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Aquele abraço que vale votos – e vírus

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O gesto político comum no período eleitoral expõe cidadãos e candidatos a riscos de saúde

A campanha eleitoral começa oficialmente neste domingo (16), abrindo uma nova fase da disputa pelo Governo do Estado. Os candidatos passam a poder pedir votos oficialmente, já com os números, e realizar atos típicos de campanha, como comícios, caminhadas, passeatas e carreatas, além de intensificar a propaganda na internet e a distribuição de material eleitoral, dentro das regras da Justiça Eleitoral. A data encerra a fase da pré-campanha, na qual havia restrições ao pedido explícito de voto, e inaugura a disputa formal pela preferência do eleitorado.

Está aberta também a temporada dos beijos e abraços, das caminhadas de políticos pelas feiras atrás da atenção do eleitor. O abraço político é uma invenção calculada, moldada pela história e pela necessidade de proximidade entre líderes e povo. Mas essa prática nem sempre foi assim. No século XIX, quando o voto era restrito às elites, políticos mantinham distância cerimonial, como se o contato físico fosse uma quebra de decoro.

Com a expansão do sufrágio e o populismo, líderes como Getúlio Vargas no Brasil e Juan Domingo Perón na Argentina perceberam que abraçar e beijar o povo era uma forma de materializar proteção e pertencimento. Vargas se autoproclamava “Pai dos Pobres” e abraçava operários, enquanto Evita Perón transformava o beijo em ato político, ignorando normas de higiene da elite para provar sua entrega ao povo.

Nos anos 1960, com a televisão, o abraço virou espetáculo. Beijar bebês e abraçar idosos passou a ser imagem obrigatória para transmitir bondade em segundos de horário eleitoral. O gesto tornou-se um atalho emocional mais eficaz do que longos discursos programáticos.

Capixabas também apostaram e apostam na proximidade do corpo a corpo. Nesse momento, onde buscam serem reconhecidos e firmarem suas imagens para os eleitores, o abraço tem papel crucial. A intensificação do contato físico nas campanhas, buscando ampliar a base popular une direita, centro e esquerda. O abraço passou a fazer parte da identidade política capixaba.

O ex-governador Paulo Hartung, por exemplo, usou o abraço como marca de proximidade. Na campanha para governador, em 2014, lançou o slogan “Abrace o Paulo”, reforçando a ideia de que estava ao lado do povo, acessível e humano. O jingle e as peças publicitárias mostravam o ex-governador abraçando pessoas nas ruas, numa tentativa de transmitir proximidade e calor humano em contraste com a imagem de político mais técnico e distante.

A força simbólica do abraço é tão grande que o próprio Gilberto Gil, em sua canção “Aquele abraço”, transformou o gesto em hino de afeto e celebração. A música, lançada em 1969, tornou-se um símbolo de resistência e proximidade, saudando o povo do Rio de Janeiro e, por extensão, todos os brasileiros. O refrão “Aquele abraço” virou expressão de acolhimento e alegria, mostrando que o gesto é capaz de unir multidões, seja em palanques ou em palcos. Claro que o abraço, que já era simbólico nas campanhas eleitorais, ganhou na música de Gil uma dimensão cultural e política. Ele se torna metáfora de união nacional, resistência contra a repressão e saudação coletiva. Assim como políticos usam o gesto para criar empatia, Gil usou o abraço para se despedir do Brasil e, ao mesmo tempo, reafirmar sua ligação com o povo, após ser preso e seguir para o exílio em Londres. Gil definiu a música como uma catarse: um desabafo transformado em samba alegre. Ao sair da prisão na Quarta-feira de Cinzas de 1969, viu o Rio ainda decorado para o Carnaval e usou essa atmosfera como pano de fundo da canção. O contraste entre dor e festa reforçou o tom de celebração e resistência.

Em 2012, Caetano Veloso, para não sair da Bahia, lançou um álbum chamado “Abraçaço”. O disco foi visto pela crítica especializada como uma combinação de afeto, política e experimentação sonora. O “abraçaço” pode ser interpretado, ao mesmo tempo, como um gesto íntimo e coletivo, uma metáfora de resistência e acolhimento.

O risco para a saúde

No entanto, esse corpo a corpo, além de ser ferramenta de marketing, expõe candidatos a riscos de saúde. A epidemiologista Ethel Maciel, da Ufes, alerta: “Se a pessoa tiver alguma infecção respiratória, pode transmitir para outra. O risco aumenta em aglomerações, quando há contato físico intenso.” Ela reforça que estamos no período do inverno e com uma circulação atípica de vírus respiratórios. Além do distanciamento, a outra saída é o uso de álcool em gel. Fica a dica importante para os políticos e para os eleitores.

O perigo é real, sobretudo para crianças e bebês. O beijo pode transmitir herpes neonatal, que em recém-nascidos causa encefalite e até morte. Vírus como o sincicial respiratório e a influenza, leves em adultos, podem levar bebês à UTI. Há ainda a mononucleose, a candidíase oral e bactérias como o Streptococcus pneumonia e a Bordetella pertussis, que provocam meningite, pneumonia e coqueluche. Até beijar pezinhos é arriscado, já que os pequenos levam tudo à boca.

Para os candidatos, abraçar multidões os transforma em “superpropagadores”: germes passam de pessoa em pessoa, aumentando o risco de infecções respiratórias e gastrointestinais.

Além da saúde, há o aspecto ético. A Sociedade Brasileira de Pediatria lembra que expor crianças em campanhas eleitorais viola o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Psicólogos reforçam que obrigar crianças a abraçar ou beijar estranhos fere seu direito de consentimento. Afinal, se adultos já ficam desconfortáveis com abraços forçados em festas de família, por que crianças deveriam aceitar o mesmo de candidatos em busca de votos?

Comunicação visual e redes sociais

Em campanhas modernas, o abraço físico nas ruas é feito sob medida para gerar conteúdo digital. Um estudo publicado na EPJ Data Science analisando a comunicação visual de candidatos presidenciais no Instagram identificou que imagens que retratam atividades em grupo e momentos celebratórios com o eleitorado são fundamentais no engajamento.

Quando o eleitor vê fotos ou vídeos do candidato abraçando calorosamente outras pessoas, o cérebro processa o político como alguém acessível, estimulando um sentimento de proximidade e identificação mesmo em quem está assistindo à cena de longe, pela tela do celular. Esse fenômeno é chamado de relação parassocial, e explica por que o abraço é tão eficaz, mesmo para quem nunca esteve fisicamente perto do candidato.

O abraço político é tão estratégico que chega a ser engraçado: o eleitor muitas vezes não lembra da proposta para a economia, para a saúde, para a educação. Mas nunca esquece do candidato que o abraçou na feira. É como se o voto fosse decidido não pelo plano de governo, mas pelo calor humano. O problema é que, junto com o afeto, pode vir também um resfriado, uma bronquiolite ou, no mínimo, a necessidade urgente de álcool em gel.

Proibido abraçar

Em muitos países, o gesto de abraçar, tão comum e caloroso aqui no Brasil, pode ser interpretado como desrespeito, invasão de privacidade e até crime. A diferença cultural no modo de expressar afeto transforma o abraço em um ato arriscado em sociedades que valorizam distância física, formalidade ou seguem códigos religiosos rígidos.

No Japão, por exemplo, abraçar alguém fora do círculo íntimo é considerado inadequado. A etiqueta local privilegia a reverência como forma de cumprimento. Um abraço pode ser visto como invasão de espaço pessoal, gerando desconforto social. Não há punição legal, mas o gesto é considerado uma afronta, uma falta de respeito.

Já nos Emirados Árabes Unidos, a questão vai muito além da etiqueta. Demonstrações públicas de afeto são reguladas por lei. Abraços entre pessoas não casadas podem ser enquadrados como “atos indecentes”. As punições variam de multas à prisão de até seis meses, além da possibilidade de deportação de estrangeiros. A regra vale para o Qatar e para o Kuwait também, onde abraços públicos podem ser tratados como violação da moral pública.

Na Arábia Saudita, a legislação baseada na sharia é ainda mais rígida. Abraços e beijos em público, especialmente entre não casados, são considerados contrários às normas de decência. As punições incluem prisão, multas e até castigos corporais. O gesto, que por aqui é símbolo de afeto, lá é interpretado como transgressão grave.

Na Alemanha, embora não haja proibição legal, abraços efusivos em público podem ser vistos como invasivos. A cultura local valoriza maior distância social, e o gesto pode ser interpretado como quebra de etiqueta. O resultado é desconforto e percepção de falta de educação.

No dito popular, quem abraça demais não aperta nada. O complicado é receber um abraço de afogado. Ou aquele abraço de urso. Vale a dica para os políticos não tentarem abraçar o mundo com as pernas, para que, ao fim e ao cabo, recebam aquele abraço partido dos eleitores.

O calendário prevê também o início da propaganda gratuita no rádio e na televisão em 28 de agosto. A partir de então, a corrida rumo ao Executivo estadual ganha maior exposição e entra na etapa mais intensa de confronto entre candidaturas, propostas e estratégias. Todos tentando mostrar as diferenças entre os programas de Governo e convencer o eleitor a depositar o voto de confiança.

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