Receber um implante dentário pode parecer, à primeira vista, um procedimento essencialmente mecânico: o cirurgião instala um implante de titânio no osso e, após determinado período, coloca-se o dente sobre ele. Na realidade, o processo é muito mais complexo.
Depois da cirurgia, começa uma verdadeira batalha biológica entre o implante, o osso e o organismo. É a chamada osseointegração, e seu sucesso depende não apenas da técnica cirúrgica, mas também das condições gerais de saúde do paciente.
Por isso, antes de instalar um implante, não devemos olhar apenas para a boca. Em determinados pacientes, conhecer sua saúde sistêmica, os medicamentos utilizados e os resultados de alguns exames laboratoriais pode ajudar a identificar fatores capazes de interferir na cicatrização.
O diabetes é um dos exemplos mais importantes. Quando a glicemia permanece elevada e a doença está mal controlada, podem ocorrer alterações na resposta imunológica, na inflamação e na reparação dos tecidos. Uma revisão sistemática recente mostrou que pacientes diabéticos podem apresentar excelentes taxas de sobrevivência dos implantes quando a doença está controlada.
Entretanto, níveis elevados de hemoglobina glicada, especialmente acima de 8%, foram associados a piores condições dos tecidos ao redor dos implantes. A hemoglobina glicada, ou HbA1c, é um exame de sangue que fornece uma estimativa do controle da glicose nos últimos meses e pode ser solicitado quando existe diabetes conhecido ou suspeita clínica.
Outro elemento que vem despertando interesse é a vitamina D. Ela participa do metabolismo ósseo e da regulação da resposta imunológica, processos diretamente envolvidos na osseointegração. Revisões recentes sugerem associação entre deficiência de vitamina D e piores resultados em alguns pacientes submetidos a implantes.
A dosagem sanguínea de 25-hidroxivitamina D pode ser considerada em situações selecionadas, principalmente quando existem fatores de risco para deficiência. Entretanto, ainda não há evidência suficiente para transformar sua dosagem ou suplementação em uma regra universal para todos os pacientes que receberão implantes.
Dependendo da história clínica, outros exames podem ser necessários e, em situações específicas, exames relacionados à função renal, metabolismo ósseo, coagulação ou estado nutricional podem fazer parte da investigação. Isso não significa solicitar uma extensa bateria de exames para todas as pessoas. O princípio correto é individualizar: os exames devem responder a uma pergunta clínica e ser escolhidos de acordo com a idade, as doenças preexistentes, os medicamentos e a complexidade da cirurgia.
A saúde óssea também merece atenção. Osteoporose, isoladamente, não significa necessariamente que o paciente não possa receber implantes. Porém, é fundamental informar ao cirurgião sobre medicamentos utilizados para tratar osteoporose ou doenças oncológicas, especialmente alguns fármacos antirreabsortivos, como bisfosfonatos e denosumabe.
Em determinadas situações, esses medicamentos estão relacionados à osteonecrose dos maxilares e exigem avaliação individualizada do risco antes de procedimentos cirúrgicos.
Mas não são apenas as doenças sistêmicas que determinam o resultado. Entre os fatores modificáveis mais importantes está o cigarro. Uma meta-análise publicada em 2024, reunindo mais de 59 mil implantes, encontrou associação entre tabagismo e maior risco de falha precoce. O cigarro interfere na vascularização, na resposta imunológica e no reparo dos tecidos, além de estar relacionado à peri-implantite.
A peri-implantite é uma doença inflamatória associada ao biofilme bacteriano que provoca inflamação dos tecidos ao redor do implante e perda progressiva do osso que lhe dá sustentação.
Um importante consenso internacional publicado em 2025 destacou como fatores relevantes o histórico de periodontite, tabagismo, diabetes não controlado, controle inadequado do biofilme e obesidade. Por isso, instalar um implante em uma boca com doença periodontal ativa, sem primeiro controlar a infecção e estabelecer condições adequadas de higiene, pode comprometer seu futuro.
Também existem fatores mecânicos e cirúrgicos. O osso precisa sofrer o mínimo possível durante o preparo para receber o implante. Aquecimento excessivo, trauma cirúrgico, estabilidade inadequada, posicionamento desfavorável e sobrecarga precoce podem prejudicar a osseointegração. Posteriormente, características da prótese, posição do implante e condições dos tecidos ao seu redor também influenciam a facilidade de higienização e a manutenção da saúde peri-implantar.
Isso explica por que o planejamento moderno de implantes vai muito além de observar se existe “osso suficiente”. Tomografias permitem avaliar tridimensionalmente o local da cirurgia, enquanto a anamnese revela doenças, medicamentos e hábitos que uma imagem jamais mostraria. Exames laboratoriais, quando corretamente indicados, acrescentam outra parte dessa avaliação completa e individualizada.
E há uma mensagem fundamental: perder um implante raramente pode ser explicado por um único fator. O resultado depende da interação entre paciente, saúde sistêmica, qualidade e quantidade óssea, técnica cirúrgica, posição do implante, higiene, tabagismo e acompanhamento ao longo dos anos.
O implante dentário moderno apresenta elevada previsibilidade quando corretamente indicado e acompanhado. Mas tecnologia e materiais sofisticados não eliminam a biologia. Antes de perguntar apenas qual implante será utilizado, talvez exista uma pergunta ainda mais importante: como está a saúde do organismo que deverá cicatrizar ao redor dele?
O sucesso de um implante começa muito antes da cirurgia. Começa com diagnóstico, prevenção e conhecimento do paciente como um todo.
Fonte: Folha Vitória