*Artigo escrito por Matheus Magalhães, analista de mercado do agronegócio
Há momentos em que a política internacional parece uma arquibancada. Polarização de ambos os lados medindo forças no tabuleiro global. No meio, países pressionados a escolher uma camisa, aprender o hino e torcer com convicção. Para o Brasil, essa lógica é pouco útil.
China e Estados Unidos, por exemplo, ocupam lugares diferentes, mas igualmente relevantes em nossa economia.
A China é o maior parceiro comercial brasileiro desde 2009 e, no acumulado até julho de 2025, recebeu aproximadamente 30% das exportações do país. É um mercado decisivo para soja, minério de ferro, petróleo, carnes, celulose e outros produtos que sustentam boa parte do superávit comercial brasileiro.
Os Estados Unidos, por sua vez, têm grande importância para as exportações brasileiras de produtos industrializados e de maior valor agregado. Também mantêm relações profundas com o Brasil nas áreas de serviços, tecnologia, finanças, energia, pesquisa e investimentos.
Isso significa que tratar a relação com um dos países como substituta da relação com o outro seria um erro econômico. A China compra grande parte daquilo que o Brasil produz em escala.
Os Estados Unidos têm peso em setores nos quais o país busca tecnologia, investimento, produtividade e maior sofisticação industrial.
O desafio ficou mais delicado com o avanço das disputas comerciais. Tarifas, restrições tecnológicas, sanções e políticas de incentivo industrial passaram a fazer parte do cotidiano das grandes potências.
Em 2025, as exportações brasileiras para os Estados Unidos já sentiram os efeitos do aumento das tarifas, com redução de US$ 2,7 bilhões, segundo análise do Banco Central. No primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras ao mercado norte-americano recuaram 13% na comparação anual.
Nesse ambiente, o Brasil precisa evitar dois impulsos igualmente perigosos: o alinhamento automático e a hostilidade automática.
Ter boas relações com a China não exige repetir todas as suas posições. Preservar uma parceria histórica com os Estados Unidos não obriga o país a concordar com cada decisão tomada em Washington.
Diplomacia não é amizade pessoal, tampouco declaração de torcida. É a capacidade de defender interesses nacionais diante de governos que também defendem os próprios.
O pragmatismo brasileiro deve começar pela diversificação. Quanto mais mercados o país tiver, menor será sua vulnerabilidade a uma tarifa, uma crise diplomática ou uma desaceleração econômica. Isso vale para o agronegócio, mas também para indústria, energia, tecnologia, serviços e infraestrutura.
Também precisamos qualificar nossa pauta comercial. Exportar grandes volumes é importante, mas não basta.
O Brasil precisa negociar acesso a mercados, atrair investimentos que gerem tecnologia, agregar valor aos produtos e fortalecer empresas capazes de competir internacionalmente.
Em um mundo dividido, talvez a maior vantagem brasileira seja justamente não caber perfeitamente em nenhum dos lados. Temos alimentos, energia, minerais estratégicos, capacidade industrial, biodiversidade e relações diplomáticas com diferentes blocos.
Essa posição, porém, só será uma força se houver estratégia. O Brasil não precisa escolher uma potência para chamar de sua. Precisa aprender a conversar com todas sem deixar que nenhuma escolha por ele. E quem sabe, assim, poder trilhar o caminho até se tornar sua própria potência.
Folha Vitoria