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Efeito “droga no bolso” e reflexos no trabalho: como o vício em apostas impacta a saúde mental no ES

A crise gerada pelas apostas de quota fixa (bets) deixou de ser apenas uma questão financeira e se transformou em uma grave demanda de saúde pública no Espírito Santo. Entre janeiro e ju

Por Redação em 30/09/2026 às 13:00:15

A crise gerada pelas apostas de quota fixa (bets) deixou de ser apenas uma questão financeira e se transformou em uma grave demanda de saúde pública no Espírito Santo. Entre janeiro e julho de 2026, a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado registrou 564 atendimentos relacionados aos impactos psicológicos e sociais dos jogos digitais, contemplando 247 cidadãos — o que demonstra um expressivo fluxo de retornos continuados e tratamentos de longo prazo. O pico de busca por ajuda médica e psicológica ocorreu em julho de 2026, com 99 atendimentos em um único mês.

O perfil de quem chega à rede pública de saúde evidencia o impacto direto sobre a população jovem e economicamente ativa. Os homens representam 72,9% dos pacientes, e 38,0% do total têm entre 25 e 34 anos. Além disso, 50,2% possuem o ensino médio completo e 74,9% vivem com renda familiar de até dois salários mínimos ou estão sem renda. Outro dado alarmante revela que 96,8% dessas pessoas possuem moradia fixa, o que demonstra que o impacto devastador do jogo ocorre dentro do ambiente familiar e doméstico, manifestando-se em quadros severos de ansiedade, depressão, isolamento, perda de controle financeiro e risco de suicídio.

O mecanismo biológico e o fácil acesso pelo celular

Para especialistas, a acessibilidade das plataformas digitais potencializou os riscos da dependência. Lucélia Aparecida de Paula, psicóloga clínica com atuação voltada aos estudos da impulsividade e compulsividade, explica que os jogos virtuais disparam reações neuroquímicas semelhantes às de substâncias ilícitas de alto impacto:

“Os jogos provocam a mesma sensação no organismo como o uso de cocaína. Essa facilidade na mão, com o celular disponível o tempo todo, tira a possibilidade de a pessoa acessar o racional. É como se um alcoolista trabalhasse num bar e o chefe desse a liberdade de beber. É uma facilidade muito complicada: as bets começam como um experimentar e vão ganhando estímulo. O vício se retroalimenta todos os dias”, alerta Lucélia.

A psicóloga sugere que as empresas passem a impor regras claras sobre o não uso do celular durante a jornada de trabalho como forma de conter o hábito compulsivo. Além disso, propõe um olhar mais humano sobre a motivação do apostador: “As empresas devem questionar aos jogadores o que eles estão buscando, porque nos jogos os apostadores buscam a realização de sonhos e o prazer”.

O papel das lideranças e a identificação de sinais nas empresas

O ambiente de trabalho tem sido um dos primeiros locais a sinalizar que um colaborador enfrenta problemas com jogos. A paicologa é especialista em recursos humanos Marta Zouain destaca que a atenção preventiva das empresas é fundamental para evitar o colapso do profissional antes que a situação fuja totalmente do controle.

“As empresas precisam estar atentas às mudanças comportamentais do time para identificar se essa é uma questão presente entre as equipes. Alterações de humor, atrasos, pedidos recorrentes de ‘vale’ e baixa produtividade são sinais claros. As lideranças precisam apresentar apoio sem julgamentos. Os julgamentos provocam bloqueios nos funcionários, porque eles sentem o risco de perder o emprego. Não é a liderança que tem que tratar nem diagnosticar, mas sim acolher e encaminhar para o tratamento adequado”, analisa Marta Zouain.

Mapeamento dos dados, crédito consignado e a realidade dos pequenos negócios

Do ponto de vista empresarial e institucional, a Fecomércio-ES ressalta que os números obtidos na pesquisa servem como bússola para orientar a sociedade e os setores produtivos. José Carlos Bergamin, vice-presidente da Fecomércio-ES e empresário, lembra que a grande maioria das empresas capixabas é formada por pequenos negócios, que possuem pouca estrutura interna para gerenciar crises comportamentais complexas.

Bergamin faz uma comparação entre o estigma do vício em drogas e a percepção social em relação aos jogos:

“Diferentemente da dependência química, que muitas vezes faz um colega de trabalho agir com repulsa, com os vícios de bets há uma solidariedade maior no ambiente de trabalho”, pontua Bergamin.

O empresário também adverte sobre o reflexo financeiro direto na folha de pagamento: “Administrar essa situação é complexo, porque aumenta muito a busca por empréstimos consignados com desconto em folha. Isso gera uma redução salarial expressiva para o empregado no fim do mês e cria riscos operacionais e emocionais dentro da empresa. Esses dados balizam nossa atuação para dar importância e fornecer subsídios aos trabalhadores não apenas dos setores da Fecomércio, mas a toda a sociedade”.

Proibição ou educação? A eficácia das medidas governamentais

Diante das discussões no Governo Federal sobre medidas provisórias e eventuais restrições ou restrições de autorizações, as especialistas avaliam que a simples proibição dos jogos não resolverá a escalada da ludopatia (vício em jogos).

Marta Zouain avalia que ações estritamente proibitivas tendem a empurrar os apostadores para a clandestinidade digital:

“Os jogos não vão acabar; se houver proibição, os apostadores vão acabar migrando para jogos on-line clandestinos, porque proibição não é um processo educativo. Os apostadores buscam realização, e boa parte já está endividada e enxerga o jogo como um caminho de saída. Não adianta proibir, é como empurrar a poeira para debaixo do tapete”, afirma a especialista.

Na mesma linha, a psicóloga Lucélia Aparecida de Paula reforça que o foco deve ser o combate educativo e terapêutico:

“Proibir é piorar a situação. O viciado vive em um loop infinito e perde a sua liberdade. Portanto, a proibição deveria ser substituída por ações educativas contínuas e estruturadas”, conclui a psicóloga.

Bets movimentam R$ 397,7 milhões em um mês no ES

Fonte: ES HOJE

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