A autorização de familiares é essencial para a doação de órgãos. Imagem: Canva
Enquanto a vida segue para a maioria das pessoas, quem espera por um transplante precisa organizar a rotina em torno de consultas, exames e tratamentos. A próxima etapa, porém, depende de uma doação que não tem data para acontecer.
2.915 capixabas aguardam atualmente por um transplante de órgão ou tecido, segundo dados da Central Estadual de Transplantes do Espírito Santo (CET-ES). Desses, 1.753 à espera de córneas, 1.085 de rim, 66 de fígado e 11 de coração.
ÓrgãosPessoas na filaCórneas1.753Rim1.085Fígado66Coração11
Ao mesmo tempo em que existe uma demanda por órgãos, a decisão de doar ainda esbarra em um momento delicado: a autorização da família. Entre janeiro e agosto deste ano, 59% das famílias abordadas no Espírito Santo recusaram a doação, segundo a CET-ES. O índice era de 53,14% em todo o ano de 2025.
É justamente pela necessidade dessa autorização, que quem deseja ser doador deve comunicar sua vontade à família.
No Dia Nacional de Doação de Órgãos, celebrado neste domingo (27), o Folha Vitória perguntou aos especialistas quem pode ser doador, como uma pessoa pode manifestar a vontade e como os familiares desempenham um papel fundamental neste momento. Confira!
Para quem deseja ser doador, entretanto, o primeiro passo não exige cadastro, documento específico ou qualquer formalização em vida. É preciso comunicar claramente à família o desejo de doar os órgãos após a morte, porque é ela quem terá de autorizar a doação quando esse momento chegar.
Por que avisar a família é tão importante?
No Brasil, a vontade manifestada em vida não substitui a autorização familiar. Quando existe a possibilidade de doação após a morte, os familiares são entrevistados e precisam autorizar formalmente o procedimento.
Os dados da CET-ES mostram o peso desse momento. Entre os motivos registrados para a recusa em 2026, a oposição de algum familiar aparece em 136 casos, e o desejo de manter o corpo íntegro, em 86 casos.
Em 2025, o desconhecimento da vontade do potencial doador apareceu em 65 recusas, enquanto 214 ocorreram porque algum familiar era contrário à doação.
Motivos de recusa20252026Convicções religiosas1512Desconhecimento do desejo do potencial doador6531Familiar contrário à doação214136Familiares descontentes com o atendimento–02Familiares desejam corpo íntegro4186Familiares indecisos121–Potencial doador contrário à doação em vida8220Receio de demora na liberação do corpo2735Outros (especificar)4943Total614365
Para Lívia Frigeri, intensivista e coordenadora médica do Hospital Vitória Apart, uma conversa em vida pode evitar que a família precise tomar uma decisão sem conhecer a vontade do paciente.
Quando a família nunca conversou sobre doação, eles precisam tomar uma decisão sem saber exatamente o que o familiar gostaria. Por isso, uma conversa simples feita em vida pode fazer uma diferença enorme.
Lívia Frigeri, intensivista e coordenadora médica do Hospital Vitória Apart
Em que situação a doação pode acontecer?
A doação de órgãos de uma pessoa falecida pode ocorrer em situações específicas, principalmente após a confirmação da morte encefálica, quando há perda completa, definitiva e irreversível das funções do cérebro e do tronco encefálico.
Antes disso, a prioridade da equipe de saúde é sempre tentar salvar a vida do paciente. Somente depois da confirmação do óbito e da avaliação da possibilidade de doação é que a família é abordada para decidir sobre a autorização. Lívia explica que esse é um dos pontos que mais geram dúvidas entre os familiares.
“Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de compreender quando uma família está dentro de uma UTI: como meu familiar pode ter morrido se o coração dele ainda está batendo? E essa dúvida é absolutamente compreensível. O coração pode continuar batendo porque a medicina intensiva consegue, temporariamente, manter a oxigenação e a circulação com aparelhos e medicamentos”, explica.
Como declarar que quer ser doador?
Não é necessário fazer um documento específico ou registrar a decisão em cartório. A orientação da coordenadora da CET-ES, Maria Machado, é conversar diretamente com os familiares e deixar o desejo claro.
A recomendação dela é que o assunto seja tratado com naturalidade, em um momento em que a família esteja reunida e possa conversar sem a pressão de uma situação de emergência.
É uma conversa mesmo, uma conversa aberta, uma conversa franca e clara para que a família, no momento, possa dizer sim. Como as pessoas têm muita dificuldade de falar sobre a morte, têm medo, têm tabu, então todos nós meio que corremos um pouco dessa conversa.
Maria Machado, coordenadora da CET-ES
A pessoa também pode especificar se deseja doar todos os órgãos e tecidos possíveis ou se existe algum que não gostaria de doar. O mais importante, segundo a coordenadora, é que os familiares saibam qual era a vontade do potencial doador.
Isso não significa, porém, que todas as pessoas terão necessariamente órgãos ou tecidos aproveitados após a morte.
A condição de saúde é avaliada somente quando ocorre o óbito. A equipe médica analisa o histórico do paciente, realiza exames e verifica quais órgãos e tecidos podem ser utilizados com segurança.
“Às vezes você tem uma condição de saúde que te impede de doar, mas a condição de saúde permite que você doe um fígado ou doe um rim. Então, todos nós somos potenciais doadores”, afirma.
Quais órgãos e tecidos podem ser doados?
Entre os órgãos que podem ser destinados a transplantes estão coração, rins, fígado e pulmões, além de outros órgãos em situações específicas. Também podem ser doados tecidos, como córneas e esclera, entre outros que podem ser utilizados conforme as condições do doador e os critérios médicos.
Segundo Andreia Pereira, presidente da Comissão de Doação de Órgãos do Hospital Vitória Apart, um potencial doador de múltiplos órgãos pode beneficiar aproximadamente oito a nove pacientes, dependendo dos órgãos e tecidos que possam ser aproveitados.
Se ele doa os dois rins, por exemplo, eu consigo beneficiar dois pacientes. Se doa as duas córneas, no caso do tecido ocular, são mais dois. Se doa o coração, mais uma pessoa; o fígado, às vezes, pode beneficiar até duas pessoas. E, se houver possibilidade de doação dos pulmões, mais uma.
Andreia Pereira, presidente da Comissão de Doação de Órgãos do Hospital Vitória Apart
O que acontece depois que a família autoriza?
Depois da autorização, o potencial doador passa por uma série de avaliações para determinar quais órgãos e tecidos podem ser aproveitados. O hospital comunica a Central de Transplantes, que acompanha o processo e organiza as etapas necessárias para a captação.
“Se a família doar, aí é que o nosso trabalho começa. A partir do momento que a gente tem todas as informações desse doador, depois da autorização da família e dos exames que a gente realiza, nós vamos cadastrar esse doador no sistema”, explica Maria.
A partir dessas informações, o sistema faz a compatibilidade com os pacientes que aguardam um transplante.
A distribuição dos órgãos segue critérios estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes. Segundo Maria, a gravidade do quadro, a compatibilidade sanguínea e outros critérios médicos entram na definição do receptor.
“Cada órgão tem uma lista. O primeiro princípio é a gravidade. Quanto mais grave, mais na frente você fica, porque é risco de morte. Depois entram o ABO, antígeno sanguíneo, a compatibilidade genética e, por último, a data da inserção, da sua inscrição naquela fila”, afirma.
Em 2024, de acordo com a Central Estadual, o Espírito Santo tinha 89 doadores. Em 2025, eram 87 e, até agosto de 2026, 48.
Confira o número de transplantes realizados no Estado:
Órgãos202420252026 (jan a ago)Coração101106Rim (falecido)827568Rim (vivo)202720Fígado616339Duplo (fígado/rim)000200Córnea323462215Esclera142217
Uma conversa que pode salvar vidas
A decisão de se tornar doador pode começar com uma conversa simples. Avise sua família que você quer ser doador de órgãos e explique que deseja que essa vontade seja respeitada depois da sua morte.
A conversa pode parecer desconfortável, já que envolve falar sobre a própria morte, mas é justamente essa antecipação que pode evitar dúvidas em um momento de sofrimento.
Ela reforça que qualquer pessoa pode, em algum momento, precisar de um transplante, mas a possibilidade de se tornar doador depende de uma situação específica após a morte.
Nós temos que ter essa consciência porque qualquer um de nós, a qualquer momento, pode ir para a fila do transplante. Mas nós provavelmente não seremos, se não tivermos um diagnóstico de morte encefálica, um potencial doador.
Maria Machado, coordenadora da CET-ES
Fonte: Folha Vitória