As férias acabam e muita gente se pergunta: por que o retorno pesa tanto? Se descansar faz bem, por que o cérebro pode parecer mais lento, disperso ou sem ânimo nos primeiros dias de volta à rotina? Essa sensação, bastante comum, costuma ser chamada de “depressão pós-férias”. Mas será que isso realmente existe? E, mais importante, o que de fato acontece com o cérebro quando o descanso chega ao fim?Depressão pós-férias realmente existe?A expressão “depressão pós-férias” é popular no Brasil e ajuda o leitor a nomear um desconforto real. Ainda assim, é importante esclarecer logo de início: na maioria das vezes, não se trata de uma depressão clínica. O que ocorre é um período transitório de adaptação do cérebro ao retorno das exigências do dia a dia. Na literatura científica, esse fenômeno é conhecido como post-vacation blues.Durante as férias, o cérebro funciona em outro ritmo. Há menos pressão por produtividade, menos cobrança por desempenho, horários mais flexíveis e mais espaço para prazer e descanso. Isso reduz o estresse e favorece um funcionamento mais equilibrado dos sistemas ligados ao humor, à atenção e à motivação.Cérebro descansado funciona melhor?Aqui vale uma pausa para uma pergunta que sempre surge: se o cérebro descansou, não deveria funcionar melhor assim que as férias acabam? A resposta é sim, mas não de forma imediata.O descanso é extremamente benéfico. Estudos mostram melhora da atenção, da memória e do controle emocional após períodos de pausa. O problema é que o retorno costuma ser abrupto. De um dia para o outro, voltam os horários rígidos, as demandas constantes e a pressão por resultados. O cérebro precisa de um tempo para se reorganizar diante desse novo cenário.Gosto de explicar isso de maneira simples. Durante as férias, áreas do cérebro responsáveis por planejamento, organização do tempo e tomada de decisões ficam menos exigidas. No retorno, elas precisam reassumir rapidamente um ritmo intenso. Essa transição pode provocar:
Sensação de lentidão mental;
Esquecimentos leves; queda inicial de produtividade.
Se você se reconhece nisso, é importante saber: essa sensação é comum e esperada.Esse período de readaptação costuma durar de alguns dias até duas semanas. Nesse intervalo, podem surgir desânimo leve, irritabilidade, impaciência e vontade de adiar tarefas mais complexas. Não é preguiça, nem falta de capacidade. É o cérebro ajustando novamente seu funcionamento ao ritmo da rotina.Quando se preocuparO sinal de alerta aparece quando esse mal-estar não passa. Se, após três ou quatro semanas, o desânimo persiste, o interesse pelas atividades continua reduzido, o sono e o apetite se alteram de forma importante ou surgem pensamentos muito negativos, é preciso atenção. VIDA SAUDÁVEL | Dor na mandíbula e estalos ao mastigar: quando indicam sono ruim?Em alguns casos, o fim das férias pode desencadear ou revelar quadros de depressão ou ansiedade que já estavam se formando. Por isso, é importante não banalizar o sofrimento emocional. Nem tudo é depressão, mas nem todo desconforto deve ser ignorado.Hábitos que tornam o retorno mais fácilAlgumas atitudes simples ajudam o cérebro a engrenar melhor nesse retorno. Sempre que possível, evite sobrecarga nos primeiros dias. Organizar tarefas em blocos menores, manter hábitos positivos das férias e respeitar o próprio ritmo faz diferença. Caminhar ao ar livre, dormir um pouco melhor e se expor à luz natural ajudam o cérebro a retomar o equilíbrio.A atividade física também tem um papel importante. Ela estimula substâncias relacionadas ao bem-estar, à motivação e à adaptação do cérebro às novas exigências. Não precisa ser nada complexo. Regularidade costuma ser mais eficaz do que intensidade.Quero deixar uma mensagem final para você. Um cérebro descansado é um cérebro mais saudável. Ele não perde capacidade ao voltar das férias. Apenas precisa de um tempo para sair do modo descanso e retomar o modo produtividade. Respeitar esse processo é uma forma de cuidado com a saúde mental.E, se o peso do retorno não passa, buscar ajuda é um gesto de atenção consigo mesmo.
Folha Vitória