O relato da apresentadora Ana Maria Braga, que revelou ter acordado com uma fissura na córnea após dormir com o ar-condicionado ligado durante a noite, chamou atenção para um problema que pode ser mais comum do que parece: o impacto de ambientes muito secos sobre a saúde dos olhos. O episódio foi associado ao ressecamento da superfície ocular e provocou dores intensas na apresentadora.
Embora o ar-condicionado seja importante para o conforto térmico, sua utilização prolongada pode reduzir a umidade do ambiente e acelerar a evaporação do filme lacrimal, camada responsável por proteger e manter hidratada a superfície dos olhos. De acordo com o médico oftalmologista Bruno Valbon (foto), em pessoas que já apresentam olho seco, alterações nas pálpebras ou outras condições oculares, a superfície pode ficar ainda mais vulnerável.
“O ar-condicionado não é, por si só, o responsável por provocar uma fissura na córnea. O que acontece é que o ambiente climatizado pode ficar com uma umidade mais baixa, aumentando a evaporação da lágrima. Se a pessoa já possui uma superfície ocular mais sensível ou apresenta olho seco, essa perda de lubrificação pode causar desconforto e, em situações mais intensas, até lesões na camada superficial da córnea”, explica o oftalmologista.
A córnea é uma estrutura transparente que recobre a parte anterior do olho e possui uma grande quantidade de terminações nervosas. Por isso, mesmo pequenas alterações em sua superfície podem provocar sintomas bastante intensos, como dor, ardência, sensação de areia nos olhos, lacrimejamento, vermelhidão, sensibilidade à luz e visão embaçada.
“A córnea é extremamente sensível. Quando o filme lacrimal deixa de cumprir adequadamente sua função de proteção, a superfície ocular pode ficar irritada e mais suscetível a pequenas lesões. É por isso que uma pessoa pode acordar com bastante dor mesmo quando a alteração na córnea parece pequena”, afirma Valbon.
O risco pode ser maior durante o sono. Isso acontece porque a produção de lágrimas diminui naturalmente durante a noite e algumas pessoas podem dormir com as pálpebras parcialmente abertas, deixando a superfície ocular ainda mais exposta ao ar seco. Alterações nas pálpebras, inclusive após alguns procedimentos cirúrgicos, também podem contribuir para essa vulnerabilidade.
“Durante o sono, a superfície ocular já recebe menos lubrificação. Se somarmos isso a um ambiente muito seco e a um fluxo de ar direcionado para o rosto, a evaporação da lágrima pode ser ainda maior. Pessoas que dormem com os olhos parcialmente abertos precisam ter uma atenção especial, porque a exposição da córnea ao ar durante várias horas pode intensificar o ressecamento”, alerta o oftalmologista.
O problema também pode aparecer em quem passa muitas horas por dia em ambientes climatizados, como escritórios, consultórios, salas comerciais e veículos. A exposição prolongada ao ar-condicionado pode contribuir para sintomas de olho seco, principalmente quando associada ao uso intenso de computadores e celulares.
“Quem trabalha em ambiente com ar-condicionado por várias horas pode perceber ardência, sensação de areia, vermelhidão ou visão que fica embaçada e melhora depois de piscar. O uso de telas pode potencializar esse desconforto porque, quando estamos concentrados, tendemos a piscar menos. Por isso, é importante fazer pausas e lembrar de piscar com frequência”, orienta o oftalmologista.
A recomendação é evitar que o fluxo de ar fique direcionado diretamente para o rosto e, sempre que possível, manter uma umidade adequada no ambiente. Em locais muito secos, o uso de umidificador pode ajudar. Para pessoas que já apresentam sintomas de olho seco, lubrificantes oculares podem ser indicados, mas o ideal é que seu uso seja orientado por um oftalmologista.
“O objetivo não é deixar de usar o ar-condicionado, mas utilizá-lo de uma maneira que agrida menos a superfície ocular. Evitar o jato de ar diretamente no rosto, cuidar da umidade do ambiente e manter uma boa hidratação são medidas simples. Para quem já apresenta sintomas frequentes, vale fazer uma avaliação para entender se existe olho seco ou alguma outra alteração que esteja favorecendo o problema”, explica o especialista.
O médico também chama atenção para a automedicação.“Nem todo desconforto ocular deve ser tratado com qualquer colírio. Existem diferentes causas para olhos secos, vermelhos ou irritados, e alguns produtos podem não ser adequados para uso contínuo. Se existe dor, vermelhidão intensa, sensibilidade à luz ou alteração na visão, é importante procurar avaliação oftalmológica”, ressalta.
Sintomas leves e ocasionais de ressecamento são comuns, mas dor ocular, visão embaçada persistente, fotofobia, vermelhidão intensa, sensação constante de corpo estranho ou dificuldade para manter os olhos abertos merecem atenção.
“Se a pessoa acordar com dor forte, sensação de que existe algo dentro do olho ou alteração na visão, não deve simplesmente esperar passar. Uma lesão na córnea precisa ser avaliada para identificar sua extensão e tratar a causa do problema. Quanto mais cedo houver diagnóstico e cuidado adequado, menor o risco de complicações”, finaliza.
Fonte: ES HOJE