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Novo tarifaço: Agro capixaba, em especial o café solúvel, corre contra o relógio

A pouco menos de 40 dias de uma nova rodada de tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros, setores do ES começaram a discutir a antecipação de contratos, embarques e formação de estoque

Por Redação em 09/06/2026 às 05:00:24
Fábrica de café solúvel em Linhares: produto com valor agregado que está no topo da lista dos que mais sofrem com novas tarifas adicionais dos EUA. Crédito: Divulgação/Olam

Fábrica de café solúvel em Linhares: produto com valor agregado que está no topo da lista dos que mais sofrem com novas tarifas adicionais dos EUA. Crédito: Divulgação/Olam

O agro capixaba talvez esteja diante de uma decisão que mistura logística, risco e geopolítica: exportar antes? Ou correr o risco de pagar depois? A pouco menos de 40 dias de uma nova rodada de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, setores do Espírito Santo começaram a discutir um movimento de antecipação de contratos, embarques e formação de estoques. Tudo isso para tentar escapar das novas sobretaxas defendidas pelo governo Donald Trump. O tempo é curto: haverá audiência pública nos EUA no dia 7 de julho, e as medidas podem entrar em vigor já em 15 de julho.

A preocupação tem motivo. O pacote em discussão prevê uma tarifa de 25% exclusiva para produtos brasileiros, além de outra alíquota de 12,5% aplicada a cerca de 60 países, baseada em alegações ligadas a trabalho forçado e práticas comerciais condenáveis pelo governo dos EUA.

O secretário de Agricultura do Espírito Santo, Enio Bergoli, considera que há forte componente político e inconsistências no desenho das medidas. A principal contradição está no fato de produtos ligados à pecuária aparecerem como alvo de questionamentos trabalhistas, enquanto a carne bovina permanece na lista de exceções.

O Espírito Santo olha especialmente para dois pontos sensíveis: café solúvel e pescado. Bergoli admite que antecipar embarques é uma das alternativas avaliadas, mas faz ressalvas. É uma tentativa. O problema é que antecipar vendas exige compradores dispostos a receber antes, reorganização logística e espaço financeiro para ampliar estoques. E nem sempre isso é simples numa cadeia global. Na verdade, quase nunca é simples.

A ameaça ao café e ao pescado

A preocupação do Estado não é teórica. O café solúvel talvez seja hoje o elo mais vulnerável da agroindústria capixaba. O produto, que usa o conilon como principal matéria-prima, depende fortemente do mercado americano e ganhou peso estratégico após a instalação de duas novas fábricas em Linhares nos últimos anos.

Nesse sentido, hoje, mais da metade do café solúvel exportado pelo Brasil sai do Espírito Santo. No pescado, a dependência é ainda maior. Ou seja, 98% das exportações capixabas têm os Estados Unidos como destino, o que, do mesmo modo, transforma qualquer sobretaxa num potencial choque econômico para o Litoral Sul capixaba.

O alerta não nasce apenas do Espírito Santo. Reportagem do Estadão mostrou que exportadores brasileiros de máquinas, produtos químicos, embarcações e calçados já aceleraram embarques aos EUA diante da ameaça tarifária. Houve salto nas exportações e crescimento atípico das vendas justamente para aproveitar a janela antes de uma possível taxação.

O jornal, no entanto, também registrou um risco importante: pela legislação americana, tarifas podem ter efeito retroativo, o que significa que antecipar nem sempre garante proteção.

Rochas ainda observam o cenário

No setor de rochas naturais, uma das maiores vitrines exportadoras do Espírito Santo, ainda não existe um movimento coordenado de antecipação. Em posicionamento enviado à coluna, o Centrorochas afirmou que “não existe nenhum movimento organizado, neste sentido”.

A entidade reconhece que empresas podem tomar decisões individuais, mas pondera que o setor ainda tenta compreender os riscos reais das medidas. “A informação que temos, como setor organizado, é que todos ainda estão tentando entender e avaliando os riscos que estas notícias trarão”, informou.

Fonte: Folha Vitoria

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