Automutilação, morte de animais, rituais com sangue e outros crimes chocantes acontecendo ao vivo na internet, a um clique no celular ou no computador. O show de horrores era comandado por um adolescente de 16 anos, morador do bairro Jardim Limoeiro, na Serra.
As cenas são aterrorizantes e a TV Vitória/Record, em reportagem exclusiva, revelou como o menor agia. Ele foi detido no início do mês de fevereiro.
Segundo o delegado responsável pelo caso Tárik Souki, o adolescente comandava as ações em uma rede social amplamente utilizada por crianças e adolescentes e dava ordens para que vítimas se cortassem com lâminas, escrevessem símbolos com o próprio sangue e se submetessem a humilhações diante de outros participantes.
As investigações apontam que o grupo se identificava como “Panela 466” e reunia centenas de crianças e adolescentes em salas virtuais, principalmente durante a madrugada. No centro das transmissões, o adolescente da Serra assumia o papel de líder e narrador das cenas.
Ele mesmo se auto-intitulava orador e narrador desse grupo, desse teatro de horrores que ocorria ali nesse mundo virtual deles. E ele executava animais, ordenava que meninas, crianças, jovens, adolescentes se automutilassem, se autoflagelassem por meio de facas, lâminas”.
Delegado Tárik Souki, responsável pelo caso
Plateia virtual acompanhava agressões em tempo real
Segundo a polícia, o adolescente conduzia as transmissões, determinava o momento em que as vítimas deveriam intensificar os cortes e fazia contagens regressivas para que elas se ferissem.
As cenas eram acompanhadas por outros integrantes, que assistiam, incentivavam e reagiam em tempo real.
De acordo com investigações, além dos cortes, as vítimas eram orientadas a escrever o nome do líder com o próprio sangue em paredes e no corpo.
O adolescente ordenava a introdução de objetos cortantes nas partes íntimas das menores e compartilhava material pornográfico durante as transmissões.
Após esses cortes, ele ordenava que as meninas pegassem o próprio sangue, escrevessem o nome dele no próprio corpo, nas paredes, espelhos, no teto, no chão. Além disso, ordenava também que elas inserissem nos órgãos genitais materiais cortantes, facas, e também distribuía material pornográfico.”
Os investigadores apreenderam centenas de vídeos armazenados. Parte do conteúdo, segundo os delegados, é considerada extremamente perturbadora, inclusive para profissionais acostumados a lidar com crimes graves.
Veja o que dizem os delegados:
Em uma das gravações analisadas, uma adolescente de 14 anos aparece sem roupas em uma transmissão com mais de 100 espectadores, ferindo a si mesma sob comando.
Crueldade contra animais também era exibida
Em uma das transmissões, segundo a polícia, a imagem falha, mas o áudio permanece. Nele, é possível ouvir a voz do adolescente e, na sequência, o som de um animal agonizando. Para os investigadores, o episódio sintetiza o nível de violência praticado dentro do grupo.
“Ele demonstrou frieza e relatou com naturalidade que praticava isso desde os 12 anos. Disse que sentia prazer em ver animais mortos e pessoas se autoflagelando”, afirmou Tárik Souki.
A estimativa é de que mais de 100 de meninas tenham sido submetidas às práticas ao longo do tempo.
Cortes escondidos e silêncio dentro de casa
As transmissões, conforme apurado pela polícia, ocorriam principalmente de madrugada, quando os responsáveis estavam dormindo ou fora de casa.
Segundo o delegado Társi Gondim, muitas vítimas escondiam os ferimentos em regiões como parte interna das coxas e parte posterior dos braços, locais menos visíveis.
Os pais precisam observar braços e região interna das coxas. Elas se cortavam onde dava para esconder com roupas, principalmente dos pais que não são muito observadores.”
O delegado também apontou que parte dos adolescentes apresentava sinais de distanciamento familiar. “Existe um perfil de alienação parental. Falta de atenção e diálogo acabam empurrando esses jovens para esse submundo virtual”, disse.
Apreensão ocorreu na casa do adolescente
O adolescente foi localizado em uma casa simples em Jardim Limoeiro na última semana. Filho de mãe solteira, ele não teria demonstrado surpresa no momento da abordagem e assumiu ser o responsável pelo perfil investigado, devido ao fato de ter um irmão com idade próxima e que não tinha a ver com o caso.
“Ele mesmo se entregou. Era como se vestisse uma máscara na internet. Em casa, ele era uma coisa; no ambiente virtual, ele era outra pessoa”, relatou Társi Gondim.
A Polícia Civil informou que o adolescente responderá por atos infracionais análogos a crimes graves. As autoridades ressaltam que os demais participantes que se feriram são tratados como vítimas.
Os pais não devem ter vergonha de denunciar e não devem punir os filhos que foram coagidos. Eles são vítimas. Punir pode piorar o comportamento deles e afastá-los ainda mais”.
O caso só chegou ao conhecimento da polícia após uma denúncia anônima. A corporação reforça que situações semelhantes devem ser comunicadas pelo Disque-Denúncia 181. A investigação segue para identificar outros possíveis envolvidos.
*Com informações da repórter Nathália Munhão, da TV Vitória/Record.
*Texto sob supervisão da editora Elisa Rangel
Folha Vitória