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Economia

O fracasso não é ignorância, é escolha institucional

No debate público, é comum atribuir o fracasso das nações à ignorância de seus governantes. A hipótese parece intuitiva


Foto: Magnific

*Artigoescrito porGuilherme Silva Machado,Analista de Dados daGlobalsys e Membro do IBEF Academy.

No debate público, é comum atribuir o fracasso das nações à ignorância de seus governantes. A hipótese parece intuitiva: políticas ruins seriam fruto de desconhecimento técnico ou incapacidade administrativa. Mas isso não explica por que países com décadas de assessoria técnica internacional, do FMI, do Banco Mundial e de universidades de elite, seguem na estagnação.

O problema raramente é a falta de diagnóstico. É falta de incentivo para mudar. A resposta mais consistente aponta para o desenho institucional. O subdesenvolvimento raramente é acidente e costuma ser consequência de estruturas criadas para concentrar poder e riqueza.

No livro “Por Que as Nações Fracassam”, Daron Acemoglu e James Robinson demonstram como instituições políticas concentradas geram instituições econômicas extrativistas. O exemplo da República Democrática do Congo é emblemático.

O país abriga algumas das maiores reservas minerais do mundo, entre cobalto, coltan, ouro e diamante, mas figura entre as nações de menor desenvolvimento humano no índice do PNUD. Desde o período colonial até os regimes pós-independência, a lógica predominante foi a extração de recursos em benefício de elites restritas.

Não faltavam diagnósticos sobre como proteger direitos de propriedade ou estimular o empreendedorismo; faltavam incentivos políticos para alterar a estrutura de poder. Quando a prosperidade ampla ameaça quem governa, ela tende a ser bloqueada.

É fundamental distinguir erro técnico de estrutura extrativista. Governos cometem equívocos. Em sistemas com alternância de poder, liberdade econômica e responsabilidade institucional, esses erros tendem a ser corrigidos, o que Douglass North chamou de capacidade adaptativa das instituições. Já em sistemas extrativistas, o fracasso é funcional. Ele preserva privilégios e restringe o acesso às oportunidades.

A trajetória da Coreia do Sul ajuda a compreender essa diferença. Após a Guerra da Coreia, o país tinha renda per capita inferior à de muitos países africanos. Nas décadas seguintes, promoveu reformas que fortaleceram direitos de propriedade, ampliaram o acesso à educação e integraram a economia ao comércio internacional.

Com o tempo, houve transição para um regime democrático estável, consolidando instituições políticas mais inclusivas. O resultado foi uma das trajetórias de crescimento mais expressivas do século XX. Em menos de cinquenta anos, o país saiu de economia de subsistência para potência industrial, com renda per capita que hoje supera a de diversas nações europeias.

O contraste entre Congo e Coreia do Sul indica que o problema central não é ignorância administrativa, mas incentivos estruturais. Onde o poder é concentrado sem mecanismos de controle, a economia tende a servir aos poucos. Onde há segurança jurídica, abertura econômica e evolução institucional, a atividade produtiva se expande de forma mais ampla.

A pergunta decisiva, então, não é se os governantes sabem o que fazer, mas que tipo de regras orientam suas decisões. Quando a política incentiva o livre mercado, protege a propriedade privada e reforça a responsabilidade individual, os incentivos passam a favorecer investimento, inovação e crescimento sustentável.

Enquanto as instituições continuarem estruturadas para proteger privilégios, em vez de ampliar oportunidades, a estagnação será racional para quem governa. O fracasso, nesses casos, não é incompetência.

É resultado previsível de regras que recompensam a concentração e desestimulam a inclusão. Reconhecer isso não é exercício acadêmico. É o primeiro passo para exigir reformas que mudem os incentivos, e não apenas as pessoas no poder.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.

Folha Vitoria

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