O café responde por cerca de 52% do Valor Bruto da Produção Agropecuária do Espírito Santo. É uma liderança consolidada, histórica e estratégica para o estado. Mas ela também revela uma vulnerabilidade: quando o café vai mal – seja por clima, por preço ou por excesso de oferta – metade do agro capixaba sente o impacto. Santa Maria de Jetibá construiu um modelo diferente. E os números mostram por quê ele funciona.
O município é o maior produtor de ovos do Brasil. A avicultura de postura movimentou R$ 1,69 bilhão no último ano, respondendo por 51,2% de todo o Valor Bruto da Produção Agropecuária local, segundo dados do Painel Agro do Incaper.
Com 91,3% da produção capixaba concentrada ali, Santa Maria de Jetibá sustenta a posição do Espírito Santo como quarto maior produtor nacional de ovos, com 8% do total do país. Mas o ovo, que já seria suficiente para definir a identidade econômica do município, é apenas o começo da história.
Na olericultura, o município se destaca pelo volume e pela diversidade. Chuchu e repolho, juntos, somam mais de R$ 519 milhões em valor de produção. O gengibre gera R$ 116,2 milhões e conecta o campo capixaba a mercados internacionais exigentes, Santa Maria de Jetibá é o segundo maior produtor estadual da raiz, atrás apenas de Santa Leopoldina.
Somam-se ainda alface, tomate, cebola, cenoura, brócolis, vagem e dezenas de outras hortaliças que, individualmente, têm participações menores, mas que juntas formam uma base econômica robusta, pulverizada e resistente a crises.
O modelo funcionou na prática em 2025. A crise de gripe aviária nos Estados Unidos destruiu dezenas de milhões de aves poedeiras ao longo de 2024 e 2025, colapsando a oferta americana. O preço do ovo no varejo americano chegou a US$ 9,64 por dúzia em fevereiro de 2026, recorde histórico. Importadores americanos varreram o mercado global em busca de fornecedores.
O Brasil estava disponível e o Espírito Santo estava particularmente bem posicionado. Santa Maria de Jetibá, com escala, estrutura logística e sanitária, respondeu com velocidade e exportou em volume pela primeira vez. Foi a diversificação de destino que o setor nunca havia precisado testar e funcionou.
Danieltom Vandermas, gerente de Dados e Análises da Seag, explica a lógica por trás do modelo. “Em uma eventual crise do café, seja por queda de preços, problemas climáticos ou restrições de mercado, municípios altamente dependentes dessa cultura sentem o impacto imediato. A diversificação funciona como um amortecedor de risco”.
“Em Santa Maria de Jetibá, enquanto um produto pode enfrentar dificuldades conjunturais, outros seguem gerando receita, mantendo o giro econômico e sustentando o mercado local. Isso significa diluição de risco, maior previsibilidade de renda e capacidade de atravessar ciclos negativos sem rupturas”, completa Vandermas.
O município também abre a safra 2026 do gengibre, início das colheitas aconteceu nesta semana em Caramuru, localidade rural de Santa Maria de Jetibá.
Para o agro capixaba como um todo, Santa Maria de Jetibá não é uma exceção curiosa. É um modelo replicável. O estado acompanha estatisticamente mais de 115 produtos agropecuários e a maioria dos municípios capixabas ainda concentra 70%, 80%, 90% do seu valor bruto em uma única cultura.
O que Santa Maria de Jetibá construiu ao longo de décadas, com diversificação, escala, mercado e capacidade de reagir quando uma porta fecha, é o que o agro capixaba precisa ampliar para reduzir sua dependência estrutural do café e construir resiliência de longo prazo.
Fonte: Folha Vitoria