*Artigo escrito por Djalma Quintino Malta Filho, presidente emérito e membro do conselho consultivo da Associação dos Empresários da Serra (ASES) e sócio-diretor do Grupo Dikma
Chego a pensar em um termo pouco comum, mas apropriado para algumas discussões atuais: ultracrepidário. É aquele que dá opinião sobre aquilo que não conhece suficientemente. Talvez por ser um tema polêmico, quando se fala em apagão de mão de obra surgem muitas narrativas, algumas apresentadas como verdades absolutas, sem que se consiga apontar com segurança as causas reais do problema.
Dentro das nossas organizações, podemos observar o que está acontecendo, levantar hipóteses e compartilhar experiências. O que não devemos é transformar a nossa percepção em verdade única.
Há, no entanto, algo evidente: o mercado de trabalho mudou e aquela disponibilidade de profissionais com a qual as empresas estavam acostumadas já não existe da mesma forma.
Tenho experiência para fazer essa comparação. Vivi um verdadeiro apagão de mão de obra na década de 70, provocado pelo excesso de ofertas de trabalho em praticamente todas as áreas. Hoje, o que observo é um fenômeno diferente.
Temos uma dificuldade cada vez maior para encontrar profissionais, principalmente para funções operacionais. Vagas que antes recebiam muitos candidatos permanecem abertas e, quando conseguimos contratar, ainda enfrentamos desistências e alta rotatividade.
As razões são diversas. A relação das novas gerações com o trabalho mudou. Muitos jovens permanecem mais tempo na casa dos pais e adiam projetos que antes representavam a entrada na vida adulta, como comprar uma casa, ter um carro, construir uma carreira e conquistar independência financeira.
Isso não significa necessariamente falta de vontade de trabalhar, mas pode diminuir a urgência de aceitar ou permanecer em um emprego que não seja considerado atrativo.
Ao mesmo tempo, salário deixou de ser o único fator levado em consideração. Horário, distância, benefícios, ambiente de trabalho, reconhecimento, possibilidade de crescimento e qualidade de vida passaram a pesar na escolha.
Nas funções operacionais, que muitas vezes exigem esforço físico, deslocamentos maiores, horários específicos e uma rotina mais rígida, essa equação se torna ainda mais complexa.
A pergunta já não é apenas “quanto vou ganhar?”, mas também: “do que vou precisar abrir mão para trabalhar aqui?”.
Há ainda um ponto que não pode ser desprezado: a possível influência dos benefícios sociais do governo. É comum ouvirmos relatos de pessoas que deixam de aceitar empregos formais pelo receio de perder benefícios. Na minha percepção, essa possibilidade existe e precisa fazer parte da discussão.
Mas seria simplista atribuir somente a ela a responsabilidade pela falta de mão de obra. Informalidade, custo de vida, remuneração, condições de trabalho, qualificação profissional e mudanças de comportamento também fazem parte dessa equação.
Isso não significa abandonar a discussão sobre responsabilidade. Hoje vejo muito assistencialismo e, em algumas situações, poucas responsabilidades ou obrigações.
Quem empreende e convive diariamente com a dificuldade de contratar sabe que esse componente existe. É um tema desconfortável, mas não deve ser retirado do debate.
Da mesma forma, as empresas precisam olhar para dentro. Se as expectativas das pessoas em relação ao trabalho são outras, não basta continuar procurando profissionais da mesma maneira e esperar os mesmos resultados.
O desafio dos Recursos Humanos passa a ser compreender não apenas o que está afastando candidatos das vagas, mas o que dificulta sua permanência nas organizações.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante já não seja “onde estão os trabalhadores?”, mas “o que precisamos mudar para que as pessoas queiram trabalhar e permanecer conosco?”.
Na década de 70, vivi um apagão provocado por um mercado aquecido e pelo excesso de oportunidades. Hoje, tenho dificuldade em dar o mesmo nome ao que estamos vivendo. Existem ausências de mão de obra, sem dúvida, mas suas causas são muito mais complexas.
Empresas precisarão rever estratégias, assim como não podemos abandonar valores como responsabilidade e compromisso. Toda relação profissional pressupõe direitos e deveres.
São enormes os desafios daqui para frente. E talvez o primeiro seja justamente abandonar as explicações fáceis para compreender o que, de fato, está acontecendo com o mundo do trabalho.
Folha Vitória