Artigo escrito porÉrico Colodeti FilhoCFP®(Certified Financial Planner), especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Especialista em criptomoedas pela Associação Nacional das Corretoras Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Professor universitário.
Existe um erro antigo e sedutor na economia brasileira: acreditar que o juro é a causa dos nossos problemas, quando ele é apenas o sintoma.
André Lara Resende é um economista respeitado, um dos formuladores do Plano Real, e merece ser lido com seriedade.Justamente por isso, sua proposta de levar a Selic a 7,5% em um ano por arranjo institucional merece atenção e cautela. A ideia parte de um diagnóstico legítimo, o de que pagamos juros reais altíssimos. O equívoco está no remédio.
Comecemos pelo que há de bom, porque há muito. Juro menor alivia o custo da dívida pública, que devora uma fatia gigantesca do orçamento. Barateia o crédito, estimula o investimento e dá fôlego a quem produz e a quem está endividado. Se o juro caísse por convicção do mercado, seria a melhor notícia da década.
No entanto, o juro alto não é teimosia do Banco Central. Ele é o preço do risco fiscal, da inflação esperada, bem como da desconfiança.
Derrubar a taxa sem resolver a causa não elimina o risco, apenas muda seu endereço. Corta-se o juro e o prêmio de risco reaparece no dólar, na inflação e nos juros longos. O câmbio sobe, os combustíveis e os alimentos acompanham, e o Banco Central perde a âncora que dava credibilidade às metas. Queimar reservas para segurar o dólar compra tempo, mas não compra confiança, e reserva gasta não volta de graça.
Problema do juro a longo prazo
Há ainda um efeito perverso. Se os investidores perceberem que a política monetária passou a obedecer ao calendário eleitoral, vão exigir mais juro nos títulos de longo prazo. O resultado pode ser uma Selic baixa e um financiamento do governo mais caro. Seria uma vitória no papel e uma derrota no bolso.
A história oferece lições duras. A Turquia é o exemplo mais cru. Entre 2021 e 2023, sob pressão do governo, o banco central cortou juros mesmo com a inflação disparando. A lira despencou, a inflação passou de 80% em 2022 e o país foi forçado a reverter tudo, com taxas que chegaram a 50% em 2024. Pagou duas vezes: primeiro pela bagunça, depois pela conta de arrumá-la.
O Brasil também já trilhou esse caminho. Entre 2011 e 2012, o governo Dilma empurrou a Selic para 7,25%, o menor nível até então. A inflação ficou presa acima do centro da meta, a credibilidade se desgastou e o país mergulhou na recessão de 2015 e 2016, com inflação perto de 10% e Selic de volta a 14,25%. O juro baixo daquela época não sobreviveu porque não tinha lastro fiscal.
A Argentina completa o quadro. Anos de juros reais negativos e dinheiro barato, com contas públicas frouxas, desaguaram em inflação de três dígitos. Juro baixo sem disciplina fiscal vira imposto inflacionário, e quem paga é sempre o mais pobre.
O contraponto honesto é que a proposta de Lara Resende não é um decreto cego. Ele propõe metas fiscais e monetárias coordenadas, e a coordenação é uma boa ideia. Porém, a ordem importa.
Primeiro vem a credibilidade fiscal, depois vem o juro baixo. Inverter a sequência é apostar que a confiança nasce da queda da taxa, quando na prática ela nasce de contas que fecham.
O Brasil não precisa de atalho. Precisa de uma trajetória da dívida que convença, de um Banco Central que ninguém suspeite de obedecer a ciclo eleitoral e de paciência. O juro cai de forma duradoura quando o país merece que ele caia. Na marra, ele costuma voltar mais alto.
Folha Vitoria