A assinatura do acordo entre a NOVA ES e a Amcham, marcada para esta segunda-feira, 3 de agosto, transforma parceria institucional em movimento estratégico. O Espírito Santo precisa ampliar sua presença nos ambientes onde empresas e autoridades dos EUA discutem comércio e investimentos. Com tarifas e sobretaxas que reduzem a competitividade brasileira, criar um canal permanente com a maior economia do mundo pode colocar o Estado fora da curva na defesa de seus produtos. E, do mesmo modo, na busca por novos negócios.
O grau de exposição explica a urgência. Os Estados Unidos receberam 27% das exportações capixabas em 2025, o equivalente a US$ 2,8 bilhões (R$ 14,2 bilhões). No primeiro semestre de 2026, o Estado vendeu quase US$ 1,4 bilhão (R$ 7,1 bilhões) ao mercado americano, mas registrou queda de 17,2% sobre o mesmo período do ano anterior.
Mais de 500 produtos capixabas sofrem ao menos uma das novas tarifas, enquanto mais de 480 itens podem enfrentar uma sobretaxa combinada de 37,5%. A lista atinge granitos, mármores e outras rochas naturais, além de pescados, ovos e chocolates. O aço, que respondeu por cerca de 30% das vendas capixabas aos Estados Unidos em 2025, continua sujeito à tarifa setorial de 50%.
Articulação precisa atravessar fronteiras
Nesse cenário, a Amcham pode funcionar como uma ponte para além da diplomacia tradicional. A entidade reúne empresas brasileiras e americanas, bem como conhece os canais de decisão empresarial. Do mesmo modo, pode ajudar o Espírito Santo a identificar importadores, distribuidores e indústrias dos Estados Unidos também prejudicados pelo encarecimento dos insumos brasileiros.
A defesa mais eficiente não parte apenas de quem perde mercado no Brasil. Ganha peso quando compradores americanos demonstram que a tarifa eleva custos, reduz oferta e prejudica cadeias produtivas dentro dos próprios EUA. O governo americano mantém aberta a possibilidade de novas negociações, embora não exista garantia de revisão das medidas.
A parceria também pode avançar por uma segunda frente: transformar a crise comercial em agenda de investimentos. Ou seja, do limão, uma limonada. Fóruns empresariais, roadshows, missões, reuniões com fundos e encontros com multinacionais podem apresentar projetos capixabas nas áreas de energia, logística, indústria, alimentos, química e infraestrutura.
Além disso, a NOVA ES e a Amcham podem aproximar empresas interessadas em joint ventures, instalação de unidades produtivas, contratos de longo prazo e acesso a fornecedores. A lógica consiste em preservar exportações, mas também criar relações econômicas mais profundas, menos dependentes da simples venda de produtos através dos portos.
O papel do setor produtivo
A política comercial permanece nas mãos do governo dos Estados Unidos, e as negociações formais dependem do governo brasileiro. Fato. Porém, o setor produtivo pode e deve ser um agente ativo para virar o jogo. Mas com inteligência. A parceria terá de definir setores prioritários, reunir dados sobre empregos e investimentos ameaçados, demonstrar os efeitos das tarifas sobre consumidores americanos. E, do memso modo, atuar de forma coordenada com Findes, CNI, ApexBrasil, SelectUSA e empresas importadoras.
Sem projetos concretos e uma agenda executiva, o memorando corre o risco de se limitar a eventos, fotografias e manifestações de boa vontade. Isso é muito pouco ou quase nada.
O teste começará depois da assinatura. O Espírito Santo deverá acompanhar quantas empresas americanas entraram no radar, quantos projetos chegaram à fase de negociação e quais setores conquistaram novos compradores. Bem como se a articulação ajudou a obter exceções ou revisões tarifárias.
Folha Vitoria