Imagem de Drazen Zigic no Magnific
Quando um homem recebe um exame mostrando testosterona baixa, é comum que a primeira pergunta seja: “Preciso repor testosterona?”. Mas talvez exista uma questão ainda mais importante antes disso: por que essa testosterona está baixa?
A resposta nem sempre está em uma deficiência permanente do hormônio. Em alguns casos, a redução dos níveis de testosterona pode ser consequência de alterações metabólicas e de condições de saúde que precisam ser investigadas e tratadas antes da indicação de uma reposição hormonal.
Um exame isolado não diagnostica hipogonadismo
O hipogonadismo masculino não deve ser diagnosticado a partir de um único resultado laboratorial.
Para confirmar a condição, é necessário que o paciente apresente sintomas compatíveis, como redução da libido ou das ereções espontâneas, associados a níveis consistentemente baixos de testosterona em pelo menos duas coletas realizadas pela manhã, em dias diferentes.
A testosterona, portanto, não deve ser analisada como um número isolado. O diagnóstico depende da combinação entre exames laboratoriais, sintomas e uma investigação cuidadosa das possíveis causas da alteração.
Testosterona baixa pode ser consequência, e não a doença
Existem causas permanentes de hipogonadismo relacionadas a alterações nos testículos, na hipófise ou no hipotálamo. Nesses casos, a reposição hormonal pode ser necessária após avaliação médica adequada.
Mas também existem causas potencialmente reversíveis.
Entre elas está uma condição extremamente frequente no consultório: a obesidade.
O excesso de tecido adiposo, especialmente a gordura visceral, está associado a alterações metabólicas e hormonais capazes de interferir no eixo responsável pela produção de testosterona. Por isso, alguns homens com obesidade podem apresentar redução dos níveis hormonais sem que exista uma falência definitiva da produção natural de testosterona.
O hipogonadismo secundário relacionado à obesidade ocorre em uma parcela dos homens e pode mudar completamente o raciocínio terapêutico.
Em alguns casos, perder peso também melhora a testosterona
Às vezes, tratar o metabolismo é também tratar a testosterona.
Em homens com obesidade e hipogonadismo, a perda de peso pode contribuir para o aumento dos níveis hormonais e estar associada à melhora da função física, da libido e da função erétil.
Por isso, quando a redução da testosterona está relacionada à obesidade, o tratamento da causa deve fazer parte da estratégia antes de se considerar, automaticamente, a reposição hormonal.
Esse conceito é especialmente importante porque obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e alterações do colesterol frequentemente aparecem no mesmo paciente. São condições interligadas, que aumentam o risco cardiovascular e precisam ser abordadas de forma integrada.
É preciso olhar para o paciente como um todo
Quando um homem com obesidade, hipertensão ou diabetes apresenta testosterona baixa, não deveríamos olhar apenas para o hormônio.
É preciso avaliar o paciente como um todo.
Como está o peso? E a circunferência abdominal? Como estão a pressão arterial, a glicemia e o colesterol? O paciente pratica atividade física regularmente? Existem medicamentos ou outras doenças capazes de interferir no funcionamento do eixo hormonal?
Essas perguntas fazem parte de uma investigação mais ampla.
Em homens com obesidade, diabetes ou outras condições capazes de alterar a proteína transportadora dos hormônios sexuais, pode ser necessária também a avaliação da testosterona livre.
A investigação ajuda a identificar a origem do problema
Depois da confirmação da testosterona persistentemente baixa associada a sintomas compatíveis, outros exames podem ajudar a identificar a origem da alteração.
A dosagem de LH e FSH, por exemplo, auxilia na diferenciação entre alterações que têm origem nos testículos e aquelas relacionadas ao eixo hipotálamo-hipófise.
Essa investigação direciona o diagnóstico e permite definir a melhor estratégia de tratamento.
É um raciocínio muito diferente de encontrar uma testosterona discretamente baixa em um exame isolado e iniciar imediatamente a reposição hormonal.
Quando a reposição de testosterona é indicada?
A reposição de testosterona tem indicação quando existe hipogonadismo verdadeiro e adequadamente investigado.
Pacientes com hipogonadismo primário ou com determinadas formas permanentes de hipogonadismo secundário podem ser candidatos ao tratamento, desde que sejam avaliadas as contraindicações e os riscos individuais.
A terapia também exige acompanhamento médico.
Entre os cuidados necessários está a avaliação dos níveis de hemoglobina, já que a testosterona pode estimular a produção de glóbulos vermelhos. Outros aspectos, incluindo a avaliação individualizada da saúde prostática, também devem fazer parte do acompanhamento.
Testosterona baixa pode ser mais uma peça do quebra-cabeça
A mensagem não é ser contra a testosterona. É ser contra tratar um exame sem entender o paciente.
Para os cardiologistas, existe ainda uma oportunidade importante nesse processo. Muitos homens procuram atendimento preocupados com pressão arterial, colesterol, excesso de peso ou risco de infarto e podem apresentar, ao mesmo tempo, alterações hormonais e metabólicas.
Talvez a testosterona baixa seja mais uma peça desse quebra-cabeça.
Antes de perguntar “como aumentar minha testosterona?”, vale fazer uma pergunta mais ampla: “O que a minha testosterona baixa pode estar dizendo sobre a minha saúde?”
Porque, em alguns homens, cuidar do peso, do metabolismo e do coração pode ser também o primeiro passo para recuperar a saúde hormonal.
Fonte: Folha Vitória