A diversificação de renda na propriedade rural raramente é discutida nos mesmos espaços onde se falam de cotações e safras, mas é exatamente o que um município de 22 mil habitantes na Serra Capixaba passou quatro décadas construindo. Venda Nova do Imigrante não apenas criou o agroturismo no Brasil. Tornou-o lei federal.
Em julho de 2024, o presidente Lula sancionou a Lei 14.636, que reconhece oficialmente Venda Nova do Imigrante como Capital Nacional do Agroturismo. O título formaliza uma realidade construída desde os anos 1980, quando os primeiros empreendedores locais aprenderam com o modelo italiano de turismo rural e começaram a abrir suas propriedades para visitantes. O que nasceu como complemento de renda virou identidade econômica: hoje, 57 propriedades integram o circuito municipal, envolvendo 300 famílias e gerando ocupação direta para 1.500 pessoas.
Os produtos do circuito refletem a origem italiana da colonização capixaba: queijos artesanais, embutidos de carne de porco, vinho colonial, cachaça, antepasto, iogurte, café especial, geleias, massas e pães. O diferencial que atraiu os visitantes, e que mantém o modelo funcionando, é a experiência de produção: o turista que vai a Venda Nova não apenas compra o queijo, ele vê o queijo ser feito. Esse componente de autenticidade, que o Sebrae chama de turismo de experiência, responde por até 90% da motivação de viagem dos turistas brasileiros, segundo pesquisa da entidade.
O principal termômetro do setor é o RuralturES, feira anual de turismo rural que reúne produtores, visitantes, compradores e instituições. A edição de 2025 atraiu 27 mil visitantes em quatro dias e movimentou R$ 4,5 milhões em vendas diretas nos estandes, experiências guiadas e praça de alimentação. O evento, que já chegou a projetar 30 mil visitantes em suas edições mais recentes, é também um canal de comercialização: produtores que participam relatam aumento de vendas nos meses seguintes ao evento, com clientes que voltam às propriedades depois da visita na feira.
O Sebrae estima renda adicional de R$ 15 mil por ano para os produtores que integram o circuito de agroturismo. O número pode parecer modesto isoladamente, mas em propriedades familiares onde a principal renda vem de uma única cultura, café, tomate, pimenta ou leite, R$ 15 mil representam a diferença entre fechar o ano no vermelho ou no azul em momentos de queda de preços. O agroturismo não substitui a produção agrícola: ele a complementa, usando a mesma propriedade, o mesmo trabalho familiar e o mesmo produto, agora também como atração.
O modelo de Venda Nova está sendo replicado. Domingos Martins, vizinha na Serra Capixaba, desenvolve seu próprio circuito com foco em piscicultura, embutidos e café. Santa Teresa, com forte herança italiana e produção de café arábica e vinho, atrai um perfil de visitante diferente. O Caparaó, onde um empresário local apresentou recentemente o projeto de um condomínio aeronáutico para atrair turistas de alta renda, tem mais de 100 cachoeiras, o Pico da Bandeira e uma rede crescente de pousadas, cafeterias e propriedades rurais com experiências de campo.
A expansão geográfica do agroturismo capixaba não é coincidência. Ela acompanha o movimento nacional de busca por destinos de experiência autêntica, acelerado durante e após a pandemia, e que agora se consolida como segmento permanente do turismo. O Espírito Santo reúne condições difíceis de encontrar em um só estado: imigração europeia com gastronomia preservada, relevo serrano com clima ameno, biodiversidade e produção diversificada: café, cacau, queijo, vinho, mel, pimenta, frutas. Cada propriedade é, potencialmente, um destino.
Para o produtor rural capixaba que enfrenta hoje a volatilidade das commodities, o conilon a R$ 981, a soja pressionada pelas tarifas, a carne sujeita à política comercial americana, o agroturismo oferece o que o mercado de commodities não consegue dar: um preço que o próprio produtor define, uma relação direta com o consumidor final e uma renda que não oscila com o mercado ou com a taxa de câmbio. É a diferença entre vender uma saca de café a R$ 981 e servir um café especial a R$ 35 a xícara, colhido na mesma lavoura.
Fonte: Folha Vitoria