A Argentina já faz parte, portanto, de uma cadeia que passa por portos, armazenagem, transporte, comércio eletrônico e distribuição a partir do Espírito Santo para todo o país.
Tem um “match” em curso entre a NOVA ES, agência capixaba de atração de investimentos, e a PromArgentina, a agência correlata dos “hermanos”. As duas instituições iniciaram conversas para fechar bons negócios para os dois lados. E a aproximação chega em um momento especialmente oportuno: a menos de um mês do primeiro voo direto entre Vitória e Buenos Aires, em 17 de outubro.E vale lembrar que o ES é um dos maiores importadores de vinhos argentinos do Brasil.
A agência capixaba iniciou, durante a Rio Oil and Gas (ROG.e) 2026, tratativas para uma parceria institucional com a agência argentina de promoção de exportações e investimentos. O movimento ajuda a ampliar uma ponte que até agora vinha sendo construída principalmente pelo turismo. No entanto, ela pode ganhar escala em comércio exterior, atração de empresas e investimentos.
A conversa reuniu ainda representantes do Consulado-Geral da Argentina no Rio de Janeiro e da Embaixada argentina no Brasil. É esse tipo de encontro que dá à NOVA ES mais poder de articulação dentro da estratégia de internacionalização do Estado. Ou seja, identificar quem decide, aproximar empresas e transformar vantagens competitivas capixabas em projetos. “A agência vai aonde as decisões de negócios são tomadas e leva o Espírito Santo para essa mesa”, afirmou a diretora-presidente da NOVA ES, Patrícia Gouvêa.
Do avião à mesa de negócios
O calendário ajuda. Em 17 de outubro, a Gol fará o voo experimental direto entre Vitória e Buenos Aires, com retorno em 24 de outubro. A operação, com cerca de 170 lugares comercializada pela CVC, foi concebida não apenas para transportar turistas, mas para testar a demanda e abrir espaço para uma conexão regular. O projeto inclui promoção do Espírito Santo na Argentina, aproximação com operadoras e rodadas de negócios. A expectativa já apresentada pelo governo é que, se o teste responder bem, operações regulares possam surgir ainda na alta temporada.
Essa relação econômica já existe antes mesmo do primeiro avião decolar. O mercado de vinhos é um bom exemplo. Como mostramos na semana passada, só o Grupo Víssimo, dono das marcas Evino e Grand Cru, movimenta atualmente entre 90 e 100 carretas por mês com vinhos importados principalmente do Chile e da Argentina.
Víssimo, Wine e Vila Porto respondem juntos por cerca de 33% de todo o vinho importado pelo Brasil. E, do mesmo modo, o Espírito Santo já é o segundo maior importador nacional do produto. Em 2025, as importações capixabas de vinho chegaram a US$ 94,8 milhões, ou R$ 487,5 milhões.
Desafio é transformar relacionamento em investimento
É aí que a atuação da NOVA ES pode ter efeito multiplicador. Uma agência de investimentos conectada diretamente à PromArgentina pode usar fluxos comerciais que já existem para encontrar novos negócios. E nesse sentido, aproximar exportadores argentinos de operadores logísticos capixabas, identificar empresas interessadas em usar o Estado como plataforma de distribuição no Brasil, bem como apresentar projetos locais a investidores argentinos.
O mesmo raciocínio vale para turismo, alimentos e bebidas, energia, petróleo e gás, tecnologia e infraestrutura.
Quando apresentamos o Estado a investidores internacionais, mostramos que temos condições importantes para quem busca novos mercados. Possuímos localização estratégica, solidez fiscal e estabilidade, além de um conjunto de incentivos competitivos e estruturas de acesso a capital.
Patrícia Gouvêa, diretora-presidente da NOVA ES
Muito além de um voo teste
Há, porém, uma linha que separa internacionalização de agenda internacional. Reuniões, missões e memorandos só ganham peso econômico quando produzem investimento, emprego, contratos ou aumento do fluxo comercial. O voo também será submetido ao mesmo teste: não bastará inaugurar a rota. Ou seja, será necessário ocupá-la, repetir a operação e transformá-la em ligação regular.
O próprio desenho apresentado para Buenos Aires reconhece isso ao combinar conectividade, promoção e comercialização, em vez de tratar o voo como evento isolado.
Por isso, o próximo passo da NOVA ES precisa ser mensurável. Vale acompanhar quantas empresas argentinas entram no radar da agência, quantas visitas empresariais chegam ao Estado, quantos projetos avançam para negociação e quanto o comércio bilateral cresce.
Corredor Vitória x Buenos Aires
Do outro lado, outubro dará um indicador concreto: ocupação do voo, venda de pacotes e possibilidade de novas frequências. Se essas duas frentes se encontrarem, a conexão Vitória-Buenos Aires poderá valer muito mais do que as três horas e meia de viagem. Pode transformar uma rota aérea em corredor permanente de negócios entre o Espírito Santo e a Argentina.
Fonte: Folha Vitoria