O discurso de Renato Casagrande (PSB) na abertura do ano legislativo na última segunda-feira (2), o último feito por ele no plenário da Assembleia Legislativa, como governador do Estado, teve forte conotação eleitoral. Falando de improviso, sem mencionar explicitamente o processo eleitoral – muito menos nominar qualquer pessoa –, o governador enunciou o que, segundo ele, o povo capixaba não deseja de modo algum a partir de 2027: voltar a um passado político marcado pelo “autoritarismo” e pelo “controle das instituições” (exercido pelo Executivo).
Ninguém quer um retorno ao passado, em que a gente tenha autoritarismo e força para manter o controle das instituições. As instituições hoje têm liberdade de conversar, dialogar, expor os seus problemas, e a gente junto encontrar um caminho. Esse é o segredo do nosso estado.
Sempre sem citar nome algum, ele fez uma indireta que pareceu direcionada a adversários do passado e do presente (ao menos assim soou).
“Você pode governar com autoridade sendo humilde e tendo capacidade de diálogo. Para você ter autoridade, você não precisa ser arrogante, prepotente e autoritário, achar que o governo é vertical, de cima pra baixo. A gente tem que compreender que este é o momento de ter uma sociedade que seja horizontal, que o governante tem que estar aberto a dialogar com todo mundo, porque isso é o que a sociedade deseja hoje.”
À saída do plenário, perguntamos a Casagrande sobre o teor do seu pronunciamento. Ele negou que tenha sido direcionado para quem que que seja. Afirmou que se trata de uma “tese” defendida por ele – ou seja, um princípio geral, que vale para todos os agentes públicos, não apenas A ou B.
“Ninguém quer mais os governos do passado, que governavam de forma piramidal, de cima pra baixo, e todo mundo tinha que se enquadrar a esse formato. Nem as pessoas nem as instituições. As instituições se acostumaram com esse jeito de a gente dialogar, se sentar à mesa, ter um trabalho compartilhado… é isso que a gente defende.”
Não estou falando o nome de ninguém. As pessoas sabem quem tem prática moderna e quem tem prática ultrapassada. As pessoas conhecem isso. Isso faz parte de um conceito que sempre defendi.
Casagrande não quis fulanizar, mas, na política, não se dão declarações como essa de maneira gratuita e aleatória. Frases assim sempre têm um significado maior, oculto sob a primeira camada; quase sempre, têm um alvo inominado. Parece o caso aqui.
O governador não teria dito algo assim a troco de nada… ainda mais na presente conjuntura, com sua possível renúncia se acercando, enquanto adversários importantes ascendem, ou ressurgem, no horizonte da disputa eleitoral. A fala do governador tem certamente um alvo oculto… ou melhor, dois.
Na nossa interpretação, Casagrande visou precisamente aqueles que são os dois maiores adversários dele mesmo e que, hoje, representam a maior ameaça ao projeto sucessório liderado por ele no Espírito Santo: o ex-governador Paulo Hartung (PSD) e o prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos).
Para ser mais preciso: na nossa interpretação, Casagrande mirou em cheio em Paulo Hartung e, de raspão, ou de roldão, também atingiu Pazolini.
Para quem não acredita em coincidências, vale destacar que, horas antes da “despedida” de Casagrande na Assembleia, publicamos neste espaço uma entrevista importante de Paulo Hartung, cujo saldo pode ser condensado em dois pontos:
1) o ex-governador se mostra mais disposto que nunca (“animadíssimo” foi o termo que usou) a voltar a disputar um mandato eletivo (possivelmente, ao Senado), após oito anos na planície reflorestada da Ibá;
2) com inédita explicitude, de um modo que fugiu ao próprio estilo e que surpreendeu muita gente, Hartung declarou apoio integral a Pazolini, principal adversário do projeto de Casagrande e Ricardo, na eleição para governador do Estado: “Se depender de mim, ele é o nome”.
Quem conheceu o Hartung governador guarda vivo na lembrança seu jeito muito mais oblíquo e muito mais opaco de fazer política. Como chefe do Executivo Estadual, ele raramente se posicionava assim, de maneira tão firme e objetiva, em favor de quem quer que fosse, numa disputa eleitoral na qual não estivesse pessoalmente envolvido. Costumava esconder suas preferências e camuflar seus movimentos… Isso quando não escolhia o muro.
Pela ênfase e pela antecipação, a declaração impressionou a muitos, incluindo antigos aliados que conviveram de perto com o ex-governador. “Ele foi incrivelmente afirmativo”, disse um deles. “Eu realmente nunca vi PH tão explícito”, confidenciou outro. E, no Palácio Anchieta, pode ter se acendido um alerta.
Além de tornar mais palpável o retorno eleitoral do próprio Hartung, a entrevista fortalece a hipótese de uma aproximação estratégica entre os dois maiores “fantasmas políticos” para o grupo de Casagrande. Pode ser o prenúncio de uma parceria eleitoral a se concretizar em julho/agosto – muito embora, é preciso frisar, Pazolini nunca tenha sinalizado na mesma direção nem correspondido, pelo menos de público, aos acenos do ex-governador.
Como não é segredo para ninguém, Hartung adoraria ver a derrota de Casagrande e, principalmente, de Ricardo Ferraço, impedindo a perpetuação desse mesmo grupo no poder. O ex-governador parece ver em Pazolini a melhor chance de derrotar tal grupo. E, de fato, é a melhor, se não a única chance. Assim indicam todas as pesquisas eleitorais mais críveis divulgadas ao longo do ano passado.
Igualmente eloquente foi o fato de que, uma hora antes de Casagrande chegar à Assembleia, Hartung em pessoa foi visto almoçando em um restaurante em Cariacica com Erick Musso, ex-presidente da mesma Casa de Leis e ninguém menos que o principal articulador político de Pazolini; e, ainda, com o vereador César Lucas (PV), ninguém menos que o líder do prefeito Euclério Sampaio (MDB) na Câmara de Cariacica. Euclério vem a ser um dos maiores apoiadores de Ricardo para o governo e de Casagrande para o Senado.
Isso prova, no mínimo, algo extremamente relevante: Hartung não só está se colocando cada vez mais para dentro do tabuleiro eleitoral como já está incursionando pelo território político dominado por Casagrande. Está buscando brechas – as quais sempre existem. Já tem contatos e “aliados infiltrados”.
O antecessor de Casagrande entrou em 2026 pisando no acelerador. Tem se movimentado intensamente e, como disse na citada entrevista, já tem falado a conhecidos em favor de Pazolini. Os contatos de Hartung incluem líderes políticos do interior, onde seu recall na certa ainda é alto e onde toda ajuda é bem-vinda para o prefeito de Vitória. No início da semana, ele esteve com vereadores de São Gabriel da Palha.
Por tudo isso, não foi nem um pouco fortuito que, em sua última aparição oficial na Assembleia antes do processo eleitoral, Casagrande tenha alertado para “o risco de retorno a um passado de autoritarismo” e sublinhado à exaustão a importância de se governar com diálogo. Ora, a suposta “inclinação autoritária” e o suposto deficit de diálogo são, precisamente, vulnerabilidades frequentemente atribuídas tanto a Hartung, no passado, quanto a Pazolini, no presente.
Com relação a Hartung, em seus 12 anos no Palácio Anchieta, não foram poucos os momentos em que ele foi acusado, por críticos e/ou opositores, de governar com “mão de ferro”. Icônica foi a declaração de Luiz Paulo (PSDB), então um aliado de Hartung que vivia às turras com ele. Em meio às idas e vindas no relacionamento político, o ex-prefeito certa vez o chamou de “bonapartista”. A greve da PMES em fevereiro de 2017 foi um movimento ilegal e inconstitucional. Mas, na disputa de narrativas, Casagrande e seu grupo sempre batem na tecla de que a “falta de diálogo” teria concorrido para a explosão da bomba.
Já com relação a Pazolini, um dos maiores problemas atribuídos ao prefeito não só por adversários, mas inclusive por alguns aliados, diz respeito justamente a uma baixa capacidade de diálogo e a uma nula disposição em receber e ouvir quem discorda dele, além de certa propensão ao individualismo e um perfil centralizador. Em que pese a boa avaliação, determinante para a reeleição consagradora no 1º turno em 2024, ele faria na Capital um governo fechado, sem abertura a quem pensa de modo diferente.
Essa crítica, aliás, choveu durante as últimas eleições em Vitória, por parte de adversários como Luiz Paulo, João Coser (PT) e Camila Valadão (PSol). Mas, como dito, aliados e correligionários também relatam dificuldades em dialogar com o prefeito.
Hartung e Pazolini, enfim, levam essa pecha de não serem exatamente os políticos mais afeitos ao diálogo. Justa ou não, é uma pecha frequentemente explorada por adversários deles. A mesma que Casagrande, sem nominar ninguém, começou a explorar em seu derradeiro ato solene na Assembleia, a “Casa do Povo”, caixa de ressonância da sociedade capixaba.
E a mesma que, pode-se inferir, tende a ser ainda mais explorada à medida que esquentar esta disputa eleitoral.
Um tópico que tem intrigado o mercado político: até o momento, Pazolini não mostrou reciprocidade em relação aos gestos de Hartung em sua direção. Uma das marcas do prefeito de Vitória, desde o início da carreira política, em 2018 – mesmo ano que marcou a retirada de cena de Hartung – é não aceitar ser tutelado por padrinhos políticos.
Aliás, Pazolini pode ser considerado uma espécie rara, curiosa, no meio em que decidiu entrar: tornou-se um político, é verdade, mas é um político que “não gosta de políticos”, na definição de um veterano observador da cena. Mostra certa aversão a se sentar para tratar de política com outros membros da classe política.
Dependendo do ponto de vista, esse senso de autossuficiência pode ser uma virtude ou um defeito. Mas é fato que pode custar caro numa disputa majoritária estadual como a que Pazolini se propõe encarar. É difícil, para não dizer impossível, ganhar sem aliados.
O papel central de Erick
Obviamente, enquanto não suja a mão de graxa nas engrenagens da “política real”, o prefeito tem quem o faça por ele. E aí tornamos ao já citado Erick Musso. Ao contrário do delegado licenciado, o ex-presidente da Assembleia nasceu no chão dessa fábrica, gosta de operar essa máquina e o faz em nome do prefeito, como procurador dos interesses do Republicanos, de Pazolini e dele mesmo.
Ora, o possível estreitamento da relação de Pazolini com Hartung passará diretamente pela pessoa de Erick, chamado aqui de “Kassab capixaba” pelo vereador César Lucas. É ele quem tem feito a mediação entre o prefeito e o ex-governador, a qual pode (ou não) culminar com uma aliança eleitoral concreta nos próximos meses. Mas será preciso o aceite de Pazolini.
Saberemos entre julho e agosto.
Como o Palácio Anchieta lidará com Hartung?
Hartung está mais de volta que nunca ao jogo, é fato. Como o Palácio Anchieta lidará com esse velho fato novo? Por ora, subindo cada vez mais o tom, Casagrande tem rebatido críticas do arquirrival.
Para alguns colaboradores da coluna, é uma estratégia equivocada: em vez de morder todas as iscas, seria melhor ignorar o desafeto. Na medida em que acusa os golpes e os revida, Casagrande aumenta a visibilidade e a repercussão do retorno de Hartung à cena política.
Como ouvimos estes dias de uma raposa política, “o Paulo não pode dar um espirro em São Paulo que o Renato pega uma pneumonia aqui”.
A confiança de Marcelo em Ricardo
Na Assembleia Legislativa, antes da sessão solene no plenário na segunda-feira, os chefes dos Poderes e instituições estaduais se reuniram no gabinete do presidente Marcelo Santos (União).
A confiança de Marcelo no sucesso do “Projeto Ricardo” é tão grande que ele deixou escapar que, ineditamente, como presidente da Assembleia, dará duas posses a Ricardo: em abril (quando Casagrande renunciar) e no começo de janeiro de 2027, após vitória eleitoral em outubro.
Para não perder a piada…
“Governar de forma piramidal”: Casagrande chamou alguém ali de “faraó”…
Certo é que Hartung e Pazolini são duas “esfinges políticas”: bem difíceis de decifrar.
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