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Cristiano Ronaldo conseguiria ganhar a Copa do Mundo com essa dieta?

A dieta revelada pelo ex-chef de Cristiano Ronaldo impressiona, mas os números não fecham para um atleta de elite. Entenda por que o carboidrato é inegociável no futebol de alto rendimen

Por Redação em 20/05/2026 às 05:00:17
Imagem: Reprodução/Instagram

Imagem: Reprodução/Instagram

O ex-chef de Cristiano Ronaldo resolveu abrir o jogo. Em entrevista recente, ele detalhou o que coloca no prato de um dos maiores atletas do planeta: sem laticínios, sem farinha, sem pão, sem macarrão, pouquíssimo carboidrato. Café da manhã à base de ovos e abacate, almoço com frango ou peixe e vegetais, jantar com carne ou peixe e mais legumes.

À primeira vista parece rigoroso, disciplinado, impecável. Mas como nutricionista, olhei para essa dieta e fiz uma pergunta bem direta: isso fecha a conta para quem vai disputar uma Copa do Mundo?

A resposta curta é: não.

O carboidrato que está faltando no prato

O futebol é um esporte de alta intensidade. Em 90 minutos de jogo, um jogador de elite percorre entre 10 e 13 km, realiza dezenas de sprints, mudanças bruscas de direção, saltos e disputas físicas. O músculo que faz tudo isso funcionar precisa de combustível, e esse combustível tem nome: glicogênio. É a forma como o corpo armazena carboidrato dentro dos músculos e do fígado para usar como energia rápida durante o esforço. E glicogênio só vem de carboidrato.

A literatura científica é clara sobre as recomendações para jogadores de futebol: de 3 a 8 gramas de carboidrato por quilo de peso corporal por dia, dependendo da fase de treinamento e da proximidade dos jogos. Cristiano pesa em torno de 80 kg. Isso significa que ele precisaria consumir entre 240 g e 600 g de carboidrato diariamente para sustentar a demanda do esporte.

O chef menciona que, quando precisa de carboidrato, Cristiano obtém pelos vegetais. Vegetais são fontes riquíssimas de micronutrientes e fibras, mas não são boas fontes principais de carboidrato. A densidade calórica é baixa demais. Para chegar a 240 g de carboidrato só com vegetais, ele teria que comer quilos e quilos por dia. Tanto é que, quando monto uma dieta de emagrecimento para os meus pacientes, coloco vegetais à vontade exatamente por isso: eles aumentam a saciedade com poucas calorias. O que é ótimo para quem quer perder peso. O oposto do que um atleta de alta performance precisa antes de entrar em campo.

Nada contra a farinha, também. Glúten não faz mal a ninguém, exceto para pessoas com doença celíaca ou sensibilidade confirmada. Tirar pão e macarrão da dieta de um jogador de futebol sem nenhuma indicação clínica não traz benefício nenhum.

Laticínios: o vilão que a ciência não sustenta

A questão dos laticínios é outro ponto que merece atenção. Leite e derivados são fonte completa de macronutrientes: carboidrato (lactose), proteína de alto valor biológico e gordura. Além disso, são uma das fontes mais biodisponíveis de cálcio que existem, fundamentais para a saúde óssea, especialmente em atletas que sofrem impacto repetido nos ossos a cada jogo.

Estudos mostram que o consumo de leite pós-exercício favorece a recuperação muscular, a hidratação e a reposição de glicogênio. Não há evidência científica que justifique a exclusão de laticínios da dieta de um atleta saudável, sem intolerância à lactose ou alergia à proteína do leite. Para quem não tem essas condições, retirar o leite é abrir mão de um alimento altamente nutritivo e conveniente sem nenhuma razão clínica para isso.

A conta calórica que não fecha

Estudos com jogadores de futebol de elite mostram que o gasto energético durante períodos de competição fica entre 3.500 e 4.000 kcal por dia. A dieta descrita pelo chef, na melhor das estimativas, chega a 2.500 kcal. Isso representa um déficit calórico bastante agressivo para alguém que compete em alto nível.

Um déficit desse tamanho, mantido de forma crônica, traz consequências sérias: queda de performance, maior suscetibilidade a lesões musculares, comprometimento do sistema imunológico e recuperação mais lenta entre os jogos. Exatamente o contrário do que você quer no meio de uma Copa do Mundo, com partidas a cada poucos dias.

O que pode estar acontecendo de verdade

Cristiano Ronaldo tem 41 anos, está em sua sexta Copa do Mundo e segue sendo um dos atletas mais bem preparados fisicamente do planeta. Isso não acontece com uma dieta deficiente em carboidrato e calorias.

A conclusão mais lógica é que a dieta descrita pelo ex-chef é um recorte, provavelmente do dia a dia fora de temporada ou de uma fase específica de controle de peso. Em períodos de competição, a alimentação de um atleta desse nível é periodizada de acordo com a agenda de jogos, treinos e recuperação. Antes de uma partida importante, a oferta de carboidrato aumenta consideravelmente. Depois do jogo, a ênfase vai para a recuperação muscular. Nada disso aparece na descrição do chef.

Então, para responder à pergunta do título: com essa dieta exatamente como foi descrita, não. Mas é praticamente impossível que seja exatamente assim. Existe uma equipe inteira de nutricionistas, médicos e preparadores físicos por trás de cada refeição que ele faz. O que o chef revelou é um pedaço da história, não a história inteira.

E por falar em dieta bem estruturada, a Seleção Brasileira tem tudo para chegar a essa Copa com uma preparação nutricional à altura do momento. Que cada jogador chegue em campo com o glicogênio cheio, a recuperação em dia e o físico no limite. Que o Cristiano tenha uma Copa brilhante, porque o mundo do futebol merece vê-lo bem. Mas que, lá na final, a taça venha pro lado de cá.

Fonte: Folha Vitória

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