vai se ajudando. Quando dá, treino com eles”, frisa.
A experiência acumulada também orienta o que ela leva para os treinos e para as provas. Nas corridas curtas, Maria Aparecida não costuma fazer reposição. Quando a distância aumenta, porém, utiliza fontes de carboidrato, como gel, mel e rapadura, e também recorre ao sal para repor sódio, um dos principais eletrólitos perdidos no suor.
“Eu uso carbo gel para longas distâncias, mel, rapadura ou cápsula de sal, ou então eu coloco mel com sal grosso moído”, explica a corredora.
Na Maratona de Vitória, ela levou gel de carboidrato, mas acabou não usando. Durante a prova, preferiu consumir rapadura e mel e, por volta do quilômetro 35, utilizou uma cápsula de sal.
A alimentação segue a mesma lógica dos treinos: Maria Aparecida foi descobrindo, ao longo dos anos, o que funciona para o próprio corpo. Ela não faz acompanhamento com nutricionista e diz que aprende com outros corredores e também com conteúdos publicados na imprensa sobre alimentação, hidratação e esporte.
“Eu não faço acompanhamento com nutricionista, mas aprendo muito com os amigos e vou adequando para o meu jeito de fazer e usar”, conta.
A relação com os alimentos também vem da infância. “Eu cresci na zona, meu paladar já é voltado para essa alimentação”, afirma. Por isso, prefere alimentos que já fazem parte da rotina e diz não se adaptar bem aos suplementos comprados.
Nos treinos, prepara bebidas com beterraba ou combinações de limão, abacaxi, hortelã, mel e sal. Para as maratonas, começa a reforçar a alimentação com carboidratos antes da prova e aumenta as porções de alimentos como inhame, batata-doce, feijão-preto, arroz e cuscuz.
Na noite anterior à corrida, a escolha costuma ser macarrão simples com alho e óleo e proteína, sem molho e sem queijo. Ela também costuma correr em jejum. A hidratação começa antes da prova, com aumento da ingestão de líquidos nos dias anteriores, principalmente porque, segundo ela, tem dificuldade para beber água.
O tênis que acompanha os treinos
Para correr, Maria Aparecida também tem uma escolha que leva tanto para os treinos curtos quanto para os longos. O modelo usado por ela é o Corre 3, da Olympikus, que ela considera confortável, leve e com bom desempenho para diferentes distâncias.
Segundo a atleta, outro ponto positivo é o preço mais acessível em comparação com outros modelos voltados para corrida. Para ela, o mesmo tênis atende desde os treinos mais curtos até a preparação e participação em uma maratona.
A prova que virou festa de aniversário
Toda essa preparação ganhou um significado especial em Vitória porque Maria Aparecida decidiu abrir mão da tradicional festa de aniversário para comemorar os 42 anos correndo uma maratona. O presente veio no fim dos 42 quilômetros, com o título feminino da prova.
“Eu não quis festa, pois minha festa é aqui em Vitória e me sinto privilegiada por ser campeã da prova”, declarou emocionada.
Foi também a primeira vez que ela correu a Maratona de Vitória. O percurso agradou pela predominância de trechos planos, que ela estima representar cerca de 85% da prova, além da pouca elevação.
“O percurso é muito bonito, as paisagens sensacionais. Apesar da concentração, você não consegue observar muito, mas é muito bonito”, afirma.
A atleta também aprovou a sinalização e a hidratação ao longo do percurso. O horário da largada, segundo ela, ajudou a poupar os corredores do sol mais forte. A temperatura começou a ser mais percebida depois dos quilômetros 34 e 35, quando o esforço acumulado também aumenta a sensação de calor.
É nessa parte da maratona que, para Maria Aparecida, o corpo deixa de ser o único desafio. Depois dos 35 quilômetros, ela diz que é preciso trabalhar a mente para continuar até a chegada. “A mente começa a falar que ainda tem 7k e parece que nunca passa”, relata.
Ela saiu do sedentarismo e hoje corre 42k
Mãe de dois filhos, uma mulher de 25 anos e um homem de 22, Maria Aparecida conta que recebe o apoio dos dois e que eles a acompanham nas provas quando conseguem. A corrida também acabou se tornando uma atividade que ela procura incentivar dentro da família.
Para quem quer sair do sedentarismo, a orientação da atleta é começar pela caminhada e não tentar acelerar o processo. Ela recomenda alternar caminhada e trote, observar como o corpo responde e aumentar o tempo de corrida gradualmente, sempre mantendo períodos de descanso.
“Melhor dica para sair do sedentarismo é começar caminhando, um dia sim, um dia não. Vai intercalando para ver musculatura como está, articulação, aí você começa a alimentação balanceada. Não precisa de tudo de uma vez, vai aos poucos.”
Foi assim, aos poucos, que ela saiu de uma prova amadora de 5 quilômetros para as maratonas. Há 11 anos, Maria Aparecida começou a correr sem imaginar que chegaria ao pódio de uma prova de 42 quilômetros. Em Vitória, aos 42 anos, transformou a própria maratona em festa de aniversário e terminou a comemoração como campeã.
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