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*Artigo escrito porElimar Fardin Lorenzon, Analista de Planejamento Estratégico na Portocel e Presidente do IBEF Academy.
Estima-se que a Netflix levou três anos e meio para atingir o patamar de um milhão de usuários. O Twitter levou dois anos. O Facebook, dez meses. Spotify, cinco meses. Instagram, dois meses e meio. O ChatGPT atingiu essa marca em apenas cinco dias.
A inteligência artificial (IA) é um fenômeno. De um lado, a facilidade e produtividade são potencializados com alguns cliques. Do outro, a ameaça ao pensamento crítico, as decisões profissionais terceirizadas para a tecnologia e estudantes dependentes de IA. Diante de tantos benefícios proporcionados pela tecnologia, resta uma pergunta inevitável: estamos realmente conscientes do preço que ela poderá cobrar?
Poucos países vivem as redes sociais com tanta intensidade quanto o Brasil. Somos digitais: isso é um fato. Mas qual é a qualidade e o impacto dessa conexão? Segundo o Relatório Digital 2025, os brasileiros passam, em média, três horas e trinta e dois minutos por dia em redes sociais.
O índice coloca o país em primeiro lugar no ranking mundial de tempo gasto nessas plataformas. Estar conectado, aqui, não necessariamente é sinônimo evolução. Muitas vezes, trata-se apenas de consumo de conteúdo inútil.
Muito além da simples presença online, uma preocupação legítima são as consequências cognitivas do uso excessivo da tecnologia. E o cerne da questão vai muito além da privacidade de dados, do consumo energético ou da disseminação de desinformações. O problema central está no processo silencioso de terceirização da capacidade intelectual.
Para quaisquer dúvidas, abre-se o ChatGPT ou outra IA qualquer, confirma-se a informação e pronto: o esforço mental é dispensado. Inclusive, já existe um conceito da psicologia cognitiva que explica essa transferência do esforço mental para ferramentas externas: o cognitive offloading.
A princípio, isso pode parecer apenas um benefício. É inegável que a tecnologia torna a vida mais fácil e prática. Contudo, quando se terceiriza o raciocínio, o que acontece não é apenas a liberação da mente para outras atividades, o que é uma consequência positiva.
Paralelamente, deixa-se de fazer parte da construção do conhecimento e do uso do raciocínio lógico.Parece tentador ficar horas navegando nas redes sociais, ou digitalizar todo esforço da rotina de relatórios de trabalho. Novamente, é preciso esclarecer: há benefícios em tudo isso. O erro está em ignorar as consequências da substituição do esforço intelectual.
A mesma tecnologia que nos potencializa também nos enfraquece como seres humanos. Se temos GPS, não precisamos memorizar rotas e localizações. Se podemos perguntar à IA, não precisamos saber ou deduzir. Se a tecnologia resume, calcula, conecta e produz, basta apenas digitar um prompt e esperar respostas prontas.
A verdade é que a tecnologia reduz sacrifícios. E aqui reside um risco: ela impacta diretamente a temperança, uma das virtudes cardeais, conforme sistematizadas pelo filósofoPlatão, na sua obra A República. A incapacidade de resistir às tentações de uma “vida pronta”, sem esforço ou disciplina, cobra um preço alto: a estagnação intelectual e moral.
Vale lembrar que as virtudes cardeais são consideradas, por diversos filósofos, a base da vida moral. Segundo estudiosos contemporâneos, como o brasileiro Guilherme Freire, são justamente essas virtudes que moldam indivíduos fortes, responsáveis e capazes de liderar. Sem elas, o ser humano torna-se cada vez mais vulnerável à mediocridade e à dependência.
Paralelamente, vale refletir sobre aquilo que difere o homo sapiens sapiens das demais espécies: sua consciência reflexiva.Aparentemente, a inteligência artificial tem permitido transferir essa responsabilidade para máquinas. O risco é a formação de uma geração que já não processa, questiona ou constrói ideias; apenas digita, copia e cola.
Além disso, o livro Sapiens, de Yuval Harari, atribui à espécie humana a capacidade exclusiva de criar narrativas e imaginar. Evidentemente, a IA não imagina no sentido humano da palavra. Ainda assim, sua capacidade generativa permite cruzar milhões de dados e produzir conteúdos inéditos em segundos. Diante disso, surge uma provocação inevitável: estaria a humanidade abrindo mão daquilo que a tornava única?
Outro ponto preocupante é o avanço da IA sobre dimensões cada vez mais íntimas da vida humana. Hoje, muitas pessoas já utilizam ferramentas de inteligência artificial como terapeutas, conselheiros emocionais ou companhias virtuais.
Além de gerar conteúdo, a IA consegue ouvir, reproduzir voz, reconhecer imagens, identificar padrões e até interagir de maneira emocionalmente convincente. O próximo passo talvez seja justamente o mais perigoso: a criação de vínculos afetivos artificiais. E isso já começou. Há casos documentados de pessoas que desenvolveram relações emocionais profundas, e até paixões, por inteligências artificiais.
Dessa forma, vale ressaltar que a crítica não é em relação às inovações e às melhorias advindas da tecnologia. O alerta é outro: o risco de ativar o “piloto automático” e tornar o ser humano um mero subproduto da tecnologia criada A conveniência não pode substituir a consciência. Exige-se esforço, disciplina e responsabilidade contínua para que não abandonemos nossas virtudes nem nos entreguemos à tentação de deixar de pensar por conta própria.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
Fonte: Folha Vitoria