Quando as temperaturas sobem, aumentam também as dúvidas sobre como devemos nos hidratar após o exercício físico. Água é suficiente? Bebidas isotônicas trazem algum benefício real? A resposta depende do contexto fisiológico. E entender essa fisiologia é particularmente importante quando pensamos em saúde cardiovascular.
Durante o exercício no calor, o corpo perde não apenas água, mas também eletrólitos, principalmente sódio. O suor contém quantidades significativas de sódio, e sua perda pode ser relevante quando o exercício é prolongado ou realizado sob altas temperaturas.
Estudos clínicos randomizados mostram que, após uma desidratação equivalente a cerca de 2% do peso corporal — algo relativamente comum em treinos longos no calor — a ingestão de bebidas contendo sódio promove maior retenção de líquidos e melhor restauração do volume plasmático quando comparada à água isoladamente.
Em protocolos controlados de reidratação, soluções com maior teor de sódio resultaram em menor produção urinária e recuperação mais eficiente do volemia corporal.
A relação com o coração
Do ponto de vista cardiovascular, isso não é um detalhe trivial. A redução do volume plasmático aumenta a frequência cardíaca, reduz o retorno venoso e pode comprometer o débito cardíaco durante o esforço, aumentar o trabalho cardíaco.
Em indivíduos suscetíveis, especialmente aqueles com doença cardiovascular estabelecida ou limítrofe, a combinação de calor, desidratação e vasodilatação periférica pode favorecer hipotensão, tontura e, em situações extremas, perda da consciência. A reposição adequada de líquidos e eletrólitos ajuda a preservar o volume circulante e a estabilidade hemodinâmica no período pós-exercício.
Por outro lado, é importante não transformar isotônicos em solução universal. Em atividades de curta duração ou intensidade leve a moderada, mesmo em dias quentes, a água costuma ser suficiente para restaurar o equilíbrio hídrico. A maioria das pessoas superestima suas perdas de eletrólitos em exercícios breves.
Além disso, bebidas isotônicas tradicionais contêm carboidratos simples que aumentam a carga glicêmica e calórica, o que pode não ser desejável para indivíduos com diabetes, obesidade ou síndrome metabólica — condições intimamente ligadas ao risco cardiovascular.
Outro ponto relevante é que a ingestão excessiva de água, sem reposição de sódio, em exercícios muito prolongados pode levar à hiponatremia associada ao esforço, uma condição potencialmente grave decorrente da diluição do sódio plasmático. Embora rara em praticantes recreacionais, ela ilustra que hidratação também exige equilíbrio e não deve ser guiada apenas pela ideia de “quanto mais, melhor”.
Assim, a decisão entre água e isotônico deve considerar duração, intensidade, temperatura ambiente e volume de suor. Se o exercício ultrapassa 60 a 90 minutos, ocorre em ambiente quente e há perda evidente de peso corporal ou suor abundante, a reposição com bebida contendo sódio pode trazer benefício fisiológico real. Já em treinos mais curtos, a água continua sendo a opção simples, eficaz e segura.
Hidratar-se bem após o exercício não é apenas uma questão de desempenho esportivo. É também uma estratégia de proteção cardiovascular, especialmente em um cenário de mudanças climáticas, ondas de calor mais frequentes e população cada vez mais ativa em idades mais avançadas. No fim, a melhor escolha não é a mais popular, mas aquela que respeita a fisiologia do seu corpo e o contexto em que ele foi desafiado.
Folha Vitória