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Economia

Sem governança de dados, ESG e CSRD viram só narrativa

Quando uma empresa fala em ESG, ela está falando de como gere impactos ambientais, sociais e de governança corporativa


Foto: Magnific

*Artigo de Pedro Vieira Bontempo Cardoso, Gerente de Área de Controles Internos e SOX na ArcelorMittal FCLatam e Membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de ESG do IBEF-ES.

Quando uma empresa fala em ESG, ela está falando de como gere impactos ambientais, sociais e de governança corporativa. No mundo corporativo, isso deixou de ser apenas discurso.

Reguladores, investidores e clientes passaram a exigir evidências, indicadores e transparência. É aqui que entra o CSRD, uma norma da União Europeia que pede que empresas em escopo reportem impactos ambientais e sociais e como temas ESG afetam o negócio.

O problema é que muita gente começou pelo fim. Corre para selos, frameworks e relatórios antes de construir o básico: a governança robusta de dados. Em muitas organizações, os dados usados para reportar ESG ainda nascem em planilhas, e-mails e registros locais, com baixa padronização, pouca rastreabilidade e pouca evidência de revisão. Isso cria um paradoxo. Exige-se qualidade de relatório financeiro, mas sustenta-se a coleta em processos frágeis.

No 2024 Sustainability Action Report a Deloitte diz que mais da metade dos executivos (57%) aponta a qualidade dos dados como o principal desafio de dados ESG para sua empresa, e a maioria (88%) relata esse tema entre os três maiores desafios.

A maior parte dos executivos (81%) também reporta desafios relacionados à documentação entre os três principais, incluindo etapas relevantes de controle como revisão, aprovação formal e certificação dos dados ESG, processos e controles internos que normalmente são bem estabelecidos no reporte financeiro, mas em geral ainda menos consolidados no reporte de sustentabilidade. [1]

Esse desafio piora porque o CSRD define princípios e expectativas de qualidade, mas não entrega um roteiro operacional único. Sem clareza de finalidade, as empresas coletam muito dado sem saber o que farão com ele.

Ficam dúvidas essenciais: Quais riscos precisam ser monitorados? Quais dados são críticos para tomada de decisão? Quais indicadores realmente dizem algo sobre desempenho e impacto? Nesse cenário, KPIs nascem para atender ao framework e não para orientar gestão. O reporte fica pesado, caro e com pouco retorno gerencial.

A falsa solução costuma vir em forma de tecnologia. IA, analytics e monitoramento contínuo passam a ser vendidos como atalho para maturidade. Só que tecnologia não corrige desorganização estrutural.

Se a base tem registros frágeis, definições inconsistentes e ausência de controles, a IA não cria inteligência. Ela só replica inconsistências em maior escala e maior velocidade. O resultado são dashboards bonitos e baixa confiabilidade na base.

A pergunta que precisa vir antes do CSRD e antes da IA é simples. Quais são, de fato, nossos riscos ambientais, sociais e de governança? A partir dessa resposta, define-se o que registrar, quem é dono do dado, quais controles validam a informação, qual evidência sustenta o número e quais KPIs refletem resultado mensurável. Governança de dados não é tema técnico periférico. É a condição mínima para que ESG deixe de ser vitrine e passe a ser gestão, credibilidade e valor sustentável.

[1] https://www.deloitte.com/content/dam/assets-zone3/us/en/docs/services/audit-assurance/2024/2024-sustainability-action-report.pdf

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.

Folha Vitoria

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