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*Artigo escrito por Bernardo Azevedo Freire, Advogado, Sócio do escritório Paris, Guerzet & Azevedo Advogados e Líder do Comitê Qualificado de Conteúdo de GRC do IBEF-ES.
Como advogado, passo por muitas situações em que preciso ajudar a resolver conflitos complexos. Certa noite, lendo um livro para minha filha (“O Urso Rabugento”, de Nick Bland), como sempre fazemos, encontrei numa história simples uma lição que os adultos pouco praticam – especialmente em cenários de conflito.
Era mais ou menos assim. Um urso rabugento dormia em sua caverna quando uma chuva forte empurrou para dentro dela três amigos – um leão, uma zebra e uma ovelha. O urso acordou, rugiu e os expulsou dali. Do lado de fora, os três tentaram entender por que ele estava tão bravo.
A zebra concluiu que, sem suas listras, ela também ficaria mal-humorada; o leão, que sem sua juba estaria igualmente irritado. Decidiram, então, pintar o urso e lhe dar uma juba. Sem surpresa, ele ficou ainda mais furioso. Quem resolveu foi a ovelha. Achando que nada tinha a oferecer, apenas observou o urso, tosquiou a própria lã e fez um travesseiro. Surpreendido por tamanha gentileza, o urso enfim os deixou se abrigar na caverna.
O erro do leão e da zebra, ainda que bem-intencionado, é comum: eles acharam que já sabiam de tudo e leram o urso pela “própria régua” deles. Presumiram que o urso só poderia querer o mesmo que eles. Deram, com sinceridade, aquilo que julgavam ter de melhor – e o diagnóstico não poderia estar mais distante da realidade.
Muitas vezes, diante de um conflito, em vez de investigarmos o que o outro sabe e nós não, presumimos já saber tudo o que é preciso para entendê-lo, saber suas necessidades e objetivos.
A lição é ainda mais relevante nas empresas familiares, em que a racionalidade dos negócios se mistura, inevitavelmente, ao afeto, às emoções e a décadas de história compartilhada.
Já vi conflitos nascerem do sócio que quer crescer a qualquer custo e presume que todos os outros só podem querer o mesmo. Ou do sócio que toca a operação em oposição ao que não a vivencia, discutindo quanto reinvestir e quanto distribuir a título de lucro – cada um certo de saber o que o negócio, e o outro, precisam.
Nesses momentos, é preciso humildade para investigar o que o outro sabe – e eu não – e o que ele de fato busca. A ovelha não resolveu o conflito por ter mais a oferecer; resolveu porque se dispôs a ouvir – e ouvir de verdade.
Quase sempre, a chave não está na pergunta “o que eu faria no lugar dele?”, mas nesta: o que será que ele, de fato, busca – e que eu ainda não parei para perguntar?
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
Fonte: Folha Vitoria